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QUESTÃO NEGRA

A história dos Panteras Negras

A brutalidade policial contra as comunidades afro-americanas é de longa data. O racismo sempre foi nos EUA uma política de Estado. No final dos anos 60 se cria o Partido dos Panteras Negras que organizará as mulheres e homens para defender os direitos da comunidade.

sábado 10 de setembro| Edição do dia

A luta pelos direitos civis começou com os escravos no momento da guerra civil estado-unidense de 1861, onde ocorreram mais de 150 revoltas contra a escravidão. Aqui já está inscrita a ideologia da supremacia branca que se manteve presente dalí em diante.

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"Não é parte da natureza da pantera atacar primeiro, mas quando é atacada e encurralada, ela responde de forma violenta e acaba com seu agressor" explicavam os integrantes do Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa (Black Panther Party), fundado por um grupo de estudantes universitários em 15 de outubro de 1966. Suas primeiras ações consistiam em defender os direitos da comunidade negra de uma maneira inovadora.

Patrulhavam as ruas de Oakland e impediam os espancamentos dos policiais contra os integrantes da comunidade. Aqueles negros de boinas, jaquetas de coro e fuzis na mão, saiam dos carros e surpreendiam a polícia, que ao suspeitar que os fuzis poderiam estar carregados, paravam de espancar, enquanto os panteras liam os direitos constitucionais ao seu compatriota. Ninguém podia acusá-los de estar cometendo qualquer ação ilegal. Portar armas era legal. Dessa forma foram ganhando o reconhecimento de toda a comunidade, que os reivindicava centralmente por um sentimento: solidariedade.

Bobby Seale, um dos fundadores, explicou: "Encontramos uma fórmula perfeita. Demonstramos de uma forma concreta à comunidade o que representa o orgulho negro, enfrentando-nós contra os policiais como iguais, e inclusive questionando-os, e tudo isso sem desobedecer a lei". Em 1967, no ano em que o grupo se formou, a Assembleia Legislativa já começava a discutir um projeto de propunha restringir o uso de armas por parte de civis. As ações dos Panteras se multiplicavam e haviam gerado uma preocupação aguda nos políticos burgueses e racistas.

A ação que os colocou nas primeiras páginas dos jornais

Quando os panteras souberam dessa proposta de legislação decidiram realizar uma ação que significaria um marco histórico em sua organização.

Huey Percy Newton, que foi junto de Bobby outro dos fundadores do partido, entre si escreveram um programa de 10 pontos que incluía não apenas o fim da violência policial, mas também o fim do roubo capitalista da comunidade negro. Mas não foi esta plataforma a que os fez conhecidos.

Os negros de todo o país puderam observar o novo Partido no dia em que o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, respondia algumas perguntas da imprensa nos jardins do edifício federal. De repente, 24 homens e 6 mulheres alinhados em perfeita ordem, alguns com bandeiras e outros com armas, manifestaram frente às câmeras seu repudio à lei e propugnando um chamado a que todos se organizassem: "chegou o momento dos negros se armarem contra o terror antes que seja tarde demais. Um povo que já sofreu durante tanto tempo em uma sociedade racista deve poder dizer basta".

Sonhos negros, estendidos por um território inteiro

A campanha de "liberdade para Huey" após o encarceramento dele, produto de uma provocação da polícia onde morre um policial, transformou o Pardito em uma força nacional. Eldrige Cleaver se alça como um dos intelectuais marxistas de maior importância dentro do Partido - mais tarde vai renegar absolutamente o marxismo, apoiando os que neste momento eram seus maiores inimigos. Trabalha arduamente no jornal The Black Panther Community News Service, que chegou a tiragens de 150 mil exemplares com a venda militante nas ruas. Cleaver veio para ocupar o lugar vazio de Huey.

O partido deixou de ser um pequeno grupo de propaganda para se transformar em uma poderosa organização com ramificações em todos os centros urbanos e uma militância composta em sua grande maioria por mulheres, que conseguiu se fundir com as esperanças de liberdade e comunidade afro-americanas.

Lançaram programas de assistência social para os excluídos dos bairros populares. Colocaram de pé um programa de cafés da manhã gratuitos que alimentou 200 mil crianças por dia. Os fundos provinham do aporte de voluntários da comunidade. Mas não existia distinção política nem moral alguma sobre as origens deles. Alguns deles provinham de traficantes, comerciantes e cafetões.

Nas televisões e rádios do mundo

As panteras negras chegaram ao mundo através da imagem de Toomie Smith e John Carlos no pódio dos jogos olímpicos de 68, com o famoso gesto de punho cerrado coberto de um tecido preto enquanto tocava o hino norte-americano. O que lhes custou ameaças de todo tipo e seu próprio futuro. Toomie acabou sua vida lavando carros por três dólares a hora, mas nunca se arrependeu. "A dignidade dos negros vale mais que ganhar uma medalha de ouro para os Estados Unidos", declarou.

Também este é o tempo das gangues e do nascimento do hiphop. O ritmo que se tornou a principal via de expressão da comunidade afro-americano, no qual depositavam suas expectativas e sua raiva. Os panteras começam a ser uma atração para os jovens marginalizados do Harlem, Brooklyn e do Bronx. Muitos dos que promoviam o programa do partido eram ex membros de gangues. Um dos líderes do partido em Chicago acreditava que as gangues reuniam aqueles que tinham medo e por isso opinava que era preciso convencê-los a abandonar a violência contra seus irmãos e unir-se ao partido.

O maior exemplo de unidade musical e política foram os Ghetto Brothers. Um de seus integrantes aderiu ao Partido Socialista Porto-riquenho. Criticavam a qualidade do atendimento hospitalar, o desemprego, o fato de que os jovens não tinham recreação alguma e a violência policial.

O começo do fim

Malcom X foi uma das principais influencias desse partido. Apesar de algumas diferenças substanciais como o fato de não aderirem ao islamismo ou à ideia de retorno à África -que persistia no imaginário da comunidade negra- os panteras assumem o projeto de fundar uma organizao após o assassinato de Malcom. Tomam como suas as declarações nas quais questiona os ideais pacifistas de Martin Luther King "o dia de dar a outra face a essas bestas brutais -referindo-se ao Ku Klux Klan- acabou, é hora de darem um gole do seu próprio veneno". Este fundamento foi central para organizar a ação dos panteras, fundamentalmente a auto-defesa.

Mais tarde, a campanha lançada pela liberdade para Huey teria seus resultados e no ano de 1970 ele foi libertado. Era tempo de desenvolver um plano internacionalista em solidariedade com a guerra do Vietnam, mas também era o começo de uma sequência de egos e divergências estratégicas entre seus dirigentes. Por sua vez soa o estalido de um plano sistemático por parte do FBI para desacreditar, assassinar e desestabilizar os panteras.

Os panteras colocavam a luta pelos direitos da comunidade negra em termos de classe. Ou seja, não havia uma só conquista total dos direitos da comunidade afro-americano se não era pela via da libertação da classe operaria do jugo capitalista. Ainda assim, isso era apenas retórico no Marco de não terem lançado mão de uma estratégia para integrarem-se com a classe trabalhadora, em suas fábricas, em suas lutas. Na verdade, como se mencionou acima, sua estratégia foi dirigida ao trabalho social em geral, tendo sido este também um dos grandes limites da organização.

No próximo texto, veremos em profundidade quais são os motivos pelos quais o partidos dos panteras negras se desarmou.




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