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A insubordinação feminina contra a sociedade de classes, um pouco do legado de Leon Trotski

Fernanda Inês

A insubordinação feminina contra a sociedade de classes, um pouco do legado de Leon Trotski

Fernanda Inês

Essa pergunta tão fundamental teve sua resposta mais profunda na revolução Russa de 1917. Nesse mês que completam os 79 anos do assassinato do dirigente da Revolução Leon Trotsky, buscamos trazer nesse artigo alguma de suas reflexões sobre o tema da emancipação feminina, da família e da vida cotidiana.

“ARNOLFO – [...] O casamento, Inês, não é uma piada. A condição de esposa traz deveres austeros; não pretendo erguê-la a essa posição para deixá-la livre aproveitando a vida. Teu sexo nasceu para dependência. A onipotência é para quem tem barba. Ainda que sejamos duas partes de um mesmo todo, as duas partes não são nada iguais. Uma é suprema; outra, subalterna. Uma, em tudo, tem que submeter-se à outra, que comanda. A obediência que o soldado bem disciplinado deve a quem comanda, que o criado demonstra ao seu patão, a criança a seu pai, um frade a seus superiores, não pode nem sequer se comparar a obediência, a docilidade, a humildade e ao profundo respeito que a mulher tem que ter pelo marido, chefe, senhor e dono!”

Assim Molière, no seu livro “Escola de Mulheres”, expressava o patriarcado em meados do século XVII, encarnado e caricaturado em seu personagem Arnolfo, cujo objetivo de vida foi criar uma esposa “perfeita” servil, submissa e obrigada a uma vida de privações e ignorância, contudo seu destino foi ser traído pela insubmissa Inês. Menina astuta e inteligente encarnou o espírito insurreto de combate ao patriarcado e ao conjunto social reacionário que busca castrar a mulher e suas capacidades humanas.

“ARNOLFO – Então você o ama, traidora?
INÊS – E como!
ARNOLFO – E tem a ousadia de dizer isso assim, na minha cara?
INÊS – E porque não? Não é verdade? Não se deve dizer?
ARNOLFO – E quem lhe deu licença para amá-lo
INÊS – Ué, eu podia evitar? O culpado foi ele, Eu nem pensava, e quando a coisa surgiu, já vinha pronta.
ARNOLFO – O teu dever era evitar todo desejo amoroso.
INÊS – Como é que se evita o que nos dá prazer?”

Usando da arte, Molière satirizou o patriarcado com a patética figura de Arnolfo. A literatura nos mostra como o patriarcado é uma das heranças mais medíocres que a humanidade carrega por séculos e séculos. O patriarcado acompanhou toda a história da divisão de classes, profundamente arraigado aos costumes e crenças da vida cotidiana e colocou o problema: é possível conquistar a igualdade dentro de sistemas sociais baseados na desigualdade de classes? Como construir a verdadeira liberdade?

Essa pergunta tão fundamental teve sua resposta mais profunda na revolução Russa de 1917. Nesse mês que completam os 79 anos do assassinato do dirigente da Revolução Leon Trotsky, buscamos trazer nesse artigo alguma de suas reflexões sobre o tema da emancipação feminina, da família e da vida cotidiana.

O sucesso do patriarcado esta no fato de ser uma ideologia que justificou muito bem a maior exploração do trabalho feminino e a divisão da classe trabalhadora a partir de idéias que entram no seio da vida da população. O patriarcado justifica o trabalho domestico e de cuidado, tão necessários a reprodução humana e apropriado pelo capitalismo, como um dever moral da mulher e da mãe, e também é um meio ideológico de subordinação a serviço das classes dirigentes.

Imaginemos se as capacidades de criação e trabalho feminino estivessem empregados ao desenvolvimento técnico - cientifico, à arte e a filosofia, e não consumidos pelas duplas e triplas jornadas de trabalho, pelas funções domesticas e pela violência física e psicológica que as encadeia. Que força criadora poderia surgir?

Quando Trotsky diz que “o desenvolvimento das forças produtivas não é necessário em si mesmo. Em ultima instancia, o desenvolvimento das forças produtivas é necessário para construir a base estrutural de uma nova personalidade humana, consciente, que não obedeça a nenhum senhor sobre a terra, que não tema a nenhum senhor que está no céu. Uma personalidade humana que resuma em si mesma o melhor de tudo que foi criado pelo pensamento de épocas passadas, que avance solidariamente com todos os homens, que crie novos valores culturais, construa novas atitudes pessoais e familiares, superiores e mais nobres do que as que se originaram na escravidão de classes” (Trotski, L. “A proteção às mães e a luta pela elevação do nível cultural”)

Ele sintetiza um dos fins políticos da revolução socialista que é a criação de um novo homem, e uma nova mulher em uma sociedade comunista. Tendo a revolução como um meio necessário para libertar as capacidades humanas e naturais das mãos irracionais do capitalismo, da apropriação das riquezas por uma classe que goza de “vida boa” enquanto destrói o meio ambiente – essa semana vimos Bolsonaro junto ao agronegócio e as madeireiras colocarem fogo na floresta Amazônia – desperdiçam forças produtivas e exploram a força humana.

Trotski, Lênin e os bolcheviques viam o desenvolvimento das forças produtivas como a base material para libertar a humanidade da miséria e da ignorância forçada pela burguesia, Lênin sintetizada o que seria o socialismo na Rússia (estagio de transição ao comunismo) como “soviets mais eletricidade”. Para as mulheres esse desenvolvimento ganha ainda mais peso, pois muitas tarefas da reprodução social caiam e ainda caem nas costas femininas, a limpeza, alimentação, educação e cuidado dos filhos e idosos, essa realidade era ainda mais dura na Rússia czarista atrasada.

“Repito que, preparar as condições físicas para uma nova vida e uma nova família, não pode se dar isolado das tarefas gerais da construção do socialismo. O estado operário deve se fortalecer economicamente para estar em condições de encarar seriamente a educação publica das crianças e liberar as mulheres das tarefas domesticas.[...] Somente sob tais condições, poderemos liberar a família das tarefas que atualmente a oprimem e a desintegram. As lavadeiras públicas teriam que se ocupar da roupa, os restaurantes coletivos das refeições, as oficinas estatais da costura. As crianças deveriam ser educadas por bons professores, com autentica vocação para esta tarefa. Somente então, as relações entre os casais se libertariam de tudo que é externo e acidental, e deixariam de ser mutuamente absorvidos um pela vida do outro. Assim se estabeleceria uma igualdade genuína”

O Estado Operário desenvolveu lavanderias e restaurantes públicos, creches e escolas, isso para colocar na esfera social o que antes era de responsabilidade feminina na vida privada, garantindo que as mulheres tenham as mesmas condições materiais que os homens de exercer a vida pública e política. Era muito importante aos revolucionários que as mulheres fossem as dirigentes do Estado operário e o principal sujeito a varrer todo o reacionarismo cultural e os costumes mais fundidos a vida cotidiana, como dizia Trotski, “vocês devem ser a força moral que arrasará este conservadorismo enraizado na nossa velha natureza asiática, na escravidão, nos preconceitos burgueses e nos da própria classe operaria, que neste sentido, arrasta o pior das tradições camponesas”.

Essas medidas também visavam libertar a sexualidade feminina, que por anos foi associada ao pecado ou apenas a maternidade, onde para o homem é valor moral que a mulher não “manche sua honra” o traindo, essa é a base ideológica de muitos casos de feminicídios contra as mulheres até hoje. Aqui mora uma das irracionalidades mais cruéis do capitalismo, condenar à mulher por conta de um fator orgânico da natureza humana, que é a sexualidade. Como diria Inês à opressão de Arnolfo: “Como é que se evita o que nos dá prazer?”

O capitalismo nunca conseguiu e nem quis resolver o problema da sexualidade feminina, mantém o aborto proibido por conta de questões morais e religiosas, mantém o trabalho domestico e todo trabalho de reprodução social que escraviza as mulheres, justamente porque, se é indispensável desenvolver as forças produtivas para transferir esse trabalho para a esfera social/pública e assim dar bases materiais a liberdade feminina. No capitalismo essa máxima também é verdade, mas no seu contrário, é indispensável impedir o desenvolvimento humano para manter a propriedade privada, e no caso das mulheres, para que seu trabalho, tão necessário a reprodução da vida, siga sendo feito sem dar nenhum custo ao Estado e aos empresários. Enquanto essas mesmas funções são a base material para toda ideologia patriarcal, justificam não só o trabalho, mas a inferiorização feminina, os salários mais baixos, toda violência e machismo que busca manter “suas mulheres” em casa, castradas e cumprindo a função materna e “comportada”.

Fazendo um paralelo histórico, contudo, na Rússia czarista a situação da mulher era ainda mais atrasada e semi-feudal, muitas tão pouco eram alfabetizadas. O desenvolvimento capitalista nesses mais de 100 anos enraizou nas mulheres uma contradição ainda maior, ao entrarem no mercado de trabalho elas foram arrancadas da esfera puramente domestica, agregada essa nova posição social, vimos desenvolver umas série de lutas por direitos, mas também toda uma ofensiva ideológica de cooptação e integração dos momentos feministas pelo capitalismo, como se fosse possível conquistar igualdade em uma sociedade desigual. Mas o que vemos hoje é justamente o choque entre essas aspirações por igualdade, com uma sociedade onde com a crise capitalista, se prova ainda mais desigual.

Esse despertar subjetivo do movimento de mulheres somado a nova posição social destas, sendo metade da classe trabalhadora, e os setores mais explorados, colocam elas numa posição muito mais vantajosa, que em 1917, de varrer todo reacionarismo nos vindouros processos revolucionários.

É impossível avançar caso a mulher permaneça na retaguarda*

Assim Trotski termina seu texto, “Construir o socialismo significa emancipar as mulheres e proteger as mães”*. Tanto Trotski como Lenin consideravam que é possível avaliar uma “sociedade por sua atitude frente à mulher”, tanto no desenvolvimento das forças produtivas, como na ideologia e dogmas sociais, mas também na avaliação da própria personalidade individual. Mesmo nos anos da revolução, Trotski dizia como “a mente humana não se desenvolve de forma homogenia”, “aqueles estratos da consciência, onde residem as concepções e tradições familiares, as relações dos homens entre si e com as mulheres e as crianças permanecem intactos. A revolução ainda não os despertou”.

Essas reflexões foram escritas no meio do processo revolucionário, pós a tomada do poder não mudam imediatamente os costumes da população, é preciso construir um mundo e um homem novo. Na teoria da revolução permanente, Trotski elaborou como após a tomada do poder a sociedade passa por um transcrecimento da revolução, um processo interno de negação do passado e mudanças radicais, nesse ponto era importante colocar as mulheres à frente, e unir os anseios e conquistas da classe trabalhadora com os da emancipação feminina. Não é possível que uma classe se liberte enquanto metade do gênero humano seguir oprimido.

Era tarefa da revolução “impulsionar a mudança nos costumes para que estes acompanhem os avanços tecnológicos”, já que a vida cotidiana é imensamente mais atrasada que a técnica. Nesse ponto, também a sociedade burguesa se afirma no sentido oposto, mesmo no capitalismo os costumes da rotina são mais atrasados que a ciência e a técnica, e isso não é um acaso. Incrivelmente a fala de Arnolfo à 4 séculos atrás é terrivelmente atual, principalmente se olharmos a direita e a parcela mais conservadora da sociedade.

Quando Arnolfo fala que a mulher deve ser ainda mais obediente e doce ao seu “marido, chefe, senhor e dono” do que a “obediência que o soldado bem disciplinado deve a quem comanda, que o criado demonstra ao seu patão, a criança a seu pai, um frade a seus superiores”, mostra a relação imbricada entre a idéia de subordinação e hierarquias da opressão de gênero com a de classe, como uma cadeia de costumes, ideologias e dogmas que só servem de uma espécie de “barreira invisível” para impedir o desenvolvimento humano, e manter a hegemonia de uma classe privilegiada.

A Revolução Russa nos dá uma herança estratégica do que é o verdadeiro combate a democracia burguesa que promete “com frases pomposas”, mas que condena a população trabalhadora a exploração e à opressão. Também para a sociedade capitalista vê-se seu atraso pela posição das mulheres, ela evidencia de forma mais concreta a farsa da democracia burguesa onde a mulher jamais teve os mesmo direitos que os homens, mesmo depois de tantas lutas, uma suposta democracia que parte da desigualdade de metade da humanidade.

Como dizia Lenin, “a democracia burguesa promete de palavra a liberdade e a igualdade. Mas na pratica nenhuma republica burguesa, nem mesmo a mais avançada, instituiu para a mulher (que é metade do gênero humano) plena igualdade de direitos em relação aos homens diante da lei, nem libertou a mulher da dependência e opressão dos homens”. Vejam o exemplo claro sobre a legalização do aborto, um direito elementar para que as mulheres decidam sobre a própria vida, que foi conquistado na revolução de 17, e que ainda hoje grande parte das democracias capitalistas não foi capaz de garantir.

Essas idéias são uma pequena parte do valioso legado que os revolucionários deixaram para as gerações seguintes, no que se trata da emancipação feminina, ele carrega a reflexão mais profunda do que significa a conquista da real liberdade, nesse caso também, não basta apenas sair das muralhas, o inimigo real esta além do mar. Ou seja, a série de promessas reformistas, e de conquista graduais, só podem apresentar um projeto que se detém às portas do capitalismo, ou de “liberdades individuais para poucas” como o feminismo liberal.

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