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ESPANHA PODEMOS

A inesperada ausência do Podemos?

No vai e vem desta segunda etapa de negociações, o Podemos é apenas uma sombra à margem das negociações e da crise do Regime "por cima".

segunda-feira 15 de agosto| Edição do dia

Passou o 26 de junho e passaram as urnas. Passaram as pesquisas e passou a "virada" [que dizia que o Podemos superaria o PSOE]. Depois dos comícios as formações políticas, com o vencedor Partido Popular à frente, colocaram mãos à obra nas questões da "real politik".

Pactos, interesses, governabilidade... pragmatismo. E é aqui, a última casa do jogo em que o Podemos apostou, na qual se encontra sem lugar. Obviamente as raízes desta situação são mais profundas que as que podemos ver flutuar na superficialidade da "política real".

Neste artículo pretendemos abordar estas questões de fundo entrelaçando, como não poderia deixar de ser, a estratégia e a tática que a emergente formação neorreformista levantou para "tomar os céus".

Crônica de uma estratégia falida

É inegável, antes de entrar nas limitações e considerações oportunas sobre o fenômeno, que o Podemos contou em suas origens com as demandas e a insatisfação que as ruas gritaram contra a "casta" no 15M.

O setor acadêmico "da Complutense" [Universidade de Madrid] junto à formação política (hoje já dissolvida) Anticapitalistas, colocaram em marcha um aparato com que buscaram capitalizar eleitoralmente o descontentamento que se expressava na luta social dada nos anos anteriores.

Em seu primeiro "manifesto", já limitado, se encontravam consignas como a reforma constituinte, o referendo catalão, a reestruturação da dívida ou o fim das políticas de austeridade.

A limitação estratégica desde o começo, que não demorou em revelar-se (se bem já contávamos com o exemplo grego), é que jamais esteve em mente dos líderes do Podemos, Pablo Iglesias, Errejón e, no início, Monedero, por em marcha as forças sociais necessárias que pudessem impulsionar e sustentar a luta para a efetivação destas demandas.

A estratégia gradualista e pacifista do Podemos não contempla em nenhum momento o choque de interesses entre classes sociais.

Sua formação desenhou para a classe média e as classes populares um Estado capitalista que poderia ser humanizado. Um Estado órfão de conteúdo de classe, um Estado que segundo quem o governasse poderia articular umas políticas ou outras.

Esta teorização do Estado se demonstrou, novamente, errônea desde o piso até o telhado. As expectativas eleitorais aproximaram cada vez mais o Podemos e sua direção das esferas de poder. E foi neste ponto onde a direção do Podemos se viu obrigada, mediante diferentes mecanismos, a aparar as arestas "mais de esquerda" de seu programa, buscando agradar o establishment e dar uma imagem de "partido de Estado".

As alusões, e não precisamente críticas, à Coroa, à Igreja ou aos grandes capitalistas, se tornaram a norma. Contra o que diziam e seguem dizendo, a prática demonstrou que o Estado não é uma "casca vazia" senão que seu caráter de classe capitalista o transforma em um monstro de inúmeros tentáculos, que tão somente pode ser destruído, nunca reformado.

Que tática para que mudança?

Vendo que o questionamento das bases do Estado capitalista é inexistente e que a crítica a sua casta fica no meramente formal, falta observar que tática foi aplicada para que mudança.

Obviamente a estratégia gradualista do Podemos passava por ir queimando etapas na política burguesa, que têm como seu termômetro as eleições. De forma acelerada e mediante estas, esperariam ir ganhando votos, alcançar algumas posições, cada vez mais destacadas nas instituições burguesas, ganhar peso nas Cortes [parlamento], até finalmente poder, mediante pactos ou sozinhos, "tomar os céus" e humanizar o Estado capitalista.

Para este caminho utópico, o Podemos se moveu entre a renúncia no plano político, e, nos debates televisivos, no plano do marketing.

Sem nenhum tipo de inserção real na classe trabalhadora (lutas operárias ou sindicatos) e com um abandono cada vez maior das lutas dos setores sociais (as manifestações), a formação de Iglesias e companhia se jogou totalmente para ganhar tempo televisivo.

Se configurava como um partido mais do circo político, distante das demandas que ainda se sustentavam nas ruas enquanto aparava seu programa e percorria um caminho à direita em um tempo recorde.

Uma ausência esperada

Esta estratégia falida e sua tática se encontram hoje no pior cenário. Depois da derrota do último 26J o questionamento da hipótese do Podemos é absoluta. Além disso se encontra agora mesmo em um ponto da partida onde nenhuma carta do baralho lhe favorece.

O Regime de 78 demonstrou ser uma "casca cheia" de capitalistas, franquistas, políticos corruptos e banqueiros que, se bem não solucionaram a crise política, conseguiram sim conter as ilusões políticas de mudança.

Além disso, nesta etapa de negociações o terreno de jogo é decidido pela direita e é jogado no terreno institucional. Como atacar estes pactos de direita, como confrontar inclusive antes de que se forme um novo governo do PP, como lutar nas ruas pelo que a instituição lhe nega, se precisamente sua estratégia era desativar as ruas para que lhe abrissem as portas do "palácio"?

É por isto (em parte) que se explica parte da bancarrota eleitoral do Unidos Podemos e seu atual papel "fantasmagórico" na crise de governabilidade do Regime.

Iglesias e Errejón não estão decepcionados por chegar a este ponto no qual a mobilização está desativada e tudo "se cozinha por cima". O contratempo para a direção do Podemos é ter chegado em posição tão ruim.

Tradução: Francisco Marques




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