Teoria

HISTÓRIA

A idealização do embate Lampião X Coluna Prestes: crise conjuntural na Velha República

José Ferreira Júnior

Serra Talhada – Pernambuco

sábado 20 de agosto| Edição do dia

A década de 1920, no Brasil, foi marcada pelo experimento de uma crise conjuntural, usando palavras gramscianas. Ou seja, experimentou-se uma crise possuidora de contornos econômicos, políticos e sociais, porque si bem tínhamos alguns elementos, não uma crise orgânica do capitalismo mundial como a de 1929, que colocou em questão o próprio modelo de acumulação no capitalismo.

Economicamente, a crise se objetivou em decorrência da queda do preço do café no mercado externo, enquanto que, internamente, de maneira paradoxal vivenciava-se o crescimento da produção cafeeira e das atividades a ela vinculadas. Percebe-se nesse paradoxo uma superprodução e conseqüente acúmulo da produção de café.

Politicamente, a crise tem sua faceta com a eleição para Presidência da República de Arthur Bernardes, político mineiro, filiado ao Partido Republicano Mineiro (PRM) e ex-governador de Minas Gerais.

Esse viés da crise conjuntural articula economia e política, ainda na campanha eleitoral, quando eclode o episódio das “cartas falsas”, no qual Arthur Bernardes foi acusado da autoria de cartas publicadas na imprensa contendo ofensas aos militares, tendo como foco o Marechal Hermes da Fonseca. Mesmo que, ainda durante a campanha eleitoral tenha ficado comprovada o forjar das tais cartas, a objeção ao nome de Arthur Bernardes, nos meios militares, tornou-se irreversível. Desse modo, sem que ao menos tivesse sido eleito, Arthur Bernardes já contava com ferrenha oposição de grande parte dos militares.

Socialmente, a crise se evidencia, dentre outras coisas, pelo desdobramento da crise política. Quando assume a Presidência da República, em 15/11/1922, Arthur Bernardes encontra uma sociedade que houvera experimentado, em julho de 1922, um movimento que ficou conhecido como o levante dos 18 do Forte. Inconformados com a eleição de Bernardes, com o fechamento do Clube Militar e com a prisão do marechal Hermes da Fonseca, ordenados por Epitácio Pessoa (antecessor de Arthur Bernardes), jovens militares, em número de 17 e um civil protagonizaram o primeiro movimento Tenentista, assim chamado em decorrência de ser composto por jovens oficiais, em sua maioria, tenentes. A intenção era depor o governo federal. O movimento foi rapidamente debelado.

A posse de Arthur Bernardes, em novembro de 1922, dá-se com o país vivenciando um Estado de sítio. Mesmo tendo existido punição aplicada contra os oficiais rebeldes, em julho de 1924, em São Paulo, na capital, o Tenentismo voltou a se manifestar, havendo repercussão em outros estados da União.

Durante três semanas, a cidade de São Paulo ficou sob controle dos militares rebelados. Todavia, sem condições estruturais para impor enfrentamento às tropas federais, os insubmissos se retiram da cidade e do estado. No estado do Paraná, encontra-se a coluna paulista com coluna gaúcha, comandada por Luís Carlos Prestes. Da junção de ambas as colunas, nasce a Coluna Prestes. Esta, por sua vez, por cerca de dois anos, empreenderá peregrinação pelo interior do país, buscando insuflar a população contra o governo de Arthur Bernardes.

O agir da Coluna Prestes não se assentava em ideologia socialista. Ou seja, não havia a pretensão de arregimentar forças para empreender revolução e tomar o poder, estabelecendo o implante de novos paradigmas contrapostos ao modelo capitalista. Ademais, mesmo que já houvesse uma classe trabalhadora no Brasil em termos marxianos, esta se mostrava ainda incipiente, mesmo que, em 1917, tivesse promovido a primeira greve geral de trabalhadores no pais.

Esta movimentação da classe trabalhadora, é dura e violentamente combatida pelo aparelho repressor do Estado (na ausência de consenso, a força é evidenciada, como o afirma Gramsci), ainda que não trouxesse satisfação das reivindicações operárias, serviu para que se desse a transição, no seio da classe operária brasileira, da ideologia anarquista / anarco-sindicalista para a socialista. Isso se verifica com a fundação, em 1921, no Rio de Janeiro, do Centro Comunista do Rio de Janeiro, embrião do Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922.

Assim, a ação da Coluna Prestes tratava-se, na verdade, da demonstração de insatisfação de segmentos da sociedade com o governo de Arthur Bernardes. Numa linguagem gramsciana, tratava-se do desdobramento de uma crise conjuntural, que segundo Gramsci, resulta de conflito entre a classe dominante e demais grupos sociais, atingindo as instituições, podendo romper o bloco histórico vigente. Tratava-se de disputa de hegemonia no interior do bloco.

Em decorrência disso, o governo de Arthur Bernardes teve como tônica a repressão movida contra os setores oposicionistas, fossem ou não ligados aos militares, some-se a isto, a censura à imprensa. Esse agir de força do Estado brasileiro vai se evidenciar, como uma espécie de “cereja do bolo”, com uma tentativa, por parte do poder central, de empreender cooptação das hostes cangaceiras lampiônicas, buscando-as utilizar para empreender combate à Coluna Prestes.

A cooptação lampiônica

O ano era 1926 e a Coluna Prestes continuava sua peregrinação, não lhe sendo dado combate eficaz. No dizer de Júlio Chiavenato, em “Cangaço, a força do coronel” (1990), as forças do governo agiam de maneira incompetente e, no governo Arthur Bernardes, a Coluna Prestes passou a ser prioridade de repressão.

Nesse momento, as caatingas sertanejas nordestinas eram palco de atuação de Lampião e seus apaniguados. Havia um misto de medo e desesperança, enquanto características perpassadoras do cotidiano das populações sertanejas. Medo, em decorrência do reinado de terror imposto pelo cangaceiro pernambucano; desesperança, porque o Estado se mostrava ausente do palco dos acontecimentos, ainda que se fizesse representar, pontualmente, pelo agir policial (as chamadas volantes).

Importa lembrar que a ausência do Estado estava ligada ao cumprimento de acordo estabelecido na chamada Política dos Governadores, posta em prática pelo presidente Campos Sales (1898 – 1902). Esse acordo consistia na troca de favores políticos entre o presidente da República e os governadores dos estados. De acordo com esta política, o presidente da República não interferia nas questões estaduais e, em troca, os governadores davam apoio político ao executivo federal.

Nessa engrenagem era central a figura do coronel no processo de captação de votos, no uso do seu curral eleitoral, fixado em sua área de influência. Justaposta à opulência coronelística, havia a ação cangaceira, muitas vezes ocorrendo a mando desses coronéis e ou gozando de sua proteção. Ademais, a distância do monitoramento estatal gerava em parte do oficialato militar um sentimento de impunidade e, não poucos, foram os nomes a praticar contrabando de armas e munição, abastecendo Lampião e seus cangaceiros. Tratava-se de lucrativo negócio, como atesta Frederico Pernambucano de Melo, em “Guerreiros do Sol”, tanto para os oficiais corruptos, quanto para o próprio Lampião, que praticava a revenda do adquirido.

Esse era o quadro sertanejo nordestino, quando Arthur Bernardes, acatando ponderações do seu ministro da Guerra, Setembrino de Carvalho, que por sua vez acolhia sugestão de seus amigos, o padre Cícero Romão Batista e o médico e deputado federal Floro Bartolomeu, autorizou a formação do Exército ou Batalhão Patriótico. Segundo Chiavenato (1990), o presidente Bernardes comissionou Floro Bartolomeu, deputado federal à época, como general, deu-lhe quase dois mil contos de réis, dois mil fuzis, munição e fardamento para dois mil homens.

Floro Bartolomeu recrutou jagunços, deu-lhes fardas e armas e, na cidade cearense de Campo Sales, na divisa com o Piauí, instalou o seu quartel-general e buscou apoio militar do 11º Regimento de Infantaria de São João Del Rei. Somado a isso, Floro Bartolomeu e o padre Cícero dispuseram cerca de dois mil jagunços em torno da cidade de Juazeiro do Norte, para protegê-la em caso de ataque dos revoltosos.

A estratégia de Floro Bartolomeu se mostrou falha. A Coluna Prestes atravessou o Ceará sem ser molestada e, dessa maneira, revelava-se a fragilidade da segurança proposta por Floro Bartolomeu. Isto, de acordo com Chiavenato, causava pânico nos latifundiários, que temiam uma revolução comunista.

Diante do que se considerou uma incompetência administrativa relacionada à segurança e, somado a ela, o pânico que tomava conta dos grandes proprietários de terras cearenses, Floro Bartolomeu, acossado pelos latifundiários, conferencia com o Padre Cícero Romão Batista, e resolvem convocar Lampião e seus apaniguados e alistá-los no Exército Patriótico.

Aqui cabe um questionamento duplo: por que a convocação de Lampião? Por que a necessidade da ingerência do Padre Cícero, na aquiescência do cangaceiro à convocação feita?

A resposta à primeira pergunta se dá perpassada por conjecturas, fato que não impede a promoção de reflexão. Abaixo, ponderações possíveis de terem sido levadas em consideração pelos alistadores do cangaceiro:

• A convocação teria se dado por Lampião ser o maior nome do cangaço, à época e este, por sua vez, mesmo que desprovido de ideologia - ainda que Eric Hobsbawm, em “Bandidos” (2010), atribua-lhe características políticas, chamando Lampião de bandido social – se mostrasse como movimento social e, como tal, organizado, possuidor de regras, como atesta Nertan Macedo (1992);

• A habilidade com as armas de Lampião e seus sequazes teria sido fator preponderante à convocação, uma vez que os componentes da Coluna Prestes, em sua maioria, possuíam destreza com as armas e, ao seu enfrentamento, exigia-se, no mínimo, adversário que dispusesse de habilidade semelhante;

• O conhecimento da topografia das caatingas, que Lampião possuía, decorrente de sua vida de almocreve, anterior ao seu ingresso no cangaço, talvez tivesse falado alto no referente à sua convocação, visto que tal conhecimento poderia ser utilizado para ataques – surpresa à Coluna Prestes;

• O oportunismo de Lampião, que verificando a ineficácia da estratégia proposta por Floro Bartolomeu, teria insinuado se bandear para a Coluna e ou fornecer-lhe guias, conforme pondera Chiavenato, sendo isso usado, por fazendeiros temerosos, para pressionar Floro e este convocar o cangaceiro;

Qualquer uma das hipóteses elencadas acima seria perfeitamente plausível, uma vez que a figura de Lampião era, de fato, possuidora daquilo que elas preconizam. Chamo a atenção para a última, que pondera sobre o oportunismo do cangaceiro. Lampião, de fato, em mais de uma vez, a literatura cangaceira mostra, usou desse expediente, tirando proveito de situações, em seu favor.

No referente à resposta do por que do Padre Cícero estar envolvido na empreitada de alistar o cangaceiro, a resposta é possuidora também de meandros, como no caso anterior, porém, nesse caso, as ponderações não se pautam em meras hipóteses, mas em fatos, conforme se observa a seguir:

• O padre Cícero era conhecedor do carisma que exercia sobre as populações sertanejas nordestinas. Sua fama de “santo” era algo que corria os sertões e, os sertanejos cristãos católicos, entre eles Lampião, reputavam-no como tal. Desse modo, como digo em “Religião no Cotidiano Cangaceiro; representações e práticas” (2012), Virgulino levara para Lampião a religiosidade que angariara no seio familiar. Assim, nada obstante sua vida de crimes, Lampião era religioso e, como grande parte da população sertaneja, reverenciava o pároco de Juazeiro. Por essa ótica analisado, o chamamento feito pelo padre Cícero seria prontamente atendido pelo cangaceiro;

• O padre Cícero não era meramente um religioso, mas atuante no campo da política, principalmente depois que teve suas ordens suspensas. Foi prefeito de Juazeiro, Vice-Governador do estado e deputado federal (os dois últimos cargos não exerceu). Exercia grande poder político na região do Cariri, além de ser possuidor de grande patrimônio composto por terras e imóveis. Não poucos autores dizem-no “coronel de batina”. Ter Lampião sob controle, como forma de apaziguar os ânimos dos coronéis do Cariri, faria crescer, ainda mais, seu poder, em relação aos seus pares;

• Outra possibilidade da justificativa da intermediação do padre Cícero na cooptação de Lampião para as fileiras do Exército Patriótico, que denota o exercer do seu lado político, seria promover o confronto entre os dois causadores de problemas: Prestes e Lampião. O extermínio de um deles, seria de boa monta. O fim dos dois, seria o ideal;

Lampião aquiesce ao chamado e comparece ao Juazeiro do Norte, em 1926. Ali, de maneira totalmente ilegal, recebe, das mãos do Padre Cícero, referendado por um funcionário público, a patente de capitão das forças patrióticas. Patentes inferiores foram concedidas aos seus comandados. Juntamente com a patente, também foram dados ao cangaceiro, armas e muita munição novas, além de cem contos de réis, em dinheiro. Foi dada ao cangaceiro a missão de empreender combate à Coluna Prestes, popularmente conhecida como Revoltosos, expressão do impacto da ideologia dominante, como senso comum, em termos gramcianos, nos setores subalternos da sociedade. Para uma análise do caráter do cangaço recomendo a leitura, neste mesmo jornal, de meu texto Cangaço : Protorrevolucionarismo?

Ao sair da cidade de Juazeiro, o agora Capitão Virgulino Ferreira da Silva (patente nunca reconhecida pelos militares de carreira, como era lógico de supor) resolve testar sua autoridade: manda recado a seus desafetos, em Pernambuco, mais especificamente aos moradores da Vila de Nazaré, querendo saber como seria recebido, uma vez que agora era um oficial do Exército Patriótico. À bala, responderam os nazarenos!

Percebendo a pseudolegalidade da patente recebida, mas também a realidade das armas, munição e dinheiro adquiridos, Lampião, agora mais bem armado e bem mais rico, quebra o acordo feito, alegando desconfiança das promessas de anistia e o fato que os militares legais se recusavam a respeitá-lo como oficial de verdade.

A tentativa, por parte da classe dominante, em sanar a crise conjuntural instalada, que passaria pelo extirpar da ameaça de se transformar numa crise orgânica e ruptura do bloco histórico ruíra. Todavia, deve-se esclarecer que Prestes e seus liderados representavam uma insatisfação de segmentos sociais ao governo, no entanto, não se constituíam uma ameaça à ruptura do bloco histórico vigente. A luta que seria travada entre as frações burguesas pela hegemonia do bloco histórico, fora por água abaixo, mediante a esperteza de um cangaceiro. A crise continua e com ela o perigo iminente pairando sobre a fração dominante.

A Coluna Prestes se dissolve, em 1927, adentrando em território boliviano. Arthur Bernardes conclui seu mandato (impondo o estado de sítio até ao final) e, na busca de recomposição de forças, empreende forte retaliação à oposição.

Lampião, agora mais bem equipado, prossegue com sua saga aterrorizadora nos sertões nordestinos, que somente possuirá término, em julho de 1938, quando é assassinado, juntamente com sua companheira, Maria Bonita, e mais nove dos seus cangaceiros, pela volante alagoana, comandada pelo tenente João Bezerra, na fazenda Angico, município de Poço Redondo, estado de Sergipe.




Tópicos relacionados

História   /    Teoria

Comentários

Comentar