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SEMANÁRIO

A dez anos da Primavera Árabe: revolução, contrarrevolução e revoltas no Oriente Médio e norte da África

Salvador Soler

Omar Floyd

Ilustração: Mata Ciccolella

A dez anos da Primavera Árabe: revolução, contrarrevolução e revoltas no Oriente Médio e norte da África

Salvador Soler

Omar Floyd

Neste artigo elaboramos uma análise política e histórica da Primavera Árabe, os atores que participaram e sua projeção sobre a atualidade, o papel do imperialismo e suas estratégias de contrarrevolução – que implicam desvios, golpes militares e repressões violentas que derivam em guerras civis –, com o objetivo de contribuir à construção de uma estratégia operária e revolucionária.

A Primavera Árabe deve seu nome a uma definição feita a princípio pela imprensa, mais adiante também pela maioria dos analistas, que estabeleceram uma analogia rápida mas eficaz com um dos processos revolucionários mais célebres da história moderna: a Primavera dos povos de 1848. Iniciada em Paris desse ano, se espalhou com uma rapidez inédita para toda a França e para as principais cidades da Europa, como Berlim, Viena e Budapeste, incluindo as regiões periféricas da Polônia, Nápoles e Sicília.

As forças motrizes

A Primavera árabe não foi um raio no céu sereno. O projeto por um Novo Século Americano dos neoconservadores norte-americanos descrevia os habitantes do Oriente Médio como “bárbaros” incapazes de alcançar a “liberdade” por sua conta, justificando a necessidade de “exportar” para ali os sistemas políticos ocidentais e “educar” a sociedade no respeito a estes valores. O atentado de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas foi a desculpa perfeita que Bush Jr. necessitava para exportar a “pax americana”, colocando as botas (mais uma vez) no Oriente Médio. Com a Operação “Endurance Freedom” invadiu o Afeganistão e chegou no Iraque com o suposto objetivo de fomentar a “democracia” e combater o “terrorismo” na região. O fracasso destas guerras desestruturou o tecido social desses países, alterando o equilíbrio interno e geopolítico. Por um lado, impulsionando as potências regionais como Irã e Turquia, ou próximas como a Rússia, a cumprirem um papel cada vez mais de protagonistas. Por outro lado, despertaram antigas disputas étnico-religiosas que criaram as condições, por um nível de decomposição e pobreza, para uma explosão social sem precedentes que se estende por todo o Oriente Médio.

Em 2003 houve manifestações, no Iraque e outros países da região, contra a invasão dos EUA. A partir daí, no Egito e na Síria realizaram aberturas políticas para aliviar o descontentamento que se alastrava pelas políticas neoliberais, cujo resultado eleitoral obrigou a operar fraudulentamente e aumentar a repressão à imprensa e às manifestações. No Líbano, se deu a chamada Revolução dos Cedros, que levou ao assassinato do primeiro ministro Hariri em 2006, que expulsou o exército sírio que ocupava o país desde os anos 80. Nesse mesmo ano, o povo libanês rechaçou a invasão de Israel no sul do país, onde se fez forte o Hezbollah.

O furacão de mobilizações no final de 2010 superou por muito esses processos, gerou fissuras ainda mais profundas na ordem geopolítica, impregnou nas massas da região uma nova identidade política e métodos de luta que inspiraram os jovens, mulheres e trabalhadores de todo o mundo.

O início das “Revoltas do Pão”

A região contém uma grande heterogeneidade social, política, étnica, religiosa e econômica, mas existem similaridades e humilhação compartilhadas: os países do norte da África passaram de ser civilizações agrícolas milenares a importadores de alimentos (Egito é o principal importador de trigo do mundo) em poucas décadas. Síria, Líbano, e Iraque também experimentaram uma aguda decadência rural provocada por mudanças climáticas, métodos de produção obsoletos e um desprezo dos governos pela atividade agrícola.

As tendências ao aumento do preço dos alimentos – acentuadas após a crise de 2008 – pela desertificação e o abandono de áreas rurais, provocaram em toda área uma situação desesperadora a nível hídrico e alimentar. Na Tunísia e no Egito, se gestaram nestes anos as chamadas “Revoltas do Pão”, que deram lugar a processos de organização sindical independente dos grandes sindicatos (vinculados estreitamente ao Estado). Estes organismos lideraram greves selvagens nos centros operários mais importantes, como Mahalla e Kubra no Egito – dirigida por mulheres – e na cidade mineira de Gafsa na Tunísia, onde as demandas fundamentais apontavam os baixos salários e o desemprego, que se registrava entre os mais agudos do planeta. As greves conseguiram nacionalizar as demandas que adquiriram caráter político, como no caso do Egito, onde os cantos apontavam a Mubarak. Embora os movimentos não se desenvolveram, deixaram plantadas as premissas fundamentais que adquiriram a dinâmica da Primavera Árabe. Como veremos a seguir.

Revolução e contrarrevolução na Primavera Árabe

A imolação do jovem trabalhador com diploma universitário Bouazizi na Tunísia, colocou uma data para a obsolescência da ditadura de Zine el-Abidine Ben Alí, dando início ao maior processo de luta de classes do século XXI. Em poucos meses todos os regimes do Oriente Médio e norte da África, desde o Marrocos até o Irã, viram nascer movimentos de protestos inéditos que impactaram seus alicerces. As “Repúblicas autoritárias” da Tunísia, Egito, Argélia, Líbia e Síria, nascidas dos processos de descolonização na década de 1950 e 1960, as monarquias da Arábia Saudita, Bahrein e Jordânia, ainda regidas por pactos tribais e vínculos tradicionais com o imperialismo; e fora do mundo árabe Turquia e a República Islâmica do Irã, enfrentaram sérias turbulências políticas e ensaiaram distintas estratégias para reprimir e desviar os processos de mobilização. Isto deu lugar a uma dinâmica complexa de revolução, contrarrevolução e guerra civil, em que colapsaram regimes, se reformaram, desenvolveram conflitos civis que disputaram interesses imperialistas, das potências regionais e atores locais dotados de autonomia.

Na Tunísia e no Egito as rebeliões populares derrotaram as ditaduras vitalícias de Mubarak e Ben Alí em 2011. Tratava-se de estudantes, classe trabalhadora e os pobres urbanos, que os derrubaram com as consignas políticas e métodos aprendidos durante as “Revoltas do Pão”. Abriu-se um período de “transição” onde se destacaram correntes políticas tradicionais, na Tunísia, o Ennahda (renascimento) e no Egito, a Irmandade Muçulmana. Estes partidos provêm do islã político moderado ligado à burguesia tradicionalista, seu programa estabelece a chegada ao poder através de um processo democrático eleitoral, combinando os princípios de organização social islâmicos com os do capitalismo e a modernidade. Proibidos pelas ditaduras, criaram redes de assistência econômica, educacional e social que os dotaram de prestígio que os possibilitou ser uma direção viável para o processo político.

No Egito as eleições tuteladas pelo exército e o imperialismo entregaram o poder à Irmandade Muçulmana. Após dois anos de governo, o presidente Mohamed Morsi tentou aumentar suas atribuições de poder e islamizar o país [1]. O povo rechaçou sua iniciativa com enormes manifestações retomando a Praça Tahrir e greves gerais. Mas frente à ausência de um projeto alternativo que dê respostas às demandas do povo trabalhador estabelecendo uma ruptura com o imperialismo e a burguesia local, o exército encontrou a oportunidade para dar um golpe de Estado em 2013. O ditador Al Sisi sufocou as “ilusões democráticas” dos manifestantes com uma matança de 800 pessoas em um dia, recorde no século XXI. Seu regime se sustenta graças à perseguição, prisão e tortura de opositores, expulsão de jornalistas e ativistas, censura à mídia e controle social imposto por um estado de emergência permanente.

Na Tunísia foi convocada uma Assembleia Constituinte em resposta às manifestações. Ennahda buscava “islamizar o país”, e consegue conter centenas de milhares de jovens frustrados e desempregados. Construíram um governo de “unidade nacional” com os partidos laicos, até sua derrota eleitoral em 2014. No entanto, problemas estruturais do país como a pobreza e o desemprego se aprofundaram, as greves e manifestações contra o governo e seus planos ditados por um imperialismo explodem periodicamente e a crise permanece latente.

Na Síria, Líbia e Iêmen os processos de mobilização são abortados por longas guerras civis. O imperialismo interviu armando grupos alinhados ou inclusive de forma direta com a OTAN na Líbia. As potências regionais como Irã e Arábia Saudita – que veio afogando em sangue o levantamento no Bahrein – aproveitaram o vazio de poder em função de seu projeto hegemônico e se enfrentaram em uma “guerra fria”, combatendo através de aliados fora de seu território. O restante dos antigos exércitos, as tribos, as milícias islâmicas, os setores ligados à economia ilegal e às comunidades autônomas são os atores locais que fazem possível o controle territorial e o mantêm graças a um sistema de alianças que se alternam.

No Iêmen, após a queda de Saleh como produto das manifestações, começou uma guerra civil entre os partidários do governo do vice-presidente Hadi, apoiados pela Arábia Saudita, e os insurgentes Houthies, que contam com o respaldo iraniano, alojados nas montanhas que rodeiam a capital Saná, hoje sob seu controle. Apesar dos milhões investidos na guerra e no bloqueio criminoso contra a população civil, a família Saud não conseguiu impôr um regime marionete de Riad nem evitar o surgimento (com apoio dos Emirados Árabes) de um exército autonomista em Adén e filiais iemenitas do Estado Islâmico e Al Qaeda.

Na Líbia, a insurreição popular em Bengazi e Tripoli foi esmagada por Mahomar Gadafi, que nos anos 90 forjou sua amizade com o Ocidente. Esta repressão criminosa empurrou milhões aos braços do Conselho Nacional de Transição – movimentos armado financiado pela OTAN – e quebrou os acordos tribais em que se sustentava o regime. O linchamento de Gadafi conduziu ao colapso do exército e à fragmentação da Líbia em regiões controladas por tribos, mercenários e jihadistas com alianças internacionais próprias. Depois de uma década de conflito, as potências apoiam diferentes bandos e os grupos ligado ao tráfico de pessoas e ao contrabando de armas operam com total liberdade. Desde Tripoli a CNT convocou eleições, tuteladas pela OTAN, mas não conseguiu fazer valer sua autoridade além da capital. O general Haftar, com o apoio russo, capturou a região oriental e sitiou a capital por vários meses, mas depois de duros combates contra milícias financiadas pela Turquia, a situação está em um ponto morto.

O presidente sírio, Bashar Al Assad – um nacionalista árabe pertencente à minoria alawita – que depois de ser encurralado pelos insurgentes os reprimiu com ferocidade, e com a vital colaboração do Irã e da Rússia se manteve no poder travando uma guerra civil contra os jihadistas e os “rebeldes” aliados às potências ocidentais. Apesar das centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados e a emergência de atores reacionários, como o Estado Islâmico, a crise econômica fez ressurgir as mobilizações em Damasco, colocando outra vez o regime da família Assad entre a espada e a parede.

Como vemos as mobilizações de 2011 foram esmagadas ou desviadas com diversas estratégias. As reformas “democráticas” expropriaram o discurso dos manifestantes e não resolveram as causas estruturais do movimento, permitindo aos setores de poder local reorganizarem e estabelecerem novos laços com o imperialismo. As guerras civis abriram cenários mais complexos, onde a emergência das milícias jihadistas – ligadas ao colapso da estrutura de poder e interesses regionais – deu legitimidade às ditaduras para usarem a máscara de “luta contra o terrorismo” e responderem de forma reacionária às demandas populares.

A incapacidade das massas de construirem uma organização própria, independente das direções burguesas locais – que jamais se enfrentaram diretamente com o imperialismo – foi uma debilidade que permitiu às classes dominantes restabelecerem sua autoridade a um alto custo, ainda que sua hegemonia fosse débil no Oriente Médio após o furacão de 2011. No entanto, a Primavera Árabe inaugurou símbolos e tradições de luta que permanecem latentes e nesta crise mundial empurram com todas as suas forças a uma nova explosão.

Ressurge a luta no norte da África

Na Argélia e no Sudão estouraram mobilizações desde o início de 2019. Trata-se de países com governos de partido único, apoiados em círculos fechados de poder – integrados pelo exército, famílias e amigos – que controlam os setores estratégicos da economia. Ambos atravessaram longas guerras civis em décadas anteriores e permaneceram relativamente estáveis durante a onda de 2011.

A crise da indústria petroleira empurrou Bouteflika na Argélia a realizar enormes cortes fiscais nos salários e subsídios, gerando as condições para um levantamento. O plano do incapacitado “Presidente de papel” de apresentar-se pela quinta vez consecutiva nas eleições 2019 – depois de 20 anos no poder – foi a “faísca” que incendiou a planície e gerou manifestações de milhões de pessoas. Nas ruas a juventude, os trabalhadores, profissionais e organizações de mulheres se centraram ao redor da “Hirak” (movimento em árabe) onde se gestaram comitês de estudantes com uma destacada participação feminina.

Desde março os trabalhadores da petroleira Sonatrach – das maiores do mundo – começaram uma série de greves de fome e paralisações regionais. Deram apoio ao movimento para obrigar a renúncia de Bouteflika, apesar das ameaças da patronal proibindo as greves e a burocracia da UGTA (União Geral dos Trabalhadores Argelinos) ligada à FLN (Frente de Libertação Nacional). Em 2 de abril, o exército toma o poder iniciando longos meses de negociação que apostavam no desgaste da Hirak até conseguir as eleições sob sua tutela, nas quais seu candidato Abdelmadjid Tebboune venceu, apesar da tentativa de boicote dos manifestantes. Embora careça de um programa concreto e uma direção política clara, a Hirak continuou de pé inclusive depois que a crise sanitária impôs a quarentena, conseguindo permanecer nas ruas em uma demonstração de que o conflito segue vigente.

No Sudão, o arrocho imposto pelos planos do FMI obrigou o governo do brigadeiro Omar al Bashir a cortar os subsídios à farinha. A resposta das massas foram novas “revoltas do pão”. Em 11 de abril de 2019, quando os manifestantes ocupavam a praça central de Jartum exigindo a queda do regime, o exército obrigou al-Bashir a abandonar o poder depois de 30 anos. Desde sua independência, o Sudão atravessa guerras civis por controle dos recursos naturais, principalmente o petróleo localizado no Sul – que se constituiu como país independente em 2011 –, onde afloram tensões religiosas, étnicas e tribais de longa data. Desde a tomada da praça de Jartum, emergiu uma organização que aglomera partidos progressistas liberais, entre eles o Partido Comunista [2]. O novo no processo em curso é a aparente superação das diferenças étnico-religiosas e de gênero, já que nas organizações políticas e sindicatos surgidos da luta, as mulheres adquiriram um lugar central – com referências de fama internacional como Alaa Salah – e as congregações religiosas se juntaram aos manifestantes sem desatar violência sectária.

As potências regionais, como Arábia Saudita, intervieram em favor do exército, brindando empréstimos e assessoria militar, com o objetivo de sufocar o processo, sem conseguir evitar que as manifestações se estendessem por todo país. A formação do Conselho de Transição, da qual participa a Aliança pela Liberdade e Mudança – ligada ao processo de mobilização – aponta para dar um caráter institucional ao movimento, pactuando a realização de eleições em dois anos. Resta ver se conseguirá conter as reivindicações sociais colocadas durante a explosão social.

Iraque e Líbano

Estes países contêm uma heterogeneidade de etnias, nações e confissões religiosas, expressadas em uma sociedade segmentada em redes de assistência, vinculadas a interesses locais e internacionais, que administram a economia e o território. Seu sistema político está organizado em função de critérios sectários, que no Líbano foram consagrados depois dos acordos de Taif ao finalizar a guerra civil (1975-1991) enquanto que no Iraque foram impostos em 2005, durante a invasão norte-americana e com a colaboração dos dirigentes curdos e xiitas, dando origem a agudos conflitos com os setores excluídos do sistema político. Também ambos contam com uma população majoritariamente juvenil, afetada pelo desemprego, culturalmente secular e muito crítica às elites políticas, econômicas e religiosas conservadoras.

As sucessivas guerras internacionais e civis no Iraque, incluindo a atual com o surgimento do Estado Islâmico – que ainda permanece ativo – tem arrastado milhões de pessoas à marginalidade. Segundo o FMI, 40% dos jovens estão desempregados e o emprego precário domina. Em outubro de 2019, depois de um protesto em Bagdá contra a expulsão de um popular comandante da luta contra o Estado Islâmico, o governo reprimiu usando milícias paraestatais e o exército. Os manifestantes foram perseguidos até suas casas e estas destruídas, com mulheres e filhos mortos como resultado. Desde então nenhum esforço do governo e das forças reacionários para tirar das ruas a juventude enfurecida foi o suficiente.

Esta “juventude sem líderes”, que deixou centenas de mortos nas ruas, combateu o regime de conjunto e seu sistema de governo etno-sectário, chamado “Muhasasa”, sem deixar de lado as demandas estruturais: trabalho e acesso aos serviços básicos. Em seu centro de organização, como a praça Tahrir (Independência em árabe), levantaram acampamentos para descanso e alimentação popular. Ali vários sindicatos de professores deram aulas públicas, os médicos e enfermeiros deram assistências aos manifestantes feridos, onde são decisivas as agrupações de mulheres. Os trabalhadores da Shell e Total – nos poços de petróleo de Bassora – foram à greve e os Tuk Tuk são considerados heróis pela sua função na assistência aos feridos nas manifestações.

Uma das demandas mais sentidas pelos manifestantes foi a expulsão das tropas iranianas do país e a denúncia dos grupos xiitas que atuaram como forças paramilitares nos protestos. As ações contra as sedes diplomáticas e a presença do exército norte-americano existiram, mas foram hegemonizadas pelos partidos e milícias xiitas, próximas a Teerã e hostis às mobilizações. A debilidade do posicionamento contra o imperialismo, que controla áreas importantes da economia e das finanças pode ser visto como um limite principal de um processo que não parou com a renúncia do primeiro ministro Adil Abdul-Mahdi nem com a crise sanitária.

O processo no Líbano é similar, as manifestações estouraram a partir de um imposto ridículo nas chamadas de Whatsapp e Skype. Se organizaram na Praça dos Mártires em Beirut cantando “a gente quer a queda do regime” (al- sha’ab yurid isgat al-nizam), e “todos eles significam todos” (Kellon ya’ani kellon). Este último cântico faz referência à particularidade do sectarismo libanês, apontando contra os líderes de todos os setores político-religiosos que ao final da Guerra Civil em 1990 se apossaram e repartiram as alavancas da economia libanesa e fizeram negócios milionários ligados ao sistema bancário durante todo o neoliberalismo.

As primeiras manifestações tiveram foco na corrupção dos magnatas que controlam a economia e cuja riqueza está situada majoritariamente fora do país. Eles são considerados responsáveis pelo endividamento que chega a 150% do PIB, os planos de ajuste e a desvalorização da moeda. A renúncia do Primeiro Ministro Hariri, fiel representante dessa casta parasitária, foi a primeira grande conquista do processo. O partido Hezbollah, aliado do Irã, tratou de utilizar a seu favor o movimento, ampliando sua influência no governo. Mas as manifestações seguiram em frente e questionaram o líder do Hezbollah Hassan Nasralla. Em resposta aos xiitas, assim como no Iraque, trataram de impedir pela força as mobilizações, aumentando o ódio contra os políticos tradicionais e a influência persa no país.

O movimento no Líbano é histórico por seu caráter massivo e secular, de forma transversal atende as demandas comuns a população de todas as comunidades nacionais e religiosas; o governo fracassou em despertar o ódio sectário para dividi-los. A problemática dos refugiados, que somam quase dois milhões sobre a população de seis milhões contando os sírios, provenientes do último conflito e os palestinos que se deslocam há décadas, constituem talvez o elemento potencialmente mais explosivo do processo libanês, pelo nível de pobreza e de discriminação que esse segmento da população suporta, mas até agora suas demandas tomam um papel secundário nos posicionamentos dos manifestantes.

Conclusões

Os processos de mobilização e rebelião popular iniciados em 2018 têm mostrado a indignação de milhões que vivem na marginalidade, fruto de décadas de expropriação do capitalismo neoliberal e imperialista. Tanto em 2011 como agora, intervieram setores semelhantes a de outros movimentos de protestos mundial: os “perdedores relativos” da globalização que correspondem à juventude instruída e sem oportunidades, a classe média arruinada e os profissionais com baixos salários; os “perdedores absolutos” que incluem a população em situação de indigência e marginalidade, que após os conflitos bélicos conta com grandes focos de condições de insegurança alimentar (mortos por cólera e inanição no Iêmen) e a maior quantidade de refugiados e desempregados do mundo.

A profundidade das demandas, a combatividade da juventude marginalizada e sua espontaneidade, são elementos que se assemelham às características das revoltas populares que emergiram no mundo durante todo o ano de 2019. Sua sustentação no tempo é um elemento importante que mostra para os governos que será um problema central no próximo período. A classe trabalhadora teve uma participação importante como mencionamos com as greves políticas em Sonatrach e Sonelgaz na Argélia, nos poços de Bassora no Iraque e nos sindicatos sudaneses. Mas ao atuar como mais “um ator” das manifestações e assumir uma identidade “cidadã” sem disputar a hegemonia não conseguiu fazer pesar sua posição estratégica. Não houve uma direção que colocasse a ruptura com o imperialismo e os partidos islamistas e progressistas que propõem mudanças na distribuição da renda hidrocarburífera e reformas do sistema político, utópicas sem alterar o papel de sócio menor das potências ocidentais ou de países como Rússia e Irã, no caso da Síria.

Depois de anos de experiência “democrática” na Tunísia, continuam vigentes as estruturas econômicas e o aparato repressivo que manteve a ditadura de Ben Alí. As estratégias dos setores populares confrontam hoje com a débil República e os partidos do regime perdem legitimidade, ao mesmo tempo que a “política nas ruas” recupera prestígio no cenário regional. No entanto, a ausência de uma direção e objetivos anticapitalistas seguem sendo traços próprios do movimento.

A experiência de Rojava e Kobane na Síria, onde as milícias Curdas conseguiram uma virtual autodeterminação durante alguns anos graças a uma aliança tática com as tropas norte-americanas, foi uma das experiências mais democráticas e radicais de todo o Oriente Médio, por seu caráter secular e o papel das mulheres na organização militar se converteu nos principais inimigos do Estado Islâmico na região. Este passo na luta histórica por sua autodeterminação nacional foi esmagado em 2019 pela intervenção criminosa do exército turco no norte da Síria. Este ataque assassinou milhares de moradores e desalojou milhões, diante do olhar cúmplice do suposto aliado das YPG, Donald Trump, que em uma conversa telefônica negociou e entregou “de bandeja” os curdos a Erdogan.

Após a Primavera dos Povos, Marx e Engels colocavam em 1850, que se o povo trabalhador não participava organizado politicamente de maneira independente da burguesia, as bases fundamentais do capitalismo seguiriam de pé aumentando a miséria dos explorados. Guardadas as distâncias históricas, a Primavera Árabe demonstrou como o imperialismo e as burguesias locais farão enormes esforços para colocar saídas com rostos democráticos apresentando-os como triunfos diante das massas. Por esta razão, frente às revoltas que nasceram em 2019, a estratégia revolucionária deverá partir destas conclusões de independência do povo trabalhador para destruir os grilhões que os oprimem.

Bibliografia:

Kopel, Ezequiel. La disputa por el control de Medio Oriente, de la caída del Imperio Otomano al surgimiento del Estado Islámico. Eduvim. 2016.

Kopel, Ezequiel. "¿El tercer capítulo de la Primavera Árabe?", Nueva Sociedad. Março/Abril 2020.

Eduardo Molina, Simone Ishibashi. “A un año y medio de la "primavera árabe". Estrategia internacional n.º 28. 2012.

Hicham Ben Abdallah El Alaoui. “Las réplicas de la Primavera Árabe”, Le Monde Diplomatique. Março 2020.

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