Cultura

MULHERES NA SEGUNDA GUERRA

A guerra não tem rosto de mulher: as combatentes do Exército Vermelho

Prêmio nobel de literatura 2015, Svetlana Alexiévich construiu sua obra com centenas de vozes de mulheres que combateram no Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial. A guerra que não se contou.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

quinta-feira 29 de setembro| Edição do dia

“O manuscrito ficou muito tempo sobre a mesa... foram dois anos recebendo cartas de rejeição das editoras. As revistas ficaram em silêncio. O veredicto sempre era o mesmo: é uma guerra demasiada pavorosa. Sobra horror. Sobra naturalismo. Não se percebe o papel dominante e dirigente do Partido Comunista. Em resumo, não é uma guerra correta...”

Svetlana Alexiévich apresenta seu livro sobre as mulheres que combateram no Exército Vermelho recordando a odisseia que percorreu entre 1978 e 1985 para dar-lhe forma. Centenas de entrevistas em cidades remotas, encontros com mulheres que se abriram para relatar, muitas vezes pela primeira vez, os sofrimentos e verdades de “sua” guerra. Não a que aparece nos livros, não a que transmite a história oficial, se não a que viveram elas, as mulheres que se alistaram, as que foram a frente e combateram.

A escritora nasceu em 1948 na Ucrânia e se formou como jornalista na Universidade de Minsk. Ela denomina o gênero de sua obra como “literatura de vozes”, seguindo o caminho do jornalista narrativo Kapucinski.

Nessas entrevistas, algumas vezes depois de algumas lagrimas, “as mulheres começaram a falar da sua guerra, de uma guerra que eu desconheço. De uma guerra desconhecida para todos nós”, disse Svetlana Alexiévich.

O livro se publicou depois da Perestroika e teve uma tiragem de milhões. As histórias pessoais dessas mulheres e homens, da guerra que viveram, começaram a circular recentemente.

O que mais surpreende no livro de Alexiévich é sua capacidade para aproximar-se da biografia de cada uma dessas mulheres em poucas linhas, com testemunhos que concentram em uma anedota um pequeno relato, uma sensibilidade, uma história de vida. E ao longo das 360 páginas do livro aparecem centenas de vozes, construindo uma história única sobre os acontecimentos, desde múltiplos pontos de vista. Mulheres franco atiradoras, enfermeiras, condutoras de tanques, encarregadas das transmissões.

“Aonde nos dirigíamos? Não sabíamos. E, a fim e a cabo, não nos importava. Desejávamos chegar a frente. Todos lutavam, e nos também. Chegamos a estação Schélkovo, perto dali se encontrava a escola feminina de franco atiradoras. Resulto que estávamos destinadas ali, a aprender. Todas nos alegramos. Já era real. Atiraríamos.” (María Ivánovna Morózova, Ivanushkina, cabo e franco atiradora).

A maioria dessas mulheres se alistaram voluntariamente. Não só isso, sua primeira ‘luta’ foi em casa, para conseguir que o exercito as aceitasse, escondendo-se em caminhões para ir a frente, para que as deixassem lutar contra o avanço dos nazistas. Em muitos casos se escapava de suas aldeias, onde só existiam mulheres, idosos e crianças, depois de terem perdido muitos membros de sua família.

A história dessas mulheres estão cruzadas pela história da URSS na Segunda Guerra Mundial: a ditadura stalinista, o perigo de expressar uma oposição, os expurgos stalinistas ainda frescos. Mas, ao mesmo tempo, a vontade e determinação de mulheres e homens para combater o avanço do fascismo e defender o que consideravam seu povo.

“A conversa mudava de rumo: falávamos de Stalin, de como antes da guerra aniquilou a melhor equipe de comando, a elite militar. A cruel coletivização do ano de 1937. De Gulag e dos exilados. O desastre de 1941, talvez não teria acontecido se em 1937 não teria acontecido o que aconteceu. Não teríamos retrocedido até Moscou. Falávamos do que depois da guerra havíamos esquecido. A Vitoria encobriu tudo” ( conversas no compartimento de um trem).

As mulheres contam sua historia rompendo o manto do silencio que se impôs ao terminar a guerra, obrigadas a voltar a ocupar “seu lugar” em casa, afastadas pelo cenário político público, dominado por homens.

“Não confessávamos a ninguém que havíamos combatido. Com muito, mantínhamos contato entre nos, nos comunicávamos por cartas. Transcorreram pelo menos uns trinta anos até que começaram a render honras... a convidar-nos a dar palestras. A principio nos escondiam, nem se quer ensinavam nossas condecorações. Os homens as colocavam, as mulheres não. (...) Nos arrebataram a vitória, sabe? Discretamente nos mudaram pela simples felicidade feminina. Não compartilharam a vitória conosco. Era injusto... Incompreensível... “ (Valentina Pávlova Chudaeva, sargento, comandante de uma unidade de artilharia)

A vitória foi muito contraditória para elas. Porque depois da vitória chegada a “volta a normalidade” e a coragem se torna medo do futuro.

“Me fez franco atiradora. Poderia ter estudado transmissões, é uma especialidade útil, tanto na guerra como nos tempos de paz. Uma especialidade de mulher. Mas me disseram: ‘Tens que atirar’, assim aprendi a atirar. Eu era boa. Tenho duas honras da Glória e quatro medalhas. São condecorações por três anos de combate.”

“De repente ouvimos o grito:” Vitoria”. Nos anunciaram: “Vitoria”. Recordo o que senti, senti alegria. E em seguida, no mesmo instante, senti medo. Pânico! O que será da minha vida? Meu pai havia morrido na batalha de Stalingrado. Meus dois irmãos mais velhos haviam desaparecido sem deixar vestígios nos primeiros meses da guerra. Só estávamos nós, minha mãe e eu. Duas mulheres. Como viveríamos? Todas as mulheres refletimos sobre isto...” (Klavdia S-va, franco atiradora).

No livro de Alexiévich, ‘ A guerra não tem rosto de mulher’, porque a guerra era cruel, suja, implacável, monstruosa, enquanto essas mulheres haviam se preparado para ser o oposto: jovens apaixonantes, caseiras, carinhosas... A guerra não tem rosto de mulher, porque essas mulheres combateram e atiraram, enfrentaram os nazistas, mas quando voltaram pra casa não puderam falar disso; o que havia sido fonte de orgulho se transformava em vergonha. A guerra não tem rosto de mulher, porque ao terminar a guerra as mulheres deviam voltar a calar: eles haviam ‘arrebatado’ a vitória.

O livro de Svetlana Alexiévich permite aproximar-se da historia dentro da historia da guerra e do exército soviético. A vida dessas mulheres que lutaram à frente e jogaram um papel chave em fortalecer a moral de combate do povo soviético contra os nazistas, mas que depois foram esquecidas e borradas da foto, como o stalinismo sabia fazer tão bem.

* La guerra no tiene rostro de mujer, Svetlana Alexiévich, Penguin Random House Grupo Editorial, 2015, Barcelona




Tópicos relacionados

Cultura

Comentários

Comentar