Sociedade

ECOLOGIA E MARXISMO

A ecologia de Marx e Engels antes do desenvolvimento capitalista

quinta-feira 15 de setembro| Edição do dia

Começamos explicando que a ecologia nasce como um ramo da biologia. O termo foi usado pelo naturalista alemão Ernst Haeckel, um admirador e divulgador da obra de Darwin em seu país, na segunda metade do século XIX. Seu trabalho “Os enigmas do Universo” (1899) lhe rendeu, em parte, o desprezo e uma campanha feroz por todo o idealismo mística reacionária que dominava a filosofia e teologia da época e, por outra, a simpatia de Vladimir Lenin e Franz Mehring. Em “Materialismo e empirocriticismo”, o revolucionário russo faz uma defesa firme do "famoso naturalista" que, apesar de expressar "as opiniões, humores e tendências mais enraizadas, embora mal cristalizadas, da esmagadora maioria dos naturalistas do final do século XIX e início do século XX, mostra, ao mesmo tempo, com facilidade e simplicidade, o que a filosofia acadêmica pretendia esconder do público e de si mesma, ou seja, que existe uma base, cada vez mais ampla e firme, contra os inúmeros esforços e afazeres das escolas de idealismo filosófico com o positivismo, o realismo, empiriocriticismo e outros confusionismos. Essa base é o materialismo nas ciências naturais ". Para o revolucionário alemão Franz Mehring "o livro de Haeckel, tanto por seus pontos fracos como pelos seus pontos fortes, é extremamente valioso para ajudar a explicar as opiniões que chegaram um tanto confusas no nosso partido sobre o que representa para este o materialismo histórico "(...). "Qualquer um que queira ver de modo palpável essa incapacidade (incapacidade do materialismo nas ciências naturais para as questões sociais) e tem a plena consciente da necessidade de expandir o materialismo nas ciências naturais até o materialismo histórico, a fim de fazer deste uma arma verdadeiramente invencível na grande luta da humanidade por sua emancipação, que leia o livro de Haeckel. (...) Seu ponto extremamente fraco está intimamente ligado ao seu ponto extremamente forte: a exposição clara e brilhante do desenvolvimento da ciência natural no século XIX, ou em outras palavras, a exposição da marcha triunfal do materialismo nas ciências naturais”.

Ökologie (Ecologia em alemão)

Haeckel, em “Morfologia geral dos organismos” (1866), colocou o conceito Ökologie, do grego οἶκος (casa) e λογία (estudo), para se referir ao "ensino da economia da natureza", "a ciência da economia, modo de vida e relações externas vitais mútuas dos organismos”, ao "estudo da economia das inter-relações dos organismos”. Significativamente, o uso do conceito de eco para Haeckel. Este entendia como economia da natureza (onde era fundamental as trocas de matéria e energia, e sua transformação pelas comunidades biológicas) e não como meio ambiente. Para definir a relação dos organismos com seu ambiente geográfico, Haeckel colocou outro conceito: corologia (atualmente biogeografia que estuda a distribuição geográficas dos seres vivos). No entanto, mais tarde, em 1868, em sua obra “História natural da criação”, o autor afirma que "a ecologia dos organismos [é] o conhecimento da soma das relações dos organismos com o mundo externo que os rodeia, das condições orgânicas e inorgânicas de sua existência". A ciência da ecologia, de acordo com Haeckel, "muitas vezes é considerada erroneamente como "biologia" no sentido estrito, mas é a essência do que geralmente se denomina de " história natural "".

O conceito de ecologia de Haeckel foi se desenvolvendo lentamente e não teve imediata ligação com a literatura darwinista e nem se tornou base científica até meados do século XX. Marx e Engels, que conheciam bem o trabalho de Haeckel, e que viam a espécie humana em termos evolutivos, como parte do mundo animal (rejeitando a visão teleológica, a metafísica, que colocava os seres humanos no centro da criação), adotaram o conceito mais antigo de "história natural" (equivalente, como dito por Haeckel, a seu novo termo Ökologie), embora sendo aplicada de um modo baconiano, isto é, centrando a história natural dos seres humanos em relação à produção.

No pensamento e nas preocupações de Marx, Engels e os principais representantes da sua corrente há vários aspectos que nos permitem vincular sua história com a história que Haeckel definiu como öklogie, e cujo denominador comum é o conhecimento do metabolismo entre sociedade e natureza (e sua fratura total sob o capitalismo). Vamos nos concentrar basicamente em três: a importância do desenvolvimento das ciências naturais para uma compreensão profunda do mundo e da história humana, o problema relativo à coevolução das espécies, e o problema do desenvolvimento sustentável da agricultura, frente a indústria capitalista, no conflito da contradição entre a cidade e o campo.

A marcha triunfal das ciências naturais

Lenin, em “Três fontes e três partes integrantes do marxismo” (1913), evidenciou que, na luta contra toda a escória medieval enraizada nas instituições e nas ideias, “o materialismo se mostrou como a única filosofia consistente, fiel a tudo que mostrava as ciências naturais, hostil à superstição, a pura hipocrisia”, e que, por isso, os inimigos da democracia “empenharam todos os seus esforços para tratar de difamar o materialismo na defesa de diversas formas de idealismo filosófico”. Para o velho bolchevique "Marx e Engels defenderam de forma mais enérgica o materialismo filosófico e explicaram reiteradas vezes o profundo erro que significava todo o desvio desta base”.

Enquanto Marx ampliou o conhecimento da natureza para o conhecimento da sociedade humana, dando origem ao materialismo histórico, Engels forneceu a relação mais direta entre o marxismo e a ciência. Para ele, mas também para Marx, uma concepção materialista e dialética da natureza não era só possível, mas, em grande parte, tinha proporcionado para o mundo natural “A origem das espécies” de Charles Darwin. No velho prólogo Anti-Dühring, o trabalho considerado por Lenin "o livro de cabeceira para todos os trabalhadores com consciência de classe", Engels enfatizou que o forte crescimento das ciências naturais colocava a necessidade de superar os limites do pensamento formal aristotélico, bem como ordenar, a partir do ponto de vista teórico, os resultados das investigações científicas. Nesta concepção materialista do mundo, cujas as origens remontam ao pensador grego Epicuro, Marx e Engels incorporaram através de uma síntese da dialética hegeliana, a doutrina do desenvolvimento – nas palavras de Lênin - "em sua forma mais plena, profunda e livre unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em eterno desenvolvimento”.

Isto pode ser visto em uma carta de Marx ao seu amigo Engels, o primeiro, a partir de suas observações sobre a teoria da evolução de Darwin, dizendo ao segundo que "a descoberta de Hegel em relação à lei do acúmulo das mudanças quantitativa se tornar mudanças qualitativas... se sustenta igualmente bem na história como na ciência natural”. A natureza, em outras palavras, é ela mesma dialética, de modo que as teorias adequadas nas ciências naturais devem ter necessariamente uma estrutura dialética. O livre movimento da matéria, de acordo com Marx "não mais do que parafrasear o método com que tratamos a matéria, ou seja, o método dialético". Embora para Engels "não se tratava de construir as leis da dialética da natureza sem descobri-las “, entretanto, para o russo, "as recentes descobertas das ciências naturais, tais como o rádio, os elétrons ou a transformação dos elementos, são uma admirável confirmação do materialismo dialético de Marx ".

Em “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, Engels relata que "na verdade, todos os dias aprendemos a compreender melhor as leis da natureza e conhecer tanto os efeitos imediatos como consequências remotas da nossa interferência no curso natural de seu desenvolvimento". Para o alemão, "depois dos grandes processos alcançados pelas ciências naturais neste século, somos capazes de antecipar e gerir cada vez mais as consequências naturais de nossas ações na produção."

Coevolução

Esta concepção de controle longe de tratar de uma concepção prometeica – nas palavras de Engels, como "um vencedor sobre um povo conquistado" – se baseia na visão de interdependência da sociedade e da natureza, quando ele diz "quanto mais for está a realidade, mais sentiremos e compreenderemos os homens como unidade da natureza, e mais inconcebível será essa ideia absurda e antinatural da antítese entre o espiritual e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo”, ideia que Engels começa a denunciar e difundir pela Europa com o declínio da antiguidade clássica e atinge o seu máximo de desenvolvimento no cristianismo medieval.

Essa ideia de coevolução herdada da análise da obra de Darwin se manifesta com maior clareza ao analisar a situação “dos italianos dos Alpes, que desmataram o bosque de pinheiros da encosta sul, preservado com tanto cuidado o bosque da encosta do norte". Por um lado, de acordo com Engels, estes “não tinham ideia de que isso iria destruir as raízes da indústria de laticínios da região, e muito menos poderiam prever que ao faz isso privavam suas nascentes de água na maior parte do ano ". Além disso, com este procedimento também geraram encostas de montanhas que poderiam "ao chegar o período das chuvas, derramariam torrentes ainda mais furiosas nas planícies. (...) Então, a cada passo, os fatos nos lembram que o nosso domínio sobre a natureza não é como um vencedor sobre um povo conquistado, não é alguém que está fora da natureza, mas nós, com nossa carne, nosso sangue e cérebro, pertencentes à natureza, estamos dentro, e todo o nosso domínio sobre a natureza consiste em que, deferente dos demais seres, somos capazes de conhecer suas leis e de aplica-las de maneira criteriosa”.

Graças ao entendimento da evolução e a aplicação da dialética hegeliana, Engels conseguiu transcender as formas mecanicistas do pensamento, algo de grande importância, uma vez que na sua opinião (como na de Marx) a concepção da história natural a partir das análises de Darwin permitiu compreender a natureza em termos de surgimento. Em sua obra “A dialética da natureza”, inacabada em 1876 e somente conhecida em 1925, Engels indicou que a discussão sobre os “limites do conhecimento” em relação com a biologia deveria começar com o eletrofísico alemão Emil Du Bois -Reymond, cuja tradição também remonta a Epicuro, e que na década de 1870 e 1880, havia argumentado que a teoria da evolução poderia proporcionar a resposta da origem da vida, precisamente porque a relação da vida com a matéria é uma relação de origem.

De acordo com Bellamy Foster (A ecologia de Marx), "foi esse naturalismo complexo, dialético, no qual se viu a natureza como prova da dialética, o que explica o brilhante conjunto de ideias ecológicas que permearam o pensamento de Engels". Este, em “Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã” (outro livro de cabeceira "para todos os trabalhadores com consciência de classe", segundo Lenin), argumentou que a revolução darwiniana e a descoberta da pré-história tornaram possível, pela primeira vez, uma análise da "pré-história da mente humana ... que através da evolução, o protoplasma dos menores, organismos, mais simples e sem estrutura, mas sensíveis aos estímulos, continuavam a ascender até o cérebro humano pensante."

Sustentabilidade

Se Engels mergulhou nas profundezas da teoria da evolução de Darwin para extrair dela uma análise da co-evolução das espécies, Marx voltou-se para o estudo da obra do agroquímico alemão Justus von Liebig, para mergulhar nas profundezas do problema da terra e seu desenvolvimento sustentável.

Na década de 1860, quando Marx escreveu “O Capital”, se convenceu da insustentabilidade da agricultura capitalista por causa de dois fatos: o sentido mais geral de crise da agricultura europeia e norte-americanas ligada à diminuição da fertilidade natural do solo, e uma mudança na obra do próprio Liebig a partir de 1850 com uma forte crítica ecológica ao desenvolvimento capitalista. Justamente nesse período (1830-1880) é quando se dá o que muitos historiadores da agricultura considerada como a segunda revolução agrícola, um subproduto da grande Revolução industrial britânica do século, caracterizada pelo crescimento da indústria de fertilizantes e do desenvolvimento da química dos solos. Embora no primeiro momento, tanto Marx como Engels, incluindo o próprio Liebig, relacionaram esta revolução tecnológica na agricultura concluindo que, no futuro próximo, o progresso agrícola poderia avançar mais que a própria indústria, essa avaliação otimista seria deixada de lado na década de 60, por uma compreensão muito mais sofisticada de degradação ecológica na agricultura.

É significativo que Marx afirmou Engels, em um ano antes da publicação de “O Capital”, que o desenvolvimento da crítica da renda da terra, ele teve de lidar com "a nova química agrícola que está desenvolvida na Alemanha, em particular por Liebig e Schönbein, que tem mais importância a esta questão do que todos os economistas". Na verdade, todas essas teorias iniciais da economia clássica, não acrescentavam a compreensão científica da composição do solo, algo que se manifestava com maior agudez em Ricardo e Malthus. Isto se devia, fundamentalmente, ao estado em que, até então, era a química agrícola, que gerava a real destruição da terra, o que era desconhecido para qualquer um dos economistas que tinha escrito sobre a renda diferencial. Marx, que vinha estudando a obra de Liebig, desde a década de 1850, ficou impressionado com a introdução crítica da edição de 1862 de “Química Orgânica em sua aplicação à agricultura e fisiologia”, integrando dialeticamente com sua própria crítica a economia política, que já havia esboçado nos “Grundrisse” 1858.

Em “Química orgânica” (1840), Liebig havia diagnosticado o problema se dava pelo esgotamento de nitrogênio, fósforo e potássio, nutrientes essenciais do solo que iam parar, cada vez mais, nas cidades e que não só não eram restaurados para terra, mas também contribuíam para a poluição urbana. O primeiro era parcialmente resultado da implementação do sistema de fertilizantes sintéticos, mas isso levou ao desenvolvimento, por sua vez, da dependência quase total dos países do uso desses fertilizantes. Para a introdução de 1962 de “Química Orgânica”, Liebig mostra uma mudança através de uma crítica terrível da agricultura capitalista britânica ao afirmar que "se não conseguirmos que os agricultores tenham consciência das condições de trabalho nas quais produzem, e não lhe damos os meios necessários para o aumento de sua produção, as guerras, a emigração, a fome e as epidemias, necessariamente, criarão as condições para um novo equilíbrio que irá prejudicar o bem-estar de todos e, eventualmente, levar à ruína da agricultura".

A conclusão fundamental de Marx sobre estas questões podem ser resumidas da seguinte forma: a produção capitalista não só destrói a saúde física dos trabalhadores urbanos e vida espiritual dos trabalhadores rurais, além disso, "perturbam a circulação de material entre o homem e a terra, e condição natural eterna para a fertilidade duradoura do solo, tornando-se cada vez mais difícil a restituição dos constituintes que são removidos e que são utilizados na forma de alimentos, roupas, etc". É elementar o conceito que expõe o metabolismo entre sociedade a natureza (que já estava abordado em “Grundrisse”), especificamente ao abordar a relação "entre o homem e a terra." Para Marx, a relação unilateral e antagônica entre cidade e campo, baseado no desenvolvimento do comércio de longa distância, levando a perda irreparável dos nutrientes do solo por parte da indústria capitalista, "minando, ao mesmo tempo, as fontes de toda a riqueza: a terra eo trabalhador”. Para Marx, a cada progresso da agricultura capitalista, cada progresso na arte de aumentar a sua fertilidade por um tempo "é um progresso em arruinar as fontes duráveis ​​de fertilidade”.

Marx disse que é "uma divisão irreparável no metabolismo social, metabolismo prescrito pelas leis naturais da própria vida”. Os dois elementos específicos em que Marx se baseia a esta definição são, por um lado, o inevitável desenvolvimento industrial entre o campo e a cidade, em que esta última não só priva o primeiro de seus nutrientes, mas também fornece pelo comércio o referido esgotamento. Por outro lado, reduz a população rural "a um mínimo sempre menor e frente a uma população industrial amontoada nas grandes cidades”, projetando, socialmente, a fratura metabólica da terra.

Essa discussão, longe de desaparecer, se mantem no marxismo da Segunda Internacional. Figuras como August Bebel, Karl Kausky, Vladimir Lenin e Rosa Luxemburgo incorporaram estas questões às suas preocupações. Isso merece outra discussão.




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