Cultura

CRÔNICA

A gente não quer só comida

Crônica do músico e compositor Rubinho Gianquito.

quarta-feira 17 de agosto| Edição do dia

Cheguei para almoçar. O restaurante é simples, localizado em um bairro popular da capital. Daqueles que servem pratos feitos, deliciosos. E como havia atrasado em um compromisso, já passava das 13:30 horas! Fui procurar um lugar longe do sol. Como o restaurante é pequeno, não havia muitos lugares a escolher. Apesar do horário, ainda estava cheio, pois é muito apreciado por causa da comida caseira e do excelente tempero mineirin.

Dona Odília, a proprietária, faz questão de cozinhar todos os dias. Para abrir o restaurante, ela teve que labutar e conta que economizou parte do dinheiro que recebeu trabalhando por mais de vinte anos como empregada doméstica. Juntou cada centavo que recebeu. Esta é mais uma bela história de luta e vitória !!!

O prato do dia era feijoada, com o tempero delicioso e misterioso de dona Odília. Como sempre, estava de lamber os beiços. Do meu lado um senhor reclama que tinha sido assaltado. Levaram tudo, até os documentos pessoais. História de gente pobre roubando gente pobre. O senhor dizia: eu não sou ministro nem magnata, sou é do povo.

E, do outro lado da mesa um senhor reclama do governo interino e golpista de Temer. Falava que este governo vai ser bom para quem tem dinheiro, quem tem grana. Dizia ele:

– Ja conheço esta história. Os abonados deste pais não querem dividir nada. Lembra de 1964?

Fiquei admirado com a sua fala e comecei a prosear com ele. – O senhor tem toda razão. Os ricos não estão dispostos a dividir nem um prato de comida.

– Pois não é? — disse o senhor. Esse povo faz questão de cada centavo.
Ele terminou a refeição, pagou e foi embora com um sorriso nos lábios, dizendo: – Precisava de trocar idéias assim…

Na mesa em frente à minha, quase ninguém conversava. E o moço parecia que não gostou da nossa conversa. Resmungava baixinho e dizia que todo mundo é igual. Que nem Lula, que nem Aécio, farinha do mesmo saco. Quando chegou um casal, aparentemente de amigos, e ele apontou pra mim dizendo: – Acho que o moço aí é um daqueles que usam camisa do Tche. Um homem perto do balcão gritou : Se gritar pega ladrão, não fica um, mermão!!!! Logo, pensei: Eles (os ricos) conseguiram o que queriam. Disseminar no inconsciente coletivo que todo mundo é igual. Todo mundo rouba. Todo mundo é desonesto.

Não demorou muito e surgiram algumas pessoas pedindo um prato de comida. O moço da mesa em frente os mandou trabalhar. Chamou-os de forasteiros. E disse que não dava nada a ninguém. A tristeza era visível no rosto daquelas pessoas. Neste momento, intervim e disse que há uma desigualdade muito grande de riqueza e que muitas pessoas estão desempregadas. E que pedir um prato de comida não é demérito a ninguém. Naquele momento, as demais pessoas que estavam no restaurante e presenciaram o ocorrido foram solidárias com as três pessoas. Eram três adultos e duas crianças de colo. E todos se uniram e providenciaram uma forma para que o almoço fosse garantido.

Saí de restaurante pensativo. A gente tem que prosear muito todos os dias com todo mundo. Do contrário, daqui a pouco teremos shows dantescos em praça praça pública de punições horríveis com ingressos pagos. A Gente Não Quer Só Comida………………..




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