Gênero e sexualidade

FEMINISMO

A falácia do capitalismo feminista: paridade entre gêneros levará mais 257 anos para ser atingida

Segundo relatório anual divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), a desigualdade de gênero nos locais de trabalho aumentou no ano de 2019 e, no ritmo do atual índice, serão necessários 257 anos para que se atinja a paridade nas condições de trabalho entre homens e mulheres no mundo.

terça-feira 17 de dezembro de 2019| Edição do dia

Com base em estudos em 153 países, o relatório considera as condições de vida entre os gêneros nas áreas da saúde, educação, política e trabalho, e é elaborado pelo Fórum Mundial Econômico – órgão sediado em Genebra que realiza anualmente em Davos o encontro que reúne centenas de banqueiros, empresários, dirigentes e mandatários políticos de distintos países, ou seja, a cúpula burguesa mundial, para discutir as perspectivas econômicas do sistema capitalista em crise.

A pesquisa aponta que, como um todo, os índices de paridade global aumentaram, em comparação aos do ano passado, o que o relatório atribui a avanços no campo político e ao “aumento significativo do número de mulheres na política”. Porém, é na área trabalhista que se concentra a maior acentuação da desigualdade de gênero, com uma diferença salarial de 40% entre homens e mulheres. Como critério para se chegar a tal índice, o relatório evidencia a “baixa proporção de mulheres em cargos gerenciais, ao congelamento de seus salários e à sua baixa participação na força de trabalho e na renda”.

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O estudo também expressa as diferenças regionais nos índices de paridade de gênero pelo mundo. Mesmo na Europa Ocidental, com os melhores índices pelo 14º ano consecutivo, estes não são satisfatórios: na taxa atual, serão necessários 54 anos para que as mulheres alcancem as mesmas condições que os homens de seu próprio país. Por um lado, mesmo nos países imperialistas em que o capitalismo consegue produzir melhores condições materiais para a população, enquanto sistema econômico é incapaz de combater a desigualdade de gênero. Por outro, há também uma diferença em como isso se expressa nas condições de vida das mulheres de países imperialistas e dos países ditos “atrasados” ou semicoloniais: nos países da América Latina e do Caribe, seriam necessários 59 anos para atingir a paridade; na África Subsaariana, 95 anos. Tais fatores não são meras coincidências, nem estão descolados: quanto mais periférico é um país no sistema capitalista e maior é a taxa de exploração sobre os trabalhadores, mais tempo levará para que as mulheres nesses países tenham as mesmas condições de escolaridade, saúde e trabalho que os homens.

Mesmo um relatório baseado apenas em índices econômicos é capaz de expressar a realidade das condições das mulheres no mercado do trabalho. Atualmente, mesmo que ocupem poucos “cargos gerenciais”, as mulheres não só alcançam quase metade da população mundial, como também representam mais de 40% da força de trabalho global. A transformação das relações de trabalho como decorrência da implementação do plano econômico neoliberal nas últimas décadas implicou um salto na incorporação das mulheres como mão-de-obra barata no mercado de trabalho, nos marcos de uma profunda desigualdade salarial, empregos precários e de duplas ou triplas jornadas de trabalho, uma vez que o trabalho doméstico que recai principalmente sobre as mulheres não diminuiu. No objetivo de manter seus lucros em meio às consequências econômicas e sociais da crise financeira de 2008, que seguem se arrastando, a classe dominante necessita que a força de trabalho feminina continue dividindo as fileiras da classe trabalhadora, valendo-se da menor remuneração dos empregos das mulheres para pressionar a redução dos salários como um todo. Portanto, a desigualdade de gênero nas condições de trabalho atua a serviço de potencializar a exploração do conjunto dos trabalhadores.

No Brasil, uma mulher negra chega a ganhar 60% a menos que um homem branco e a classe trabalhadora mundial tem cada vez mais o rosto feminino e negro. Se por um lado, a burguesia se vale da opressão de gênero como estratégia para manter sua dominação de classe e as taxas de exploração sobre os trabalhadores, também se depara com uma perigosa arma: as mulheres têm protagonizado no mundo todo grandes processos de luta e configuram um importante e dinâmico fenômeno político a nível global, podendo ser linha de frente também de se colocar contra todos os planos de ataques e de austeridade para que não sejam as trabalhadoras e trabalhadores a pagarem pela crise econômica.

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O relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial coloca em pauta um debate importante e uma reflexão fundamental: o gênero nos une, mas a classe nos divide. É possível reivindicar como melhoria das condições de trabalho das mulheres, como sugere o órgão, a ascensão feminina para cargos gerenciais, como CEOs e empresárias à frente de explorar a força de trabalho de outras mulheres? Ou comemorar como um avanço por si só “o aumento significativo” de mulheres em cargos políticos como parte do combate à desigualdade de gênero no mundo? Angela Merkel, chanceler alemã, por vezes já reafirmou sua política imperialista e xenófoba e sua posição em relação às milhares de mulheres imigrantes que todos os anos arriscam suas vidas e a de suas famílias em travessias ilegais em busca de melhores condições de vida. Tabata Amaral despontou no cenário político brasileiro como uma jovem representante dos direitos das mulheres, para recentemente usar de seu cargo como deputada federal para votar a favor da Reforma da Previdência que fará milhões de brasileiras trabalharem em condições precárias até o fim de suas vidas. Uma figura reacionária como a ministra Damares Alves dispensa comentários, mas não perdeu oportunidades para destilar todo tipo de obscurantismo contra as mulheres, os negros e os LGBTs como figura política a serviço do governo de extrema direita de Bolsonaro.

A representação de mulheres em cargos representativos na política é parte importante da luta pelos direitos da mulheres, mas é necessário ter em mente que apenas a força imparável do movimento de mulheres, organizada de forma independente dos mecanismos que tentam constantemente cooptar e desvia-lo para saídas reformistas ou diretamente reacionárias, será capaz de levar até o final as demandas por cada um de seus direitos e avançar na perspectiva de um outro sistema econômico e de uma outra sociedade na qual seja possível a paridade de gênero e iguais condições de vida entre homens e mulheres.




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