Juventude

X Conferência da FT

A juventude no mundo se rebela contra o capitalismo

O mundo começou a efervescer: No centro dos principais fenômenos políticos a juventude deixou para sempre nos anos 90 e início dos 2000 toda a passividade sob a qual cresceu a nossa jovem geração.

Tatiane Lima

UNICAMP

segunda-feira 22 de agosto| Edição do dia

Crescemos sob as ideias de dominação impostas por setores minoritários, que governam o mundo de acordo com os seus próprios interesses a custa da ampla maioria. Os anos 90 foram de muita exploração aos trabalhadores (a níveis altíssimos de precariedade), divisão em mil tipos de categorias para baixar os salários (efetivos e terceirizados, formais e informais, imigrantes e nativos etc.) enquanto esses poucos ricos mantiveram suas fortunas e privilégios, bem como seus representantes nos governos seguiram ganhando altos salários e regalias, para representarem apenas a si mesmos e aos grandes capitalistas do mundo. Enquanto diziam aos nossos pais que não havia alternativa, a nós prometiam um mundo rico, capaz de integrar e satisfazer a todos, como “bons cidadãos”, claro. Diziam que as inovações tecnológicas e todo seu universo estavam prontos para nos realizar através do consumo. Esse sistema de dominação econômica e política, chamamos neoliberalismo: um grande empreendimento da burguesia mundial, que emergiu sob as figuras da britânica Margaret Thatcher e do norte-americano Ronald Reagan, para responder à crise do capitalismo nos anos 70. A crise capitalista atual, com a queda do Lehman Brothers em 2008, desencadeou fenômenos importantes, políticos e da luta de classes, que apontam a decadência dessa empreitada neoliberal, com uma grande resistência de trabalhadores, jovens e setores oprimidos para que não nos imponham ataques ainda maiores.

A primeira onda de levantes e questionamentos arrebentou após um jovem tunisiano, “formado, mas desempregado”, incendiar o próprio corpo para fugir da realidade de miséria que lhe era imposta. Abriu-se processos de lutas, conhecido como Primavera Árabe, que desdobrou em muitos outros pelo mundo. Foram movimentos onde os jovens tiveram protagonismo, ocuparam as praças e as ruas mostrando sua insatisfação e já marcando uma profunda desconfiança na velha política podre e tradicional. No entanto, o que era primavera virou um inverno gelado. O imperialismo norte-americano e europeu, ainda que com muitas dificuldades, conseguiu desviar essas lutas para desfechos reacionários. A volta dos militares no Egito, bombardeios na Líbia, e a violenta guerra na Síria, que já registra mais de 500 mil mortos, incluindo muitas crianças que são assoladas pelos bombardeios, milhões de desabrigados e refugiados, são alguns dos exemplos do que ocorreu em alguns países. A ausência de uma estratégia revolucionária, para levar cada levante e indignação a se ligar aos trabalhadores para um questionamento à raiz do capitalismo, que se rebelasse contra os grandes industriais, empresários e representantes políticos dos governos opressores, cobrou o seu processo. Apesar desse desfecho dramático da Primavera Árabe, as fendas abertas na terra por um grande terremoto não se fecham de um dia para outro. Novos fenômenos políticos e da luta de classes estão colocados e já podemos ver uma nova onda de protestos da juventude que promovem mudanças nas velhas formas de “pensar e sentir”.

Nos Estados Unidos, antes símbolo mundial da hegemonia capitalista que “triunfou sobre as ideias comunistas”, graças à decadência e burocratização que impôs o stalinismo aos exemplos da Revolução Russa de 1917, a juventude pesa cada vez mais como um fator político de profundo questionamento à desigualdade social. Desde o movimento Ocupy Wall Street (2011) até o surgimento das marchas Black Lives Matter (2012) após o assassinato do jovem negro Trayvorn Martin, despontou uma nova geração que se desenvolveu nos levantes negros contra os recorrentes assassinatos feitos pela polícia racista norte-americana. Denunciando como os direitos civis são retirados da população afro-americana, que mais sofre com os efeitos da crise econômica, pois existe uma política consciente dos governos de promover novas formas de segregação racial. Essa juventude é o ponto de fissura no Partido Democrata, que se entusiasmou com o discurso “socialista” de Bernie Sanders, mas que prontamente o vaiou quando este buscou apoio à Hillary, seus planos pró-establishment e a farsa da unidade nacional. São centenas que tomam as ruas para dizer que as vidas dos negros importam, defendem os imigrantes. Foram os mesmo que implodiram o comício do reacionário Trump em Chicago e estão contra seus planos de “diagnósticos ideológicos” ou qualquer restrição xenófoba. Essa mesma juventude se depara com a crise do bipartidarismo e mostra que busca muito mais do que essa velha política, quer alternativas que respondam mais a fundo seus anseios contra o estado atual das coisas.

Essa nova onda também atingiu em cheio os países europeus. Na França, a juventude “Nuit Debout”, entre secundaristas e universitários, mostrou sua radicalidade contra a reforma trabalhista de Hollande e seu Partido “Socialista” e o seu ódio à polícia, fazendo tremer a burocracia sindical e o governo quando se ligou a setores chaves da classe trabalhadora. As marchas de centenas de milhares, em pleno estado de emergência, mostraram a potencialidade de uma saída à esquerda para a crise capitalista. Na Alemanha e Espanha também a juventude combate o racismo e xenofobia contra os imigrantes. Em uma Europa marcada pela agressividade da crise econômica, como ilustra o alto desemprego que chega a até 60% para a juventude na Grécia, o Brexit e a aspiração “colonizadora” da Alemanha, o grande empreendimento da União Europeia mostra também sua falência - essa, que por muito tempo foi a vitrine “do estado de bem estar social” e do capitalismo como um “sistema que dá certo”, hoje é uma fotografia crua da calamidade.

No Brasil a crise política e o questionamento do regime, aberto pela juventude das Jornadas de Junho em 2013, corou a decadência do ciclo conciliador petista e chegou ao ápice em 2016, com um golpe institucional aplicado pela direita ultraconservadora, os grandes capitalistas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a grande mídia, e o setor Judiciário, com suas arbitrariedades inconstitucionais. Foi um golpe contra os trabalhadores e setores oprimidos, para impor maiores ataques do que os que já eram aplicados pelos governos petistas. A atual crise de representatividade e a grande politização expressa no grito de “Fora Temer” mostram que estamos longe de uma estabilidade que permita aos golpistas seguirem seus planos sem fortes questionamentos, a despeito da passividade que busca o PT, para se apresentar como uma alternativa eleitoral viável aos planos imperialistas de fazer com que os trabalhadores e jovens paguem pela crise.

Dizem que temos que nos conformar com a precariedade do trabalho e a vivermos pior do que viveram os nossos pais. Dizem que não temos futuro, que os nossos diplomas não servirão para nada. Dizem que temos que morrer em nossos países nas guerras que eles causaram, nos “barcos da morte” ou nas mãos da polícia e dos grupos racistas dos países para onde fugimos dessa barbárie. Nos assassinam e dizem que nossas vidas não importam porque somos negros, mulheres ou LGBTs. Nos dizem que nunca teremos direito à educação pública gratuita de qualidade ou nos tomam o pouco que ainda temos. Nos dizem que não temos direito à ser... Nos dizem muitas coisas, mas se tem algo que temos certeza é que vivemos um momento histórico, nos levantamos contra cada “verdade” porque sabemos que o mundo nunca mais voltará a ser como antes e que é para o capitalismo que não há mais alternativa- Ele merece perecer!

Essa e outras reflexões são parte do vivo debate que fez a X Conferência Internacional da Fração Trotskista. Nós viemos elaborando artigos e discussões a partir de uma tese: vivemos hoje no mundo crises mais agudas que não são isoladas em cada país, como algo conjuntural, mas que expressam uma crise mais de conjunto. Usamos a categoria de “crise orgânica”, do marxista revolucionário italiano Antonio Gramsci, para entender esses novos momento que passamos em diversos países do mundo. Essas crises, abertas como no caso do Brasil ou Venezuela, ou como tendências, como no caso dos países centrais, Estados Unidos principalmente, são marcadas por uma situação de intensa polarização política, onde os de cima não podem dominar como antes e os de baixo tampouco podem ser dominados pelos métodos clássicos da democracia burguesa.

Em meio a essas polarizações, a extrema direita tenta se fortalecer para impor um futuro ainda mais sombrio à juventude. Nesse momento as velhas formas com novas roupagens não servem para dar uma resposta à altura para desafios “extremos”. Os neoreformistas, como o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha, são funcionais para estabilização capitalista na medida em que aparentam um projeto de transformação e conseguem represar a fúria social que eclode contra os partidos burgueses tradicionais, para não mudar a ordem das coisas. As medidas de ataques acordadas com a Troika contra o povo grego nos primeiros meses de governo de Tsipras, as alianças com os partidos da alta casta espanhola, com o PSOE, e os discursos que Pablo Iglesias fez aos maiores capitalistas da Espanha mostram como são ideias conciliadoras e incapazes de dar uma resposta real à podridão da política burguesa. Esses exemplos jogam uma pá de cal em qualquer ilusão com essas “novas” formações políticas. Mas tampouco cabe à juventude o silêncio, abandonar o terreno dos grandes debates e disputas políticas. Podemos levar até o final o anseio pelo novo, fazer ouvir nossa voz, nos ligarmos aos trabalhadores contra toda a exploração e opressão construindo verdadeiras organizações anticapitalistas e revolucionárias para por abaixo toda a dominação e opressão burguesa.

Dentre várias ricas conclusões que podemos tirar dessas inúmeras experiências, o entusiasmo da juventude que vimos no mundo a fora aponta para a necessidade de construirmos uma alternativa política, anticapitalista, que apresente uma saída para o nosso futuro. Para ser uma voz e um meio da classe trabalhadora e dos setores oprimidos contra a hegemonia burguesa e seus grandes meios que buscam nos silenciar é que a rede internacional La Izquierda Diário têm o seu sentido de existência, em 11 países e 5 idiomas. No Brasil, além do Esquerda Diário, também estamos impulsionando candidaturas anticapitalistas para as eleições municipais, que se enfrentam com os golpistas, os petistas, todos os partidos da ordem e sua velha política.




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