Opinião

TRIBUNA ABERTA

A esquerda brasileira luta contra o tempo

quinta-feira 1º de dezembro| Edição do dia

O governo Temer faz água e não consegue reverter a grave crise econômica. Além disso, por falta de legitimidade, alimenta um conflito diário entre os poderes constituídos. A direita brasileira, assim como nos EUA, pode hegemonizar a insatisfação popular em 2017.

Governo Temer caminha para o colapso

Os sinais já são claros. A economia nacional afunda. Projeta-se 4% de queda do PIB brasileiro em relação ao ano passado, já em queda. A ociosidade da indústria automobilística é de 40%. O desemprego entre jovens com até 25 anos é de 25%. A inflação aproxima-se de 8% ao ano. A oferta de crédito para empresas e famílias recuou para o patamar do final dos anos 1990.

Os pacotes econômicos, que cortam recursos para a área social, retiram o colchão de proteção que poderia frear o desamparo da grande maioria da população brasileira, pobre ou próximo da linha de pobreza. O país entra num ciclo destrutivo que raramente se viu em nossa jornada, muitas vezes desastrada.

A crise econômica já havia alimentado a crise política que deu num ato tresloucado de impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Tresloucado porque irresponsável. Ao retirar um governo Calígula, os manipuladores ficaram no centro do palco. E não tinham muito o que colocar em seu lugar. Acabaram manietados pelo que há de mais superficial e utilitarista: o Baixo Clero parlamentar e a FIESP, hoje dirigida por um declarado candidato ao sucesso político. O pacote econômico é um desastre social, destruindo pontes entre classes sociais, dinamitando expectativas de famílias pobres. Este, aliás, é o principal motivo da existência do Estado Moderno: a garantia mínima das expectativas se realizarem. Sem esta garantia, o tecido social se desmancha e a ordem passa a dar lugar ao sentimento de injustiça. Barrignton Moore Jr já nos alertou que as revoltas e revoluções seguem este sentimento, que se revela seu guia para a explosão social (ver seu livro “Injustiça: as bases sociais da obediência e da revolta”).

A crise política está caminhando aceleradamente para se tornar uma crise institucional. Para as teorias funcionalistas, instituições são estruturas sociais que “cimentam” as relações e convívio. Para tanto, precisam preservar os valores morais, as crenças e a noção dos atos corretos e consagrados pela história daquele agrupamento social. Se não se alimentam de tais crenças e valores sociais, as instituições falem e o mundo social entra em colapso. O Brasil já mergulha nesta direção. Pesquisa feita pelo Latinobarômetro indica que apenas 3% dos brasileiros confiam nos brasileiros. Num campo desarticulado como este, nada pior que um conflito aberto entre os poderes da República. E é justamente isto que foi verificado nos últimos dias. Juízes e promotores declararam guerra ao Senado que estaria tramando restringir suas ações. O judiciário, de fato, exorbita suas funções e se apresenta como demiurgo da sociedade brasileira, mas o impulso do Senado é de atá-lo de vez para que não possam incriminar políticos (que sustentam o governo federal).

Por seu turno, o Presidente do Senado, Renan Calheiros, pauta numa votação noturna justamente este pacote atacado pelo judiciário e MP. E é traído. O jornal Estado de São Paulo revela na edição desta manhã do primeiro dia do último mês do ano que foi justamente o PSDB, sob a batuta do seu presidente nacional, o senador mineiro Aécio Neves, que orquestrou esta antecipação de pauta. Traiu Renan Calheiros para não se expor ou para expor o Presidente do Senado ao ridículo (ver matéria “O PSDB foi o principal articulador de urgência do pacote anticorrupção”:.

Paralelamente, articula-se para os próximos dias atos nacionais, organizados pela direita brasileira e apoiada por órgãos da grande imprensa nacional, pela queda de Temer e contra este projeto que limitaria as ações da Operação Lava Jato.
E onde fica a esquerda brasileira?

A Esquerda troca pneus com o carro andando

Após passar pela avalanche do impeachment da Presidente Dilma Rousseff, a esquerda foi, ainda, pressionada pelas eleições municipais. Com exceção do desempenho desastroso do PT (que perdeu 60% do total de prefeituras que governava), a esquerda não foi um fracasso generalizado. Mas, sem o PT, retornou à situação dos anos 1990.

Rapidamente, foram forjadas diversas propostas para sua rearticulação. Algumas são mais conhecidas, como a formação de uma Frente de Esquerdas (ao estilo uruguaio), adoção de prévias para escolha do candidato à Presidência da República ou convocação de uma Constituinte Nacional.

Ocorre que o tempo político acelerou. As manifestações voltam às ruas depois de dois meses de processo eleitoral. E, agora, retorna a disputa pela hegemonia ou catalisação da insatisfação popular que promete ser gigantesca em 2017. Sem lastro no campo institucional, as manifestações podem se tornar um amplo movimento niilista, com possibilidades catastróficas para a política nacional. Algo semelhante ao que ocorreu recentemente nos EUA, onde a direita soube hegemonizar a crítica e frustração popular.

Enfim, à esquerda resta pouco tempo. Depois da importante manifestação em Brasília, que não conseguiu conter as lealdades espúrias entre senadores, terá que ser ainda mais vigorosa e didática.

O que está em disputa é a liderança da onda de insatisfação popular.
Ou a esquerda se recompõe ou perderá a próxima década para uma direita irresponsável, ignorante e com pendores fascistas.

Terá que aprender a trocar pneus com o carro andando.




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