Mundo Operário

GREVE GERAL

A diferença entre decretar a greve geral e preparar a greve geral

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 19 de junho| Edição do dia

As marchas e ocupações de praças e ruas são armas importantes dos trabalhadores e estudantes em sua luta contra a opressão capitalista e, seguramente, incomodam a burguesia e seus defensores.

No entanto, por si só, não são formas de luta efetivamente perigosas para o sistema e a burguesia sabe disso; seu maior pavor, como classe, é a greve geral, são as ocupações de local de trabalho e, claro, as marchas que preparem e antecipem a greve geral e os métodos de luta mais revolucionários da classe trabalhadora.

No entanto, mesmo a greve geral, e mesmo uma greve geral que alcance núcleos duros da classe trabalhadora, para se converter em experiência e força real da classe operária, além de declarada, deve ser preparada da forma mais profunda, envolvendo milhares ativamente – como uma frente única operária - e com objetivos que vão transcendendo a greve em si mesma, para além da sua dimensão, digamos, salarial. Uma greve geral sem preparação pela base [e, claro, sem direção política] pode chegar a acontecer e, no entanto, não permitir o acúmulo de forças orgânicas e até trazer elementos de desmoralização a exemplo das várias greves gerais na Grécia de anos atrás.

Em outras palavras, uma das chaves essenciais da greve geral encontra-se na preparação. O que inclui a iniciativa e o controle político dos delegados eleitos em cada local de trabalho, a atuação cotidiana enquanto dure a greve, sua coordenação por áreas, zonas, bairros. Assim como, pela via inversa, a greve burocrática ou burocratizada torna-se um problema, ao bloquear a ação crucial da classe operária como sujeito político.
Em primeiro lugar porque ao se falar em greve geral, não estamos tratando de uma ação estrita da direção sindical, seja ela qual for e sim de uma mobilização de centenas de milhares ou até milhões. Trata-se de uma ação coletiva que transcende qualquer aparato e que, se não incorpora a criatividade, empenho e vontade de luta de milhares e milhares, pode não ganhar substância, força e politização na prática, isto é, a experiência de politização em torno da frente única operária, de todas as correntes golpeando juntos ao governo, ao sistema. E essa prática só tem uma maneira de ser feita: pela base. Comitês de base, sindicalismo de base, comandos de greve pela base. E direção política.

Em segundo lugar, porque até o operário menos conscientizado sabe que sua classe não é homogênea, e que há níveis e níveis de consciência e de combatividade e que em toda categoria, em toda empresa, existem os companheiros/as de maior abnegação e combatividade, de mais iniciativa e maior capacidade de aglutinar e dirigir ações coletivas. É o que se chama de vanguarda da classe. Ora, se temos uma greve “vertical”, chamada e dirigida pelas cúpulas sindicais, de que forma aqueles companheiros/as de maior talento no ativismo, na propaganda, na dedicação ao combate, vão poder influenciar e arrastar outros setores e camadas da própria classe?

Como articular e fundir níveis diferentes de consciência e disposição de luta no seio da classe? Como arrastar mais e mais camadas da classe e também dos pobres urbanos?
A resposta é novamente a mesma: pela base. Através de comitês de base. É pelo funcionamento e ação de tais comitês que toda a heterogeneidade da nossa classe encontra o ambiente para ampla iniciativa, imaginação, criatividade e ação comum, ação orgânica comum. E unidade na luta.

Somente um pensamento burocrático pode imaginar que uma greve, para ser de fato forte, para golpear a classe inimiga, pode ser decretada e “preparada” nas alturas, pelos blogs sindicais, por reuniões fechadas ou sem a ação prévia de milhares e milhares através dos comitês de greve.

De que outra forma se vai desenvolver a capacidade da classe trabalhadora como sujeito político?
De que outra forma se pode articular o precarizado e o não-precarizado, trabalhadores e estudantes? Uma categoria com a outra? De que outra forma se vai desenvolver o exercício e o embrião da democracia operária? E a efetiva solidariedade de classe, com seus fundos de greve, as alianças concretas entre os trabalhadores e os bairros, corpos de autodefesa contra a polícia: existe melhor forma de discussão e efetivação de tais iniciativas necessárias a não ser pela base? Ou repetindo: de que forma os elementos mais avançados da classe poderão influir sobre os demais? E que ambiente melhor existe para a mais plural e democrática discussão sobre as perspectivas políticas e o sentido programático da greve do que tais comitês democráticos?

Em uma só palavra: a greve não se decreta, a greve se prepara.
Ou, passando a palavra para a reflexão de dois companheiros [Juan Chingo e Emmanuel Bardot] que analisavam as greves francesas de 2016 e quando chamam a atenção para o fato de que a prioridade da greve é sua preparação adequada. Eles começam por definir a preparação da greve como a preocupação em “chamar firme e explicitamente a constituir comitês nas empresas ou estabelecimentos a nível local, com a finalidade de que sirvam aos setores mais determinados [da classe] a encontrar os meios concretos de convencer as massas a unirem-se à luta”.

Seu argumento: “As praças ocupadas incomodam profundamente e evidentemente aos patrões, ao governo e aos reacionários de toda coloração: mas eles sabem que essa forma de mobilização por si só não é realmente perigosa para eles. Ao contrário, o que eles temem mais profundamente é que tais mobilizações possam servir de caixa de ressonância, de base de apoio, de sustentação da solidariedade com as assembleias interprofissionais, na construção da greve geral. É seu medo é ainda mais profundo quando percebem que tal processo implicaria em uma convergência sólida da juventude e dos trabalhadores, a qual já demonstrou, no passado, todo seu potencial explosivo. Fazer da greve geral um mero slogan não ajudará a construí-la: sua preparação vai exigir uma intensa determinação para superar os obstáculos existentes, e nada está construído de antemão”.




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