Cultura

arte e revolução

A importância da arte revolucionária na luta de classes

Conceitos como comunismo, revolução e feminismo fazem parte do imaginário popular de modo bastante pejorativo. Tal visão é fruto também da intensa investida da indústria cultural, que vomita padrões e ideologias a serviço da lógica burguesa, que por sua vez, está submetida em todos os níveis aos ditames imperialistas. Os valores morais mais torpes são introjetados nesse constante bombardeio simbólico, com o objetivo claro de manobrar a massa para que continuemos como mansas ovelhas, servindo ao "Senhor Capitalismo".

sexta-feira 30 de novembro| Edição do dia

Comissão de Arte SP

Tudo pela manutenção das coisas como são, para que poucos continuem com muito e muitos com tão pouco. Para que as mulheres continuem sendo objetos sexuais e modelos de comportamento “adequado” e subservientes ao machismo e ao patriarcado. Para que as crianças cresçam sem questionamentos e senso crítico, para que sejam as próximas na linha sucessora da mão de obra que não reclama e vende muito barato sua força de trabalho, seu intelecto, seu corpo, seu suor e seu tempo.

Eis que nesse projeto, a arte é usada também como mais uma das ferramentas anestésicas. Toda produção que enaltece e reafirma os ideais burgueses é impulsionada e conta com total suporte midiático, por exemplo. A indústria cultural conta com fortes aliados, tais como grandes multinacionais que fomentam essa lógica do lucro a qualquer custo. Empresas que desmatam, poluem, submetem os trabalhadores e trabalhadoras a situações e condições desumanas, sucateando totalmente as condições de trabalho e precarizando ainda mais o que já é por si exploratório e absurdo são os “patrocinadores” de artistas, shows e grandes eventos que têm como função anestesiar o público e ecoar a lógica capitalista. Dessa forma, mantem-se viva a ilusão de liberdade e progresso que tanto prega a pós modernidade: Uma vida sem contradições, colorida e cheia de hipocrisia e meias verdades.

É fundamental que se refresque a memória sobre o conceito de indústria cultural, cuja raiz está nas discussões entre autores como Walter Benjamin e Bertolt Brecht, de um lado, e Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse, do outro. Datado dos anos 30, é um rico debate que abriu alas para que se pensasse o “fazer artístico” sob o prisma do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e quais as influências diretas desse desenvolvimento para arte em suas mais diversas linguagens ainda, quais foram e ainda são os reflexos disso na sociedade e no imaginário popular.

Adorno delimita claramente sua visão sobre o conceito e propaga em seus textos e reflexões, em suma, que arte e indústria cultural são coisas distintas na medida em que a primeira seria eliminada pela segunda. Segundo ele, a indústria cultural traz uma experiência de integração com o sistema capitalista. A técnica, portanto, exerceria um controle maior sobre a sociedade, estando as manifestações estéticas da indústria cultural a serviço da mercantilização da arte. Arte é mais um produto na prateleira. Dentro desta visão, o engajamento político do artista seria sempre insuficiente e estaria inevitavelmente fadado ao fracasso, já que a indústria cultural sim ou sim neutralizaria todas as formas de rebeldia e de elaborações que em qualquer medida, buscassem se colocar na contramão ideológica ou estética dessa indústria. Assim sendo, caberia à “verdadeira arte“ , “intocada“ pela indústria, contentar-se em ser uma espécie de “crítica negativa”. E pronto.

As reflexões e as práticas de Benjamin e Brecht são distintas da visão aristocrática e derrotista de Adorno. Nestes, a técnica de reprodutibilidade da arte é um fator encarado enquanto uma transformação radical, que por sua vez altera o sentido tradicional e “sagrado” da obra de arte: o rádio e (principalmente) o cinema, aproximam a arte das massas, eliminando barreiras históricas. As transformações na produção artística exigem a sua difusão, já que as novas técnicas não se fundamentam na unidade, no caráter de “exclusividade” ou ainda, num único objeto. Por isso o papel fundamental da reprodutibilidade técnica de filmes, jornais, revistas etc.

Se durante séculos a arte foi posta a serviço do ritual(mágico e religioso), que fundamentava-se em objetos únicos a serem cultuados, no mundo contemporâneo a arte liberta-se da sua função ritualística e portanto, do seu valor de culto, para se fundamentar numa nova práxis: a política. Neste contexto o artista é encarado agora não como um “ gênio “ mas como um produtor, um trabalhador e a obra de arte extrapola a moldura, o palco, as paredes dos museus e as salas à portas fechadas dos estúdios. De fato se populariza no sentido de sair dos moldes e prisões a que estava condicionada até então.

Se já nos anos 30 o rádio e o cinema apontavam para isso, o que dizer dos novos meios que nascem com o mundo digital? Aprofundam-se as possibilidades históricas de serem eliminadas as distinções entre escritor e leitor, ator e plateia, artista e espectador. De modo que pode-se esboçar outra leitura sobre o significado da arte na cultura da sociedade, já que não se pretende mais que a arte seja um privilégio, mas que seja vista com mais organicidade e como parte do processo histórico e cultural.

Logo, defender a arte revolucionária não é uma questão de opinião e muito menos de uma preferência estética ou teórica: é o próprio movimento da história, das transformações entre os meios de produção e as relações de produção, que empurram a arte para a realidade do proletariado, para a exposição das questões políticas e dos problemas sociais. Assim, o trabalhador não é objeto da obra mas sim seu sujeito e protagonista, sendo um autor/artista/colaborador que produz arte a partir das sua própria vida, seus conflitos e necessidades.

Sabemos que no decorrer de toda a história da humanidade as manifestações artísticas são reflexo e refluxo das lutas, avanços e processos históricos e sociais, e em diversos momentos, foram marco fundamental, sendo ponte entre o campo simbólico e subjetivo e a materialidade em si, traduzindo o pensamento e as sensações em suas mais diversas linguagens. Inúmeros são os exemplos, que transitam entre diversas linguagens e expressões. Há no entanto um exemplo que muito apaixona e impulsiona.

Na época da Revolução Russa, quando os trabalhadores tomaram o céu por assalto, os trens de agitação cumpriram papel fundamental, já que boa parte da população russa era analfabeta. Poetas, grupos de teatro, músicos, artistas plásticos e cantores transitavam nos trens, devidamente transformados em fortes elementos visuais, e através do teatro, da música, da dança e dos cartazes, levavam a todo canto as notícias da revolução.Tanto expresso nas poesias de Maiakóvski quanto no cinema de Eisenstein os aspectos mais revolucionários no marco estético e político de suas manifestações foram e são exemplos práticos de como a arte caminhou ombro a ombro com cada ação de agitação e propaganda, movimentando-se dialeticamente lado a lado a classe trabalhadora, seus fluxos e em diálogo com sua subjetividade sem “aprisionar” a arte e ao mesmo tempo, sem que esta estivesse descolada da realidade que o momento histórico imprimia.

Muitas vezes tido como incompreensível para as massas, o poeta da revolução nos deixou um vasto legado com as mais variadas manifestações práticas acerca do “choque estético” e do distanciamento que Brecht também nos elucida em suas obras e definições, onde o estranhamento possibilita o despertar do pensamento crítico, em contraposição aos moldes dramáticos de elaboração e interpretação.

É evidente que para a arte revolucionária não poderia e não pode existir um programa estético fechado. E logicamente que o crescente controle do capital sobre a produção cultural é um fato inquestionável: transformar a arte em anestésico, em distração é mais um dos ataques do capitalismo e do imperialismo no sentido de fazer valer seus valores ideológicos. Contudo, esse mecanismo de eterna repetição, enlatando a arte e colocando-a na esteira da linha de produção da indústria cultural por mais que tente, não elimina a luta de classes: o movimento dialético permite a apropriação e a criação de meios de produção culturais independentes; e neste sentido o teatro de Brecht ainda é uma importante referência. A arte revolucionária na luta de classes pode ter como exemplo e ser reflexo ainda hoje do que Brecht nos ensina. Que o espaço cênico seja não mais espaço de magia e ritual e sim uma tribuna que traga a tona os novos meios de produção e que ator e público, iguais, articulam-se da construção de uma reflexão sobre os fatos sociais.

Denunciar absurdos, desnaturalizar o que o capitalismo trata como trivial, por fim, não somente desnudar essa vida, mas arrancar sua pele, como já nos disse Trotski sobre o que fará a nova arte é hoje mais do que nunca, o impulso que nos levará a uma compreensão mais madura sobre os questionamentos que nos invadem diariamente sobre o que, porque e com quem queremos estabelecer diálogo. E mais: absorver profundamente que valer-se do materialismo histórico e dialético é mais que uma necessidade filosófica hoje. É armar-se de conteúdo diante do avanço das forças reacionárias. É compreender a importância da arte revolucionária neste combate simbólico mas ao mesmo tempo, compreender que a arte revolucionária não é um estilo, um clube, um capricho cultural, mas um projeto que responde às determinações da história, e que portanto (e obviamente) nada tem a ver com liberalismo. E retomar com esse espírito Breton e Trotski defendendo com unhas e dentes “TODA LICENÇA EM ARTE” no marco de compreender e extrapolar, transbordando os vermelhos da revolução que virá sim, e trará direito ao pão e à poesia!




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