Política

“A energia de milhares não pode ser usada eleitoralmente”, diz Diana Assunção

Em declaração ao jornal alemão Neues Deutschland, Diana Assunção declara que a energia de milhares não pode ser usada eleitoralmente. Essa foi a posição que os blocos independentes do Pão e Rosas representaram nas marchas contra Bolsonaro no último sábado, 29.

domingo 30 de setembro| Edição do dia

Em declaração ao jornal alemão Neues Deutschland, Diana Assunção declara que a energia de milhares não pode ser usada eleitoralmente. Essa foi a posição que os blocos independentes do Pão e Rosas representaram nas marchas contra Bolsonaro no último sábado, 29.

Reproduzimos a seguir sua entrevista.

“Nessas eleições manipuladas pelo judiciário e tuteladas pelas Forças Armadas, o mais importante é entendermos que nossa energia de luta não pode ser canalizada somente nas eleições, precisamos ver que a disposição de milhares de pessoas que se levantaram no mundo inteiro contra a Extrema Direita e Bolsonaro, não pode ser canalizado eleitoralmente para um ou outro candidato como se fosse resolver os problemas do país.

Mesmo Bolsonaro não ganhando as eleições, a sua base vai continuar existindo, essa base tão reacionária e que representa quase 30% das intenções de votos irá existir ainda. Além disso, os militares vão continuar tentando condicionar um próximo governo mais de direita para seguir com os planos de ataques aos trabalhadores. É necessário entendermos que a nossa luta precisa avançar diretamente para um processo de luta de classes, de enfrentamento da classe trabalhadora com as mulheres trabalhadoras à frente para enfrentar essa situação.

O elemento do voto feminino é uma expressão de que são as mulheres que mais sofre com a crise econômica. Justamente por isso não podemos dedicar toda nossa energia de luta à saídas eleitorais. A situação do país vai continuar conturbada mesmo que ganhe um governo que não seja de Bolsonaro, pois os ataques contra os trabalhadores irão vir. O PT já anunciou isso, já está buscando acordos inclusive com os golpistas.

O que está acontecendo no país é um momento muito importante. Nós mulheres do movimento pão e rosas viemos lutando muito contra o Golpe Institucional que ocorreu em 2016 e tirou a Dilma Rouseff do governo, pois víamos que era um golpe dado por setores da direita que vieram para implantar ataques mais profundos que o PT já vinha fazendo. Desde então avançaram muitos ataques no governo golpista de Temer.

Teve um momento muito importante e marcante dessa situação que foi a Greve Geral do dia 28 de abril de 2017, onde os trabalhadores se levantaram para enfrentar os ataques de Temer. E naquele momento se expressou também a traição das centrais sindicais que não permitiram que essa luta avançasse.

Agora vemos esse descontentamento vindo pela via das mulheres a frente, e isso não pode ser canalizado eleitoralmente. Não podemos nos enganar. Já tiveram muitos movimentos, de mulheres inclusive, onde sempre buscam desviar nossa luta e não permitir que leve uma luta até final em busca de todos os nossos direitos. Estamos vivendo um fenomeno internacional do movimento de mulheres, no qual é necessário discutir estratégia no movimento de mulheres, e não aceitar outras variantes do movimento de mulheres que são da classe para manter o sistema capitalista como ele é, e sim fazer uma luta da demanda das mulheres ser uma luta anticapitalista.

Nesse sentido, as mulheres brasileiras olharem para história e os movimentos que já tiveram para tirar lições. Nos Estados Unidos, as grandes marchas de mulheres contra o Trump, mostraram que o Partido Democrata da Hillary Clinton tentava cooptar o movimento e a energia das mulheres para defender sua própria política. Uma política que não era a mesma do Partido Republicano do Trump, que é a política mais reacionária do imperialismo norte-americano, mas também é uma política que dava continuidade às guerras, que também oprimia os imigrantes, ou seja, não era uma política da classe trabalhadora e das mulheres pobres. A Hillary Clinton defende um feminismo para poucas, para mulheres privilegiadas, e esse não pode ser o feminismo que a gente defenda.

Agora nesse momento que vivemos, com as eleições manipuladas pelo judiciário golpista, onde rechaçamos a prisão arbitrária do Lula, defendemos com toda força o direito do povo decidir em quem votar, também denunciamos a tentativa de pacto que o PT está buscando para tentar fazer um governo de coalizão junto com os golpistas, como o PSDB que foi parte da articulação do golpe e junto com os empresários. E agora esse filme se repetindo, já que o PT abriu o caminho para o golpe institucional quando governou com a direita.

O momento político é muito importante e a energia de milhares de mulheres que saíram às ruas neste dia 29, precisa ser canalizado para uma luta que vai diretamente para esse governo golpista, mas que não aceite nenhum mal menor, porque no sistema capitalista não existe nenhum mal menor para as mulheres que sempre são quem duplamente paga pela crise.

Eu como ativista feminista no Brasil, nesse momento, sou uma feminista socialista defendendo que a luta das mulheres seja aliada à luta anticapitalista me sinto na obrigação de fazer esse debate no movimento de mulheres, tirando lições da história da luta das mulheres, da história da classe operária e também da história mais recente que vem acontecendo, para que a nossa energia seja de fato dedicada para um projeto que de fato valha nosso esforço, frente a esse movimento que rechaça Bolsonaro. Não aceito que nossa energia seja canalizada por um mal menor, que depois fará ataques contra as mulheres.

Precisamos lutar por uma alternativa que aposte na mobilização independente das mulheres, dos trabalhadores, dos negros e dos LGBT’s pra organizar nossa luta e enfrentar essa situação, para que não canalizem nossa energia no voto, como se fosse ele que fosse resolver os problemas que passamos hoje, que é uma questão mínima e elementar que nos permitem nessa democracia degradada dos ricos. Colocado isso, viemos levantando que a população deveria ter direito de decidir sobre os grandes problemas do país, exigindo assim dos sindicatos e dos movimentos populares que imponham com a luta uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que seria a única possibilidade, ainda dentro dessa democracia, levar até o final o direito democrático de decidir os rumos do país.

Que nesse processo, possamos tomar decisões como o fim do pagamento da dívida pública, que é um roubo das riquezas nacionais pelos capitalistas estrangeiros. Que possamos de fato legalizar o aborto, algo que sabemos que se o Bolsonaro entrar no governo, vai criminalizar inclusive os casos que são permitidos por lei, mas também sabemos que em 13 anos de governo do PT, esse partido não legalizou o aborto e isso não é um detalhe. Uma Assembleia constituinte onde possamos efetivar todos os terceirizados, sem a necessidade de concurso público. Igualar o salário das mulheres negras, que ganham 60% a menos que os homens brancos no país, e revogar todas as reformas do governo Temer mas também dos governos anteriores.

Avançar assim para conquistar demandas que de fato possam responder a situação que vive a classe trabalhadora e as mulheres hoje no Brasil, para fazer com que seja os capitalista que paguem pela crise e não os trabalhadores. Não queremos pagar pela crise com um governo Bolsonaro que viria para massacrar nossa classe, mas também não queremos pagar por ela com um governo Haddad que já anunciou que existem pontos interessantes na reforma da previdência do governo golpista de Temer. Não podemos aceitar isso.

Nós do Pão e Rosas lutamos por uma alternativa de independência de classe e atuamos para debater estratégia no movimento de mulheres.”




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