Mundo Operário

MOVIMENTO OPERÁRIO

A frente única operária e a luta contra a traição das centrais burocráticas

Diante a traição das principais centrais sindicais na luta contra os ataques do governo golpista de Temer devemos buscar compreender o conceito de frente única operária concebido pela III Internacional, e desenvolvido por Leon Trotsky, aplicando-o na atual conjuntura para aumentar a influência das ideias revolucionárias contra as tendências reformistas e centristas no movimento operário.

terça-feira 3 de outubro| Edição do dia

A traição da burocracia sindical na greve geral chamada para o dia 30/06 foi a principal responsável pela manutenção de Temer no governo. Mesmo com recordes de impopularidade, Temer e o Congresso Nacional aprovaram a nefasta reforma trabalhista, um ataque histórico às condições de vida dos trabalhadores; a reforma política que censura as organizações de esquerda e mantém a casta tradicional dos atuais partidos políticos; promovem uma ofensiva de privatizações em consonância com os governos estaduais, além da articulação em andamento da votação da reforma da previdência prevista ainda nesse ano. Ataques aos direitos LGBTs, como a “Cura Gay”, e das mulheres com a proibição do aborto em casos de estupro, além da implementação do ensino religioso confessional nas escolas, também entraram na pauta dando uma sensação que a cada semana avança o conservadorismo na sociedade.

As principais centrais sindicais, apesar dos seus distintos planos, atuaram em comum para desmoralizar a resistência dos setores de massas da classe trabalhadora. O setor alinhado com o planalto, representado por Paulinho da Força Sindical, foi o primeiro a recuar. O governo voltou a negociar com as centrais, o que foi fundamental para aprovação da reforma trabalhista através de um acordo do executivo com o Senado para editar a MP (medida provisória) que viabilize um novo tipo de imposto sindical. Essa movimentação foi consentida e seguida pela CUT e CTB, também entrando nas negociações com o objetivo de manter o financiamento e a tutela dos aparatos sindicais pelo Estado.

Se é verdade que as negociações (com a MP ainda não aprovada) permanecem em aberto, e o recuo do Governo nesse tipo de “reforma sindical pela direita” não está diretamente consolidado, também é fato que Temer ganhou uma maior simpatia na burocracia sindical, intermediada pela FIESP no recente encontro para debater “empregos e crescimento da indústria” em Brasília, onde empresários, sindicalistas da Força, UGT e até a CTB se reuniram com o governo e seu ministério para legitimar os ataques a classe trabalhadora. Paralelamente, a CUT se limita à defesa incondicional de Lula, principalmente após o depoimento de Palocci a Moro, concentrando todo o seu aparato para que em 2018 Lula seja a figura da conciliação de classes, aplicando à sua maneira as reformas que o empresariado e a patronal necessitam.

A tática da frente única operária

A atual conjuntura reacionária com o governo consolidando ataques profundos a classe trabalhadora, combinada pela traição da burocracia sindical, leva a uma grande ausência de perspectiva e certa desmoralização a setores amplos da classe trabalhadora. Não se trata apenas de uma crise de conjuntura, mas sim do Estado na sua totalidade política, econômica e social, o que chamamos de crise orgânica (hegemonia). Nesse sentido, a compreensão da tática de frente única operaria desenvolvida pelo revolucionário russo Leon Trotsky é fundamental para pensar como unificar as fileiras da classe trabalhadora na resistência comum contra a ofensiva dos capitalistas.

Como premissa básica a tática da frente única operária pressupõe o conflito inevitável entre burguesia e proletariado. Para qualquer tipo de ação da classe trabalhadora, seja ela ofensiva ou defensiva, a unidade dos trabalhadores passa a ser um fator fundamental na relação de forças que determina a vitória ou derrota numa determinada batalha.

Trotsky afirmava “O partido que se opõe mecanicamente a essas aspirações da classe operária à unidade de ação será condenado, irremediavelmente, pela consciência operária.”. Hoje em dia, nas assembleias e fóruns do movimento sindical, a palavra “unidade” é quase um mantra, repetida incansavelmente conforme a conveniência e interesses colocados em jogo. Cria-se uma falsa concepção de que a tática da frente única se baseia na confusão de bandeiras políticas e programáticas divergentes, e não na unificação dos trabalhadores na luta de classes e para a luta de classes, seu real significado quando concebida pela III Internacional. Trotsky diz “(...) a questão da frente única, tanto por sua origem como por sua essência, não é em absoluto uma questão sobre as relações entre as frações parlamentares comunista e socialista, entre os comitês centrais de um partido e outro... O problema da frente única – apesar da divisão inevitável nessa época entre as diversas organizações políticas que se fundamentam na classe operária – surge da necessidade urgente de assegurar à classe operária a possibilidade de uma frente única na luta contra o capital.” (Trotsky, Leon “Sobre a Frente Única”, de 1922)

Seria mais simples, ou pelo menos outras questões surgiriam, se a unidade da classe trabalhadora dependesse de um cenário onde os revolucionários possuíssem hegemonia dentro do movimento de massas, porém este ainda não é o caso.

Atualmente os grandes aparatos da burocracia sindical, permitem que as principais direções traidoras e reformistas controlem os principais sindicatos e influenciem a maioria da classe trabalhadora. Diante dessa condição objetiva e subjetiva, ter a iniciativa de unificar na ação a classe trabalhadora, na resistência defensiva contra os capitalistas, não é algo menor para os revolucionários. Justamente pelo fato que os reformistas não buscam o confronto contra a classe dominante. Quanto maior a paz, mais os reformistas conseguem impor sua política de conciliação de classes.

Resgatando outra ideia de Trotsky “Os reformistas temem o impulso revolucionário em potencial do movimento de massas; a tribuna parlamentar, as sedes sindicais, os tribunais, as antecâmaras dos ministérios são seus lugares favoritos. Nós, pelo contrário, estamos interessados, acima de qualquer outra consideração, em obrigar os reformistas a sair de seus esconderijos e colocá-los a nosso lado, na frente das massas em luta. Com uma boa tática isso só pode ocorrer em nosso benefício. O comunista médio que duvida ou que tem medo se parece com um nadador que tenha aprovado a tese sobre o melhor método de natação mas que não se arrisca a mergulhar na água.” (Trotsky, Leon “Sobre a Frente Única”)

Aspecto tático e estratégico

A tática da frente única operária compreende, portanto, a dialética em tomar a iniciativa e exigir das direções tradicionais das organizações operárias que encabecem um plano de luta comum. Empurrar os reformistas para a unidade de ação nas lutas, sem por isso esconder as diferenças políticas e programáticas entre os componentes da frente única (a total liberdade de crítica, que deve ser assegurada aos membros de uma frente única de combate, não deve ser um obstáculo que impeça a unidade na luta).

É necessário que o movimento operário faça uma experiência profunda com seus dirigentes tradicionais: o meio privilegiado para isso é obrigar estas direções, aos olhos das massas, a responder publicamente o chamado para ação comum.

Tomando a definição de Emilio Albamonte e Matías Maiello, em “Gramsci, Trotski e a democracia capitalista”, “Podemos dizer que a frente única constitui uma tática complexa que tem um aspecto de manobra, outro tático, e outro estratégico. Por um lado, implica acordos – produto de determinada relação de forças entre as tendências – com reformistas como aliados circunstanciais (aspecto de manobra), com o objetivo de unificar as fileiras operárias para lutas parciais em comum (aspecto tático). E por outro lado, como objetivo principal, a ampliação da influência dos partidos revolucionários como produto da experiência em comum (ou do seu rechaço pelas direções reformistas), no sentido de reduzir as ‘reservas estratégicas’ para a tomada do poder (aspecto estratégico)”.

A questão para compreender profundamente esse conceito na realidade brasileira, é que mais do que nunca é necessário organizar a defesa unificada dos trabalhadores contra as reformas neoliberais de Temer, e as direções sindicais burocratizadas freiam e impedem esta unificação. Os trabalhadores vêm fazendo experiência com suas direções, muitos compartilham do ódio aos burocratas, pelegos como Paulinho da Força Sindical, e mesmo com o peso histórico do petismo, centrais como CUT e CTB também não são imunes a severas críticas em todas as rodas de discussão política no chão de fábrica. Mas é necessário mostrar aos olhos dos trabalhadores, uma e outra vez, que estas burocracias não querem lutar, porque tem mais medo da radicalização dos trabalhadores do que do avanço da direita.

A adaptação da esquerda a burocracia sindical como consequência da compreensão equivocada da frente única operária

Nessa conjuntura reacionária determinada pelas principais direções do movimento sindical, o golpe institucional que foi um divisor de aguas dentro da esquerda, permanece sendo um fator fundamental pela crise estratégica das distintas organizações da esquerda reformistas e centristas, bastante golpeadas pela conjuntura em como dar uma resposta para atual situação nacional. Esses setores da esquerda ao não identificar que a atual conjuntura reacionária deriva de uma situação de crise orgânica, baseada na imensa crise de representatividade dos de “baixo” com a atual casta política tradicional dos “de cima”, que abre possibilidades para que a crise política, econômica e social do país seja respondida tanto pela direita, como também pela esquerda, acabam aprofundando seu ceticismo com o potencial revolucionário da classe trabalhadora.

Não há toa, esses mesmos setores da esquerda ao analisar os importantes processos da luta de classes que marcaram o primeiro semestre, atribuem como o fator determinante das mobilizações a “unidade sindical” das direções, e não a pressão que a classe operária fazia por baixo nos locais de trabalho, que obrigaram as direções tradicionais a ter que convocar as paralisações. A tática da frente única operária como desenvolvemos acima, antes ou depois da traição das centrais no dia 30/06, não significa de maneira nenhuma semear esse tipo de ilusão a burocracia sindical. Pelo contrário, a tática da frente única operária é o que permite fazer acelerar a experiência das massas com as suas direções oficiais, e quando for possível, impor que essas direções façam algum tipo de ação que mobilize a classe trabalhadora. Sendo consciente que para essas direções mais temeroso que o ascenso da direita, é a classe trabalhadora mobilizada e organizada nos seus locais de trabalho.

Por um lado, a ausência dessa perspectiva leva a organizações como o MAIS, conceber a frente única no campo sindical e eleitoral, por fora de uma perspectiva independente da CUT e do PT, de maneira claramente anticapitalista. Isso se comprova não só atualmente quando dizem estarem abertos a debater programaticamente com o PT, ou quando durante todo o processo se isentavam de fazer uma crítica sequer a burocracia sindical. De outro lado, a aparência radical dos discursos do PSTU, que antes faziam coro com a direita mais reacionária ao falar que não houve golpe, agora sugerem, sem as premissas objetivas necessárias, que a saída é fazer “agora” como há 100 anos os operários fizeram na Revolução Russa. Ao contrário de tirar lições profundas da maior revolução que os trabalhadores já conseguiram realizar, esse tipo de “propagandismo” não oferece uma saída concreta para os trabalhadores frente à crise política, criando uma falsa realidade, como se vivêssemos numa situação revolucionária.

O caráter centrista dessas movimentações da esquerda que se reivindica revolucionária, tem um ponto em comum, a adaptação à burocracia sindical, que deriva da ausência de compreensão da frente única operária. Esta impõe a necessidade, a todo o momento, não somente de “tomar a iniciativa”, como dissemos acima, mas combinar a exigência e denúncia, num embate permanente para arrancar os trabalhadores da influência nefasta das direções conservadoras do movimento operário. Por isso, que mesmo antes da traição das centrais no dia 30/06 nós do MRT fizemos uma massiva campanha, a partir das nossas forças, para que os trabalhadores pudessem tomar a greve geral nas suas mãos, alertando que as suas direções oficiais iriam trair o movimento, colocando a necessidade que naquele momento de luta se desenvolvesse organismos de auto organização da classe trabalhadora capazes de dirigir os rumos da luta.

Essa dialética em compreender a necessidade da unidade da classe trabalhadora, na realidade atual através do caráter defensivo frente aos ataques do governo, ao mesmo tempo só consegue se transformar numa ação ofensiva, se os revolucionários assumem a defesa incondicional das suas ideias e sua plataforma programática dentro da frente única, permitindo que as massas trabalhadoras façam experiência com suas principais direções, que estarão sempre obstinadas em “buscar a paz” com os governos da classe dominante.

Com a traição das centrais, e retrocesso do movimento, redobra-se a necessidade da frente única para retomar o caminho das lutas, combatendo ao mesmo tempo a todo momento o isolamento que a burocracia sindical quer impor. Agora, é necessário cercar de solidariedade a greve dos Correios e dos professores no RS, com ações comuns para que triunfem em sua luta contra os ajustes. Para que, assim, os trabalhadores nos seus locais de trabalho possam organizar a resistência contra a reforma trabalhista, assumindo em suas mãos os rumos da mobilização, e permitindo que o caráter defensivo da resistência em confluência com as ideias revolucionárias prepare a classe trabalhadora para uma ação ofensiva numa nova conjuntura. Nesse aspecto, é indispensável lutar para retomar os sindicatos para as mãos dos trabalhadores, e colocá-los a serviço das lutas e não dos privilégios das cúpulas sindicais, forjando assim alas classistas no movimento operário que batalhem pela política da frente única operária.

Dentro dessa relação de forças que defender a realização de uma Assembleia Constituinte Livre soberana (como desenvolvemos em diversos artigos no Esquerda Diário, veja aqui), convocada em meio as mobilizações, permite os trabalhadores serem protagonistas em mudar as regras do jogo, através de um programa anticapitalista que responda os principais problemas do país e a defesa dos direitos democráticos da população.




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