Conto: A esquina daquele sino

Demar Oliveira

Serviço Social - UERJ

quinta-feira 17 de agosto| Edição do dia

Arte: Lora Zombie

Havia muito tempo que eu não encontrava com Bia, mas fiquei sabendo que ela iria se mudar, pois tinha sido promovida. Sua família marcou uma despedida num lugar pouco frequentado, porém calmo e seguro. Eu estava triste porque ela ia embora, pois me encontrava distante por alguns meses. Mas sabendo que iria se mudar pra um lugar muito melhor do que esse, fiquei mais tranquilo. Naquela tarde de inverno fazia calor e o sol arrancava gotas de suor de todos que chegavam. Pra falar a verdade eu já estive naquele lugar uma vez, na despedida do meu pai, exatamente 10 anos atrás. Mas naquela época eu não me conformava por ele ter ido embora, talvez porque eu fosse imaturo demais pra superar o remorso de ter ficado alguns anos sem falar com ele após a agressão contra minha mãe em 2002, ou talvez porque, apesar disso, ele foi um bom pai e assim como minha mãe, nos momentos de fome ele deixava de comer pra alimentar seus filhos. O fato é que quando estávamos nos reconciliando, ele resolveu nos deixar e nunca mais voltou desde então. Quando ele partiu, lá havia uma avenida cheia de lama, mas agora está pavimentada com milhares de pedras minúsculas. Na esquina dessa avenida sem nome existe um sino que anuncia a hora da despedida, mas prezumo que ninguém gosta de ouvir o seu toque, pois sabem que representa um adeus. Enquanto os convidados de Bia chegavam, eu resolvi caminhar um pouco e ver as plantas que floreiam o entorno daquele inóspito lugar. Segui reto por àquela avenida e não ouvia nada além do canto dos pássaros se entrelaçando ao profundo silêncio fúnebre e gélido, enquanto percebia a grama mal cuidada. Ao fundo pude ver algumas montanhas gigantescas que por algum momento parecia me puxar com a energia que emanava. Notei que alguns olhares miravam a minha presença. Mas não se tratava daquelas fotografias amareladas coladas nas casinhas de mármore. Eram homens vestidos todos de azul com botas pretas sujas de lama. Estavam com enxadas cavando dois buracos, um ao lado do outro e um menor que o outro. Ficaram me olhando enquanto eu caminhava. Ao lado deles havia um pântano sombreado por árvores estranhas de onde saia uma quantidade assustadora de moscas. Nem os raios dourados de sol daquele entardecer de inverno deixaram o pântano mais ameno. Sua grama afogada tinha cor de barro vermelho e nem os insetos queriam frequentar. Continuei minha caminhada até o final da avenida e os homens de azul voltaram seus olhares cansados pro chão e continuaram cavando. Quando subi na ponta de um barranco onde a visão ampliava as montanhas, senti mais forte suas energias. Uma das montanhas agonizava sangrando. Talvez seja dali que extraíram as pedras que pisei nessa avenida, pensei. Com profundo desencanto pela humanidade, olhei pra trás e respirei fundo, bem na hora que tocaram o sino. Retornei achando que fosse a Bia indo embora, mas eram outras pessoas: uma mulher e sua filha, que pelo tamanho da caixinha branca, devia ter menos de um anos de idade. Mas ao contrário de Bia e de meu pai, ninguém veio pra essa despedida. Apenas um daqueles homens de azul às conduziam até o ponto de partida. Perguntei onde estavam seus convidados, mas quem respondeu foi ele. Disse que mãe e filha eram indigentes e por isso ninguém foi dar adeus. Aquilo não fez o menor sentido pra mim. Resolvi acompanhar enquanto Bia não ia embora. Fiquei me perguntando quantos partem assim todos os dias, sem ninguém dar um beijo ou um abraço. Será que alguém sabe que estão partindo? Onde está o pai dessa menina? Será que elas tinham casa, comida e roupa lavada? Como será que foi o final de semana delas? Será que já experimentaram mousse de maracujá? Será que elas existiram mesmo ou tudo àquilo não passou de uma encenação? Quem vai saber? Só sei que levaram elas pra dentro daqueles buracos que os homens de azul cavaram perto do pântano. Então é no pântano que os indigentes se despedem, pensei. Dei meia volta em busca de água, mas não encontrei, então resolvi ultrapassar a muralha que separava aquele lugar estranho do mundo real pra poder matar a sede. Do lado de fora havia uma tenda empoeirada e uma mulher cega vendendo doces e bebidas. Sua pele negra suava intensamente com o calor que o asfalto vaporizava, mas seu sorriso parecia de uma pessoa com plena visão. Pedi uma garrafa de água e ela questionou a minha preferência: com gás ou sem gás? Nunca gostei de água com gás e fiquei realmente intrigado como ela conseguiu distinguir uma garrafa da outra sem enxergar um palmo à sua frente. Achei melhor não perguntar. Enquanto abria a garrafa eu pude ouvir o sino tocar novamente. Voltei correndo, pois finalmente havia chegado a hora de nos desperdirmos de Bia. Ela estava tão plena. Sua face de tranquilidade confortou as duas filhas, cujas trajetórias foram marcadas pelo amor da mãe que sozinha às criou. Finalmente o sino parou de tocar e todos conduziram Bia aos prantos por àquela longa avenida pavimentada com sangue de montanha. No meio da multidão alguém tocava no violão divinas canções inspiradas na paz que Bia encontrou em Deus. Os lentos passos arrastados que levantavam poeira e marchavam de costas pro sol, pareciam dizer não à sua partida. Porém, era tarde demais e os homens de azul já haviam preparado seu local de partida, longe do pântano e numa caixa de cimento pintada com cal. Com carinho e muitas flores perfumadas, nos despedimos de Bia sem que pudéssemos dar um último abraço. Fiquei pensando quem cuidaria das plantas que Bia havia deixado, mas lembrei quanto amor ela regou em cada uma e que foi embora com a certeza de que às deixou com bons jardineiros. Quando cheguei em casa eu separei um livro pra ler e, coincidência ou não, dentro dele havia um poema que escrevi e entreguei pra Nathália quando ela também foi embora em abril:

Laços

A cidade refletida nos olhos se entrelaça aos faróis que passam ligeiros lá fora.
Vida corrida, vida apressada, vida que se vai.
É no desgaste cotidiano que o tempo escorre pela sarjeta, e se piscar, os laços se vão.
Vi um arco-íris esses dias, mas ele se foi.
Há pouco eram poucas nuvens, mas agora o firmamento deságua em transparência.
Perguntam o que aconteceu.
Disfarço.
Veja como tem poeira nessa estrada.
E essas faixas brancas que demarcam o asfalto, quem será que pintou?
O que será que está fazendo agora?




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