Política

AUTORITARISMO

A intervenção dos militares nas eleições: Villas Boas exige dar a "benção" a todos candidatos

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quarta-feira 18 de julho| Edição do dia

Manuela D’Avila em foto sorridente ao lado do comandante das Forças Armadas, General Villas Boas é uma imagem que fala muito. Essa imagem mostra a que nível chega este partido, que vai de coligações com tucanos no Maranhão a mil e uma relações com o golpista Rodrigo Maia, como mostramos nesta matéria. A imagem mostra outra coisa mais profunda que está acontecendo. Os militares, ou de forma mais precisa, sua cúpula reacionária, saiu da caserna e abertamente imiscui na política nacional. Esse movimento profundo merece o mais enérgico repúdio e combate.

Como parte da crise nacional que chamamos recorrentemente de “crise orgânica” tomando emprestada a categoria de Gramsci, diversos poderes sem voto (judiciário, “mercado”, igrejas) tem atuado em meio à desarticulação hegemônica do país. A ruína da hegemonia lulista baseada na conciliação de classes e na falsa ideia de um “brasil potência” que permitia algum aumento do consumo em meio a situação excepcional da economia mundial se desarticulou, seja pela ação dos de baixo (junho 2013) como por determinações do capitalismo para aumentar os ataques e a subordinação (lembrando que o segundo mandato de Dilma foi de fortes ataques). Neste “não mais” da velha articulação hegemônica e o “ainda não” de uma nova, elementos antes subordinados e muitas vezes aberrantes vem à tona. Nesta dinâmica ganham força poderes sem voto como fala o marxista italiano, especialmente, em situações em que há menor base econômica para articulação de uma nova hegemonia, ele diz:

Em certo ponto de sua vida histórica os grupos sociais se separam de seus partidos tradicionais, ou seja, os partidos tradicionais naquela forma organizativa determinada com aqueles determinados homens que os constituem, representam e dirigem, já não são reconhecidos como a expressão de sua classe ou fração de classe. Quando essa crise acontece a situação se torna delicada e perigosa, porque o campo fica aberto a soluções de força, à atividade de poderes ocultos representadas por homens providenciais ou carismáticos. Como que são criadas essas situações de oposição entre representantes e representados, que do terreno dos partidos (organizações partidárias em sentido estrito, campo eleitoral-parlamentar, jornalístico) se reflete em todo organismo estatal, reforçando a posição relativa do poder da burocracia (civil e militar), da alta finança, da Igreja, e de todos organismos relativamente independentes da flutuação da opinião pública?” (Cadernos 13, § 23)

A chantagem militar com o que decidirem as urnas e os tribunais, a chantagem do “mercado” para ganhe quem ganhar que ocorra a reforma da Previdência, a arbitrariedade do judiciário, ganharam maiores proporções desde o golpe institucional de 2016, mas também expressam em forma aberta o que vinha se desenvolvendo de forma subordinada anteriormente.

Só assim se entende como militares se atrevam a ameaçar ações conforme o resultado de julgamentos do STF como fez Villas Boas e falar que a “intervenção militar é uma aproximação sucessiva” conforme o resultado eleitoral como fez o general Mourão ano passado.

Mas essa aberração é continuada por uma “beija-mão” e pedido de benção que todos candidatos estão tendo que fazer a Villas Boas. Já se sentaram com ele Bolsonaro, Alckmin, Marina, Ciro e Haddad em nome de Lula (além de Manuela).

Não se pode entender esse poder dos militares sem entender como os governos do PT – e Congresso e o STF – mantiveram intacta a Anistia a torturadores e assassinos, como mantiveram intacto os privilégios dos militares de serem julgados por si mesmos, mesmo quando assassinam civis, e como foi mantido o artigo 144 da Constituição que prevê a intervenção militar. Uma excrescência que consta na Carta Magna graças ao sequestro (!) do relator da Constituinte, como relatamos nesta matéria.

Combater a influência dos militares na política, vai além de denunciar sua quase centena de candidatos (quase todos da alta cúpula, veja todos que conhecemos aqui), ou de denunciar os níveis absurdos a que alcançam a conciliação de classes e com tudo que há de podre no regime por parte do PT e PCdoB. Impõe superar todas ideias de realpolitik por fora de combater essa ingerência militar, como expressou Gilberto Maringoni do PSOL em um post que defendeu Haddad e Manuela beijarem a mão do general golpista. Impõe também a luta contra todos os privilégios dos militares; impõe a luta contra cada medida autoritária na intervenção federal no Rio, como os mandatos de busca e apreensão coletivos, prisões sem julgamento, julgamento de civis por militares, garantindo julgamento por júri popular de todos assassinatos como parte da luta pelo fim da intervenção.

Querer o fim deste poderio e impunidade dos assassinos de ontem e hoje implica lutar pelo fim da lei da anistia e pela punição de todos assassinos e torturadores, e passa por questionar todo esse podre regime político de corrupção e submissão ao imperialismo. Questionar a herança dos militares é também questionar os empresários que lucraram com a ditadura e todos aqueles que seguem donos de suas rádios e televisões e cada acordo de submissão ao imperialismo, começando pela dívida pública aumentada exponencialmente sob o mando dos generais. Para livrar-se da interferência dos militares na política é preciso levar à frente o que o PT e PCdoB não se propõe: um programa anti-imperialista e de independência de classe, perante não somente a FIESP mas de todos podres poderes.




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