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MULHERES NEGRAS 2016

A disparidade salarial que tem gênero e cor

Iaci Maria

Belo Horizonte

segunda-feira 25 de julho| Edição do dia

Ainda hoje paira sobre a sociedade o mito da democracia racial, uma ideologia criada para passar a ideia que não existe racismo no Brasil devido à alta miscigenação. Entre tantos argumentos que se pode desenvolver para derrubar esse mito, existe um bastante categórico que expressa o racismo estrutural: a diferenciação salarial entre brancos e negros, que coloca as mulheres negras nos patamares mais baixos. Isso também é apenas mais um exemplo de como não há capitalismo sem racismo.

Como se desenvolve aqui, o racismo surge junto com o capitalismo, por uma necessidade desse sistema, durante o processo de acumulação de capital logo no início da formação da burguesia. Cria-se a ideia da inferioridade do povo negro, para assim poder escravizá-los. Após alguns séculos, a escravidão teve seu fim oficialmente e a ideia de inferioridade deixou de ser difundida como real, mas ela ainda existe e seus efeitos se mantém. Na prática, ainda são as negras e negros, herdeiras e herdeiros de escravizados, que ocupam os postos de trabalho mais precários, com os salários mais baixos.

Além disso, existe uma diferenciação salarial entre o que recebe uma negra e o que recebe uma branca, que mostra como ainda segue forte o racismo, se sustentando na ideia de inferioridade, mas com o nítido objetivo de aumentar a mais-valia roubada pelo patrão, ou seja, rebaixa salários com base a uma ideologia escravocrata para assim lucrar mais. Segundo o IBGE, em 2015 os trabalhadores negros ganharam, em média, 59% do rendimento dos brancos. Se comparamos o salário de uma mulher negra com um homem branco, a mulher recebe cerca de 39% do salário do homem.

Essa disparidade salarial é maior quando se trata de graduados, a diferença de salário para exercer uma mesma função é maior quando o negro possui mais qualificação, segundo divulgou o Ministério do Trabalho em 2014. Isso mostra como mesmo políticas como as cotas raciais nas universidades são urgentes, e ainda assim essas medidas não são suficientes para um combate consequente ao racismo. Mesmo com mais jovens negros tendo acesso às salas de aula das universidades públicas, a mesma formação de qualidade ainda não garante o mesmo salário no final da corrida por um emprego digno.

Assim como o direito às cotas, o direito à equiparação salarial, ou seja, mesmo salário para um mesmo trabalho, é apenas um direito dos mais básicos, a garantia de um salário digno para garantir uma vida digna. Principalmente quando se trata de mulheres negras, que já sofrem com os piores empregos e os mais baixos salários.
Esses elementos mostram como o capitalismo se utiliza do racismo, que só pode ser superado em luta pelo fim desse sistema. O racismo serve não apenas para garantir maior lucro aos capitalistas, mas também para dividir a classe trabalhadora, pois os mais baixos salários das negras e negros servem também para nivelar por baixo todos os salários, ou seja, as negras e negros são os que mais sofrem, mas isso representa também um ataque às trabalhadoras e trabalhadores brancos, pois busca rebaixar também seus salários.

Isso tudo acaba fragmentando e enfraquecendo a classe, que deveria se unificar na luta por uma vida digna, essa que o capitalismo e o racismo tanto tentam impedir que tenhamos. A necessidade de unificação das fileiras operárias é fundamental para essa luta por uma vida digna, o que passa por lutar por salários dignos para todos. Portanto, a pauta de equiparação salarial entre negros e brancos, e também entre homens e mulheres, deve ser pauta urgente não apenas da luta do povo negro, mas de toda classe trabalhadora pelos salários dignos e contra o trabalho precário. As negras e negros protagonizarão essa luta, em defesa de seus empregos, de igual salário para igual trabalho, unificando trabalhadoras e trabalhadores negros e brancos, para colocar fim a super-exploração racista e acabar com todas as formas de opressão e exploração.




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