HISTÓRIA DA CLASSE OPERÁRIA NO BRASIL

A grande greve geral de 1917 e a classe operária fazendo política

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 29 de junho| Edição do dia

[Imagem acima integra jornal anarquista de 1913, Terra Livre]

Poucos são os livros de história do Brasil que valorizam devidamente a grande greve de 1917. E menos ainda os livros do segundo grau: estes, definitivamente, quando citam aquela greve não vão além da menção ao grevismo, ou à revolta contra condições de trabalho que teriam sido “superadas”.

As coisas, no entanto, não se sucederam dessa forma.

A classe burguesa industrial emergente já desponta massacrando o jovem proletariado. O salário nas fabricas do período que antecede a grande greve de 1917, mal cobre meio quilo de arroz, macarrão, banha e café [Trevisan, p 40]. Toda a família tinha que trabalhar.

Frequentemente as fábricas “eram fétidos porões, com muitas máquinas, próximas demais umas das outras, ambientes superaquecidos, escuros, constantemente úmidos” [Trevisan p. 40], com as mulheres compondo um terço da força de trabalho.

De São Paulo, Rio de Janeiro ao resto do país, essa burguesia racista e escravocrata irá reproduzir no trato com a classe trabalhadora seus já tradicionais hábitos de Casa Grande diante da senzala.

Esse era o trato implacável e sangrento com os milhões de escravos que traziam da África, como gado nos porões fétidos dos navios negreiros e quando a burguesia traz trabalhadores europeus, os imigrantes, para os cafezais e fábricas, os maus tratos e a exploração continuarão sendo a regra.

Empregam maciçamente mulheres e crianças, que chegam inicialmente para os cafezais mas que, rapidamente, fogem da brutalidade patronal do campo para a cidade onde, ao menos o salário era constante, apesar de miserável.

“Quanto às condições de moradia eram ainda piores que as do trabalho. Grandes cortiços povoam os bairros operários: Brás, Moóca, Bom Retiro. Pequenos quartos destinavam-se a numerosas famílias”.

Se é certo que o Brasil hoje é claramente uma sociedade desigual, com brutal concentração de renda, naquele momento nem se fala.

A cidade de São Paulo vai crescer meteoricamente, dos 23 mil habitantes em 1872 para quase meio milhão em 1917.

Frente àquela desigualdade, rapidamente vão “germinar ideias de construção de uma sociedade de homens iguais”. Não será apenas o pão, a moradia, mas também o socialismo e o anticlericalismo que irão povoar o imaginário da vanguarda proletária em São Paulo e outros lados como P. Alegre, Rio de Janeiro, Salvador etc.

E a semente, inicialmente dos grupos socialistas e, em seguida, massivamente, do anarquismo que chega com os trabalhadores imigrantes [do sul da Europa] irá frutificar, de forma desigual e combinada.

Mas em São Paulo, com a concentração imigrante [3,5 milhões chegaram ao Brasil entre 1890 e os anos 1920, grande parte concentrada na indústria de São Paulo], o protagonismo político da classe trabalhadora vai alcançar seu ponto mais alto em 1917-1919, através das mais colossais batalhas operárias da nossa história [inclusive sem igual pelas décadas seguintes].

Em 1917, como já foi mostrado em outra nota [http://www.esquerdadiario.com.br/1917-Quando-as-fabricas-pararam-e-os-operarios-tomaram-Sao-Paulo ] o protagonismo político da jovem classe operária brasileira, seja em São Paulo como também em uma onda poderosa que tomou o Rio de Janeiro, P. Alegre, Recife e outras capitais, abalou a “república dos fazendeiros”.

O movimento operário transcendeu a luta por salário e moradia: elementos de duplo poder, de controle de bairros e distribuição de alimentos e ações de autodefesa se estenderam e marcaram as grandes capitais. Em junho de 1917, São Paulo esteve à cabeça.

A greve foi geral, as marchas e assembleias públicas eram as maiores da nossa história [http://www.esquerdadiario.com.br/Quando-a-classe-operaria-parou-SP-origens-do-proletariado-brasileiro]. E a resposta sangrenta da burguesia paulista [assassinando mais de 100 operários] não foi suficiente para impedir as mobilizações e a vontade de levar até o fim uma luta e iniciativas de classe que apenas não encontraram a direção à altura.

Os anarquistas, direção hegemônica daquelas greves, não adotavam qualquer estratégia de poder, abraçavam zero estratégia, por exemplo, de aliança com o movimento camponês pela reforma agrária ampla, completa ausência de programa econômico para emancipar o país e, dessa forma construir um partido operário com projeto de saída para o Brasil.

Os anarquistas, por concepção, são contra o partido, contra qualquer Estado, apenas lutam e organizam forças populares pela base [dos “explorados e oprimidos”, dizem eles, já que sua visão não é de classe e nem de revolução proletária], embora levassem adiante grandes combates contra a patronal.

Por conta de tudo isso é que, dentre outras coisas, da sua crise de direção irá nascer o PCB anos depois, negando o anarquismo. E, de fato, do anarquismo, não restou algo que possa ser chamado legado programático ou estratégico. O programa anarquista era limitado, economicista no essencial.

No entanto, o proletariado mostrou sua potência nas ações de massa, ao ponto de que o governo federal se viu obrigado a dar um golpe de Estado [impondo o “estado de sítio” em outubro de 1917] na tentativa de esmagar a classe trabalhadora em ação.

Naquelas jornadas de luta, mais que combatividade, também na esfera da organização – por exemplo, do sindicalismo de base, das organizações de bairro, das Ligas operárias – o protagonismo foi exemplar.

No entanto, muitas das discussões e formulações programáticas de outros setores do proletariado mostram o potencial que havia para lançar as bases de um programa independente de classe que poderia elevar o protagonismo político do proletariado ainda mais alto e deixar, para as lutas posteriores, um legado mais profundo.

Superior ao que foi deixado pela liderança anarquista.

Na época apareceram ideias, hoje candentes, que tampouco foram, mais adiante, apropriadas e desenvolvidas pelas novas correntes proletárias de peso, no caso, o PCB.

Um exemplo: em 1892, portanto um ano depois da Constituinte imposta pela casta dos fazendeiros na República Velha, apareceu o Centro Operário Radical – uma das primeiras organizações operárias, nesse caso do campo dos socialistas – com propostas bem interessantes no seu “programa de ação”.

Além de lutarem por leis repressivas contra as taxas de juros, além de defenderem a interdição do trabalho para menores de 14 anos, o estabelecimento de um dia de descanso na semana [esse era o Brasil da burguesia industrial nascente: nem direito ao domingo o trabalhador tinha], propunha higiene nas fábricas, “assistência obrigatória dos industriais nos acidentes ou moléstias sobrevidas do trabalho”, leis de “amparo e proteção para a velhice e invalidez”, “extinção da pena de morte”, ensino primário obrigatório, “doutrinamento nas escolas da moral fraternal”, “transformação gradual dos exércitos permanentes em milícias cívicas para os serviços da paz”, “justiça gratuita” e “extinção do Senado”. São elementos que Edgard Carone detalha no seu Primeira República – evolução política.

Evidentemente temos aqui um grau mais elevado de politização das direções e também na esfera do programa para intervenção plena na vida pública e transformação do Estado burguês, embora adotado por direções sem expressão importante.

Seguramente, o programa anarquista não ia tão longe, exigindo do Estado, por exemplo, uma previdência pública, uma transformação do exército em milícias populares e muito menos o fim do Senado. Sua luta era mais trabalhista e eram claramente “contra tomar parte na vida pública”.

No entanto, não podemos deixar de ter bem claro que setores do proletariado, através de determinadas direções que existiam, mas que não seriam hegemônicas, já sinalizavam para a capacidade e a vontade da classe trabalhadora de intervir diretamente no controle da sociedade, com seus métodos [exercitados amplamente na grande greve de 1917, métodos proletários de luta] mas também com propostas como as citadas acima, de desestruturação do Estado burguês.

E aqui podemos pensar um pouco mais longe: propostas como a daquele “centro operário” e as da comuna de Paris, se perderam na experiência política do PCB: nem este partido operário e nem nenhuma corrente política posterior, incluindo o PT, jamais voltou a defender o fim do Senado, o fim da polícia e sua substituição por milícias populares, mandato de políticos revogáveis a qualquer momento e com sua remuneração nunca superior ao salário de um operário qualificado, eleição dos juízes etc todas elas integrando as lutas dos communards [proletariado parisiense de 1871] e também, como vimos, de setores do jovem proletariado brasileiro, do seu momento em que, pela primeira vez se põe de pé como sujeito político em grande escala.

Eis aí um tema para os nossos dias, para que possa ser estabelecida a continuidade política e programática com aqueles primeiros grandes combates operários, em um nível onde podemos, agora sim, construir um grande poder de fogo – em termos de organização operária, camponesa e estudantil – para vencer.

Desde, é claro, que se supere o economicismo e o burocratismo das atuais organizações sindicais tipo CUT e outras, em favor de um sindicalismo de base, da defesa de comissões de fábrica, de empresa e da coordenação das correntes operárias combativas em torno de um programa independente de classe, sem qualquer dependência em relação aos partidos burgueses, inclusive tipo PSB, PDT e contra a tradição de conciliação de classe que marca a história da esquerda brasileira de peso operário. É essencial lutar contra o antilegado da burocracia sindical e conformar uma nova tradição, combativa e revolucionária, por um novo movimento sindical, pela base e programático.

Bibliografia:

CARONE, Edgar, 1976. A primeira república [1889-1930]: texto e contexto. SP: Difel.
TREVISAN, Leonardo, 1997. A república velha, 6ª. ed. SP: Global. Historia Popular/Brasil n.5.
Crédito de imagem: portaldoprofessor.mec.gov.br




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