A greve dos professores de LA acaba com um novo contrato e sentimentos contraditórios

A greve dos professores de Los Angeles teve vitórias importantes, com protestos massivos na chuva e piquetes na maioria das escola. Apesar disso, alguns professores têm sentimentos contraditórios sobre o processo de aprovação do contrato, assim como o contrato em si.

quinta-feira 24 de janeiro| Edição do dia

Depois de mais de uma semana de manifestações e encontros massivos que chamaram a atenção nacionalmente e causaram chamados de solidariedade ao redor do mundo, os Professores Unidos de Los Angeles (UTLA na sigla em inglês) terminaram o sexto dia de greve e fecharam um acordo que seus líderes consideram uma vitória histórica.

Apesar do novo contrato incluir o pagamento retroativo com aumento para mais de 30 mil professores no distrito, a greve, que começou no dia 14 de janeiro, nunca foi sobre salários. Muitas das demandas mais populares foram aquelas que buscavam melhorar especificamente a vida dos estudantes, incluindo: turmas menores, maiores proporções de cuidadores por estudantes, mais conselheiros, e mais restrições na expansão de escolas públicas independentes.

O anúncio de uma tentativa de acordo em 22 de janeiro foi encarada por muitos membros da união com muita euforia e alívio e explodiram imagens no Facebook e no Twitter, com professores comemorando, felizes por finalmente voltar às suas salas de aula.

Houveram ganhos importantes a partir dessa greve: 3% de aumento pelo ano de 2017-2018 e 6% de aumento retroativo pelo começo do atual ano escolar. Sessão 1.5, que permitia ao distrito ignorar o limite no número de alunos em sala, foi retirado do contrato, providenciando uma base para negociar turmas ainda menores no futuro. O contrato, da forma que é reduz o tamanho da turma em quatro alunos até 2022 (um aluno por ano, durante quatro anos). Isso adciona 300 novos cuidadores para os próximos 3 anos, assim como 80 novos bibliotecários e 17 novos conselheiros. Um conselheiro adicional será providenciado para cada 500 estudantes. O distrito também concordou em contratar um advogado para apoiar famílias imigrantes no distrito e também em criar força tarefa para criar áreas de playground mais verdes.

Sobre as escolas públicas independentes, o Conselho de Diretores concordou em passar a resolução chamando o estado a estabelecer um limite nos impostos cobrados das escolas públicas independentes. Ainda, em relação às provas padronizadas, uma força tarefa foi criada para pensar um plano para cortar as provas pela metade.

Randi Weingarten, presidente da Federação Americana de Professores, disse que o novo contrato foi uma "mudança de paradigmas". Ela disse, "Pela primeira vez na minha memória recente, a conversa focou em como financiar nossas escolas para que os alunos tenham o apoio que eles precisam."

O prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti disse, "Esse é um bom acordo. É um acordo histórico."

Apesar disse, nem todos os professores ficaram felizes com os resultados da greve. Em fóruns online, muitos professores expressaram frustração com o contrato, com o processo, e com a liderança da UTLA. Os professores pareceram particularmente bravos porque eles tiveram apenas poucas horas para ler e entender as complexas 40 páginas do contrato, e consideraram uma afronta que não houve tempo para eles aprenderem detalhes do contrato, muito menos discuti-lo entre eles.

Erika Moreno-Massa, veterana há 13 anos nas escolas da UTLA que trabalhou em educação especial por 12 anos, falou com o Left Voice [parte da rede internacional de diários junto ao Esquerda Diário] sobre suas próprias frustrações com o contrato e a decisão de acabar com a greve. "Primeiro, eu fiquei muito feliz que estavam chegando a um acordo. Depois de 6 dias de greve, nós poderíamos finalmente voltar a ensinar nossos alunos! Nós ouvimos as notícias quando estávamos num enorme encontro no Grand Park pela manhã e nós não tínhamos nenhum sinal de telefone, então náo podíamos olhar os detalhes do acordo. Eu fiquei feliz inicialmente porque as pessoas estavam falando como se fosse uma vitória. Quando eu cheguei à escola, algumas horas depois, nós quase não tivemos tmepo de descobrir sobre o que nós estávamos votando. às 4 da tarde, aproximadamente, nós votamos. Mesmo a nossa representante da união não sabia exatamente sobre o acordo e não podia responder nossas perguntas.

Eu votei sim para o acordo porque eu realmente queria voltar para a escola. Eu pensei que era ótimo que finalmente tínhamos um contrato, o que não tivemos por 2 anos. O tamanho das turmas era uma questão importante e o contrato falava sobre isso. Mais recursos estariam disponíveis. Passos em direção a menos provas. Era um bom começo. O ponto chave era que finalmente tínhamos um contrato.
Mas, quando eu cheguei em casa, eu comecei a duvidar de mim mesma, especialmente a medida que eu falava com outros professores. Nenhum de nós teve tempo de pensar sobr eisso, ou entender sobre o que estávamos votando. Eu acho que muita gente está duvidando de si mesmo nesse momento porque tudo foi muito apressado.

Eu me senti usada. UTLA e LAUSD (Distrito Escolar Unificado de Los Angeles) não foram sempre transparentes e ninguém soube o que estava acontecendo. LAUSD caluniava a gente enquanto UTLA aproveitava os holofotes. Me pergunto, essa greve valeu a pena? Nós ganhamos o suficiente? Os dias que passamos fora de sala de aula e o conhecimento que nossos alunos perderam valeram a pena? Os dias que estamos sem salário valeram a pena? Nós não fomos pagos pelos dias em que estávamos em greve, o que foi um enorme erro."

Descontentamento com o contrato, e também com o processo, ecoou na página do Facebook da UTLA, onde quase não há comentários positivos sobre o acordo. Apesar dessas reclamações online, de acordo com oficiais da união, o voto a favor do contrato foi esmagadoramente favorável ao fim da greve.

Ainda assim, muitos professores sabem que suas condições de trabalho e aprendizado dos alunos ainda são inaceitáveis. Turmas enormes continuarão caracterizando as escolas de LA e nenhuma medida imediata foi tomada para condicionar o surgimento de escolas públicas independentes. California é a quinto maior economia do mundo, e casa de corporações dirigidas pelas pessoas mais ricas do mundo. Mesmo assim, as salas de aula de LA ainda terão mais de 36 alunos por sala.

É claro que a greve dos professores de LA gerou um incentivo e inspiração para outras lutas de professores pelo país. Parte da onda é a greve de professores que começou em West Virginia, e foi seguida por Oklahoma e Arizona, a greve de professores de LA foi a primeira a ocorrer em uma cidade importante: a segunda área metropolitana mais populosa nos Estados Unidos. Durante a greve dos professores de LA, professores de Oakland também se juntaram a uma caminhada de um dia e estão discutindo ações de greve. Na terça, professores de Denver votaram massivamente pela greve pela primeira vez em 25 anos. Enquanto isso, professores de Virgínia também estão discutindo ações de greve.

Por fim, essas greves mostram que as lutas de trabalhadores tem o poder de fazer mais do que ganhar salários; elas podem alargar a sociedade. Como Moreno-Massa disse:

“[A greve] foi difícil, foi muito emocionalmente exaustiva. Todo dia eu ia pra casa e apenas chorava. Nós acordamos cedo todas as manhãs para ir ao piquete, às 5:30 da manhã. Em Los Angeles não chove muito, e as pessoas odeiam sair na chuva, mas nós estávamos na rua todos os dias. Nós estávamos lá nos piquetes, e então nos encontros, milhares de nós. Essa união realmente fortaleceu a nossa causa... E é isso o que eu vou lembrar desse processo. A experiência de todos nós, professores, juntos, lutando pela educação."




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