ENTREVISTA/MARIA LÚCIA FATTORELLI

A dívida pública fraudulenta está roubando nosso futuro! [Entrevista com Maria Lúcia Fattorelli]

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 29 de junho| Edição do dia

Esquerda Diário – Por que os gregos do Syriza depois de criarem uma expectativa nacional pela solução do problema da dívida pública, se mostraram impotentes com relação a ela?

M. L. Fattorelli – Houve uma grande contradição em determinação momento. O Syriza foi eleito com toda esperança do povo grego, com toda a promessa do Syriza, do Tsipras de toda a equipe, através de uma coalizão de vários partidos, de várias forças políticas, para chegarem a eleger Tsipras primeiro ministro e ir ao poder. Eles se elegeram com a promessa de rever aquele modelo, de tirar a Grécia daquela camisa de força, da troika [FMI, banco central europeu e comissão europeia]. Toda aquela promessa e, de início, quando assumiu o governo, em abril começou a participar de varias reuniões. Em um determinado momento, nos primeiros meses, em abril, a presidente do parlamento grego convocou uma auditoria da dívida, institucional, a partir do parlamento, e nós tínhamos muito pouco tempo, apenas sete semanas, pra analisar toda aquela dívida de 2010 até 2015, que era a dívida da troika.

Nós nos empenhamos e conseguimos desvendar todo o mecanismo financeiro da dívida; essa parafernália é igual em todo lugar, é um esquema, isto é, são mecanismos financeiros que geram dívida. Nós conseguimos identificar os mecanismos que fizeram isso lá. Mas infelizmente o Tsipras não abraçou esse relatório. Na véspera da pressão para que a Grécia assinasse o terceiro acordo [com a Alemanha] ele convocou um referendo popular. E ele disse que se o povo votasse sim, pra a Grécia assinar aquele acordo, ele renunciava. E toda a mídia internacional todo o sistema financeiro estava fazendo uma pressão brutal para que o povo dissesse sim, inclusive fechando os bancos deixando o povo sacar nada mais que 60 euros, aquela coisa toda. Mas graças ao trabalho revelando aquele esquema, mais de 60% do povo votou não. O que o Tsipras fez? Assinou o acordo. O povo disse não e ele renunciou. Em um regime parlamentar se o dirigente renuncia se dissolve o parlamento. O parlamento foi dissolvido. Ele convocou novas eleições em um prazo curtíssimo e em uma eleição totalmente esvaziada acabou sendo reeleito. Em uma eleição totalmente esvaziada; e segue fazendo o projeto da troika. A Grécia está quebradíssima, piorou e aprofundou muito mais ainda o problema anterior.

Recentemente houve uma mega-mobilização de milhões. As pessoas perderam todo o patrimônio, salário, aposentadoria muitos perderam o emprego.
No nosso caso, o Brasil está nessa crise aí, mas não pode ser comparado com ao Grécia. Ela não chega a ser autossuficiente em alimentos, em energia, em uma série de coisas. Em uma certa forma ela foi forçada a se dobrar. Já o Brasil se dobra se quiser.

Esquerda Diário – Na sua opinião, por que a dívida pública é uma questão esquecida na grande política, inclusive pelos que lutam por “diretas já”, por toda a grande política?

M. L. Fattorelli – Alguns por falta de conhecimento, porque não se aprofundam porque infelizmente esse esquema da dívida é colocado de uma forma aparentemente complicada, sofisticada que espanta muita gente. Nós tentamos no âmbito da Auditoria Cidadã mostrar isso, desmistificar isso e mostrar essa questão de forma escancarada. Mas o sistema da dívida é o principal alimento do poder financeiro mundial. O poder financeiro domina todo o poder político do mundo. Porque ele financia as campanhas dos executivos e dos legislativos dos diversos países. Então nós não estamos falando de uma simples estratégia local.

Nós estamos falando de um poder financeiro mundial que domina todo o mundo. Aquele estudo feito na Suíça sobre o poder corporativo mundial mostrou que a cúpula do setor financeiro mundial é que detém o poder e a propriedade das 43 mil maiores empresas do mundo em todas as análises. Eles dominam todo o poder financeiro e todo o poder econômico e todo o poder político. Dominam a grande mídia. Então entrar com isso aí não é uma luta pequena. O que eu acredito é na popularização e na compreensão dessa luta, principalmente por parte da juventude. Isso está provocando um cenário de escassez insano aqui no Brasil e totalmente inaceitável. Temos que sair urgentemente desse cenário de escassez e quem vai fazer isso é a juventude.

É ela que tem obrigação de reivindicar o futuro e reivindicar o país rico e abundante onde nasceram. E esse modelo, essa política monetária insana e isso tudo que estão aplicando no Brasil é que está nos tirando dessa nossa realidade de abundância e nos jogando nesse cenário de escassez, que só vai se aprofundando cada vez mais.

E nós estamos perdendo nosso país. Já autorizaram a emitir a nossa moeda no exterior. Já estão autorizando a venda irrestrita de tudo, de empresas e terras para estrangeiros. Tudo. As empresas já foram privatizadas há muito tempo e as que restam estão sendo privatizadas todo o tempo: acabou de ser privatizado o satélite da Telebrás, telecomunicações estão em mãos privadas, a água, petróleo. Que é que é isso? Tudo isso em nome de um ajuste fiscal, para pagar uma dívida que nunca passou por uma auditoria, que nós temos comprovado sabemos que é uma fraude, que decorre de mecanismos financeiros abusivos, como essa política monetária que gera dívidas para remunerar sobras de caixa de bancos como os prejuízos dos swap cambial ilegal. E juros abusivos que não têm nenhuma justificativa técnica, política, jurídica ou econômica. Então, pera aí, até quando? Vamos esperar perder tudo? Já está na hora dessa juventude acordar e estudar isso e reivindicar o nosso país.

Esquerda Diário – Na sua opinião, a política dos governos lulo-petistas nos 4 mandatos de que forma encararam esse problema?

M. L. Fattorelli - Super-mal. Não fizeram nada em relação à dívida. Aliás, fizeram coisas graves, criaram uma ilusão quando pagaram a dívida para o FMI, ilusão de que teriam resolvido o problema da dívida Isso foi infame.

Isso tirou o foco da atenção para o problema da dívida. E a dívida com o FMI era apenas uma migalha do bolo da dívida. E para pagar o FMI uma dívida que custava 4% de juros ao ano, na época foram emitidos títulos da dívida interna a 19% ao ano e mais: o dólar estava caindo. Nós trocamos uma dívida em uma moeda que estava virando um mico. Porque o dólar chegou no Brasil a 1,50 e nós pagamos quando ainda estava a 2,70 e emitimos em real que estava valorizando então foi um dano financeiro em todos os sentidos, em termos de fluxo porque o juros era mais alto; em termos de câmbio porque trocamos uma moeda caindo por uma que estava valorizando; e ainda criamos um atraso no debate porque eles colocavam que tinham resolvido o problema da dívida.

Na época realizamos vários seminários e as pessoas diziam “não fui lá não, para que discutir o problema da auditoria da dívida se Lula já pagou a dívida”. Foram muitos. Então isso foi um tremendo dano contra a possibilidade de luta e não quiseram enfrentar o tema, continuaram praticando juros abusivos, a Dilma em um determinado momento quis diminuir os juros, ela diminuiu a Selic, mas enquanto que a Selic estava 7,25, os títulos da dívida estavam sendo vendidos a mais de 10% de juros.

Então o mercado não acatou isso. Essa queda da Selic serviu para outras coisas, mas não serviu para diminuir os ganhos dos títulos da dívida, e no final ela vetou; conseguimos aprovar a inserção da auditoria no plano plurianual, ou seja, não era nem uma convocação ainda, propriamente dita de uma comissão de auditoria. Era a inserção no plano 2016/2019, e ela vetou. Depois nós conseguimos incluir na LDO, Temer também vetou.

Por quê? Porque na hora de fazer uma auditoria pra valer, desmonta tudo.
Escancara essa vergonha, essa insanidade que está acontecendo no Brasil e em várias partes do mundo.

***




Tópicos relacionados

Capitalismo   /    Dívida pública   /    Economia nacional

Comentários

Comentar