Teoria

A esquerda precisa de escritores materialistas

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 28 de agosto| Edição do dia

Já repararam na quantidade de teia de aranha que existe sobre a realidade? Sim, existem imagens muito velhas disfarçadas de imagens novas. Estas imagens servem para ocultar o mundo real/concreto e fazem parte inclusive da linguagem política dos partidos e grupos conservadores. A vida política brasileira envolve as mesmas convenções mumificadas e os mesmos formatos de sempre, com os mesmos discursos que falam em pátria, amor, fraternidade, ordem... Belas palavras soltas no ar enquanto crianças de bairros proletários correm descalças sobre o esgoto aberto. Belos discursos enquanto a esmola nos centros das cidades torna-se tão natural como pombos nas praças. “ Ah, palavras! “ Mas se o nosso papo aqui é literatura, não se trata de assuntar sobre as maneiras como os sentimentos e as ideias são expressos em palavras? Palavras transformam a realidade? É disso que vamos tratar neste café.

É comum ouvirmos aqueles comentários idealistas em que a Educação seria a raiz dos problemas sociais. Todas as dores e todo sofrimento do povo brasileiro seriam resolvidos se as pessoas começassem a ler e escrever. O que isso quer dizer? Para as pessoas bem intencionadas mas incapazes de compreender as relações de produção, o conhecimento seria um passaporte para que o pobre possa tirar diploma e assim conseguir um bom emprego, integrando-se às leis econômicas que regem o mercado. Um emprego e o acesso aos bens de consumo seriam uma fruta que é só ir pegar no pé: tudo dependeria do esforço pessoal e do consequente sucesso individual. Balela! Se existem exceções, se algumas poucas pessoas conseguem “ prosperar “, a base econômica que produz miséria mantem-se intacta (sem contar que o imperialismo continua saqueando o país). O grande capital é um personagem vampiresco que para existir precisa pilhar a energia dos trabalhadores, precisa alienar e explorar. O conhecimento, a literatura em especial, servem para que neste mundo?

Lutar pela melhoria das condições de vida da classe trabalhadora abrange ações políticas emergenciais, mas que não visam no fim das contas a conciliação entre capital e trabalho: são precisamente a abolição da propriedade privada e do trabalho alienado que podem libertar o proletariado. Sem conhecer o verdadeiro funcionamento do sistema capitalista, sem conhecer a história da humanidade, sem compreender a quais classes sociais pertencem os personagens que fazem parte da vida real e da ficção(novelas, filmes, romances etc), como os trabalhadores podem ler a realidade? Para a classe trabalhadora o conhecimento deve ser uma prática social que existe enquanto crítica da realidade. As narrativas revolucionárias são ações sobre o mundo, isto é, agem sobre o nosso jeito de pensar e sentir o mundo. O conhecimento deve entrar em conflito com a ideologia dominante, deve explicar a raiz das relações sociais. As palavras só podem ser revolucionárias se elas forem ativas, se entrarem no sistema nervoso de quem trabalha, trabalha, trabalha e não sabe por quê.

Palavras como “ conservador “ ou “ revolucionário “ podem pulular em poemas, romances, manifestos e artigos de jornal. Isto não é garantia para que elas possuam influência política sobre a realidade. Para que uma palavra comunique as intenções de um escritor, ela precisa lidar com as necessidades reais do leitor. Neste sentido não basta que um poema fale sobre a fome, se o mesmo não possuir as imagens que expressam a indignação e revelam o desejo de despertar o leitor para possíveis mudanças. Despertar não é fácil, exige esforço e a implosão das barreiras ideológicas que impedem a emergência de uma outra sociedade. Assim sendo a literatura brasileira requer escritores materialistas na medida em que esses trabalham pelo movimento real da história: promovendo um diálogo feroz com leitores, tais escritores agitam o cotidiano. Estes escritores são parte ativa do movimento revolucionário dos trabalhadores.

Histórias que procuram discutir a realidade da classe operária sem lentes distorcidas, encontram resistência entre leitores que concebem o mundo de modo fantasmagórico. Neste sentido o fundamentalismo religioso, ativo inclusive entre as forças políticas conservadoras do Brasil, tem prestado um desserviço aos interesses dos trabalhadores. Calma lá, não estou atacando as crenças religiosas em si. Penso que a religião é uma questão de fórum íntimo, sendo antes expressão legitima da necessidade de algumas pessoas que buscam a ideia do “ sagrado “. O que deve ser atacado e denunciado é o clássico uso ideológico da religião para instalar imagens de terror divino e amor abstrato entre os homens. Este é um dado que permeia a história da humanidade, atrasando a consciência de gerações e gerações de trabalhadores, contribuindo para que o injusto seja percebido como justo. Um trabalhador que confunde fatos históricos com representações religiosas envoltas numa linguagem metafórica, tende a ser manipulado politicamente. Este trabalhador precisa de uma literatura materialista, capaz de faze-lo perceber através da narrativa os interesses de classe presentes na organização da realidade.

Um escritor que deseja agir sobre a maneira como os operários encaram as coisas, não pode produzir uma literatura que comente a superfície das situações. Os dados econômicos precisam ser traduzidos em palavras precisas. A luta de classes pede representações artísticas revolucionárias.




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