Gênero e sexualidade

TRANSFEMINISMO

A defesa do transfeminismo

sexta-feira 29 de julho| Edição do dia

I. A autoanálise da vivência.

É cansativo ter que lutar o tempo todo com algo que está cravado em sua pele, e as pessoas insistem, sem se importar, em colocar outra lâmina na sua ferida.
Como se o prazer delas fossem te deixar completamente sem estruturas para continuar vivendo.

A cada dia que passa, levantar e olhar-se no espelho se torna uma tortura, porque sabemos que é só mais um dia em que teremos que engolir ofensas alheias e desconfortos pessoais para voltarmos vivos para casa.

O Brasil é o pais que mais mata as pessoas trans* no mundo e mesmo assim com maior índice de fetichização.

Sequer temos direitos básicos e viver com isso é mais que uma luta diária, é eterno.
Não temos um minuto de paz, porque somos a escória da escória da sociedade; Os marginais que os marginalizados não querem por perto.
Ninguém além de nós mesmos pode e quer nos ajudar.

II. A comunidade LGBT

É claro que existem pessoas do meio LGBT que apoiam a causa trans* e que lutam para que a transfobia seja combatida.

O Transfeminismo defende diretamente todas as pessoas marginalizadas da sociedade — mulheres, pessoas gordas, pessoas não-héteros, pessoas não-brancas, etc — e claro, pessoas não-cis.

Por outro lado, há uma vertente feminista que exclui completamente as pessoas não-cis, conhecido como TERF (Trans Exclusionary Radical Feminists, em tradução literal para “Feministas Radicais Trans-Excluentes”).

Além das TERF’s, outras pessoas denominadas minoria também podem ser Trans-Excluentes. Por exemplo: Uma mulher lésbica e cis, é transfóbica, se negar a possibilidade de atração por uma mulher trans* ou travesti, só pela falta de um genital como o seu.

Um homem gay e cis, é transfóbico, se negar a possibilidade de atração por um homem trans* ou qualquer transmasculinidade, só pela falta de um genital como o seu.

III. Parada LGBT — Lei de Identidade de Gênero

Em São Paulo, em 29 de maio, houve a 20ª Parada do Orgulho LGBT, que teve como tema o projeto de lei João W. Nery ou Lei de Identidade de Gênero, que propõe às pessoas trans* o reconhecimento do nome social e a mudança de gênero nos documentos oficiais, mesmo sem a cirurgia de resignação sexual.

João W. Nery, que dá nome ao projeto, é o primeiro homem transgênero brasileiro a fazer sua cirurgia de redesignação no Brasil, que até os dias de atuais é experimental.
Em Santo André, na grande SP, a 11ª Parada do Orgulho LGBT acontece nesse domingo, 31 de julho, e tem como tema: "Vote Certo! Vote contra a homofobia e a transfobia.".

Em vista que foram necessários 20 anos e 20 paradas para que a população trans* se sentisse completamente representada no evento em SP, fica a dúvida: quando essas pessoas também serão representadas em eventos menores, como o que acontece em Santo André, no domingo?
Nos anos anteriores houveram problemas com os organizadores da parada de SP que lutavam para que os temas tivessem ligação direta com a homofobia, onde podemos sentir a problemática da invisibilização das outras letras da sigla.

Isso pode ser visto também na fala de pessoas que não têm tanto envolvimento com a luta social ao dizerem "parada gay", deixando invisível o resto do movimento LGBT. O termo não contempla por completo a sigla, pois,além do LGB que estão diretamente ligados à orientação sexual, temos a presença do T que está ligado à identidade de gênero, podendo assim ter representantes heterossexuais.

O projeto de lei nº 5.002/2013 ainda encontra-se parado na câmara e para ser válido é necessária a sua aprovação no congresso, que, atualmente, conta com a maior bancada evangélica na história do país, tornando quase impossível ter ideia se um dia o projeto passará.

VI. Governo Temer e o Retrocesso sobre o Direito do Nome Social

Com as atuais reviravoltas da democracia brasileira e a inicialização de um golpe de estado, um grupo de deputados liderados por João Campos (do PRB-GO) atacou:
Protocolando um pedido de decreto legislativo para suspender o decreto, assinado pela então presidente Dilma Rousseff, que reconhecia o nome social nos órgãos públicos federais.

João Campos também é responsável por outros projetos igualmente sem fundamentos racionais: a Emenda Constitucional que garante às igrejas o poder de questionar a constitucionalidade das leis no STF e o projeto de Cura Gay.

O que nos leva a uma questão, já falada por Lana Jones, blogueira do Brasil Post: O que os nossos deputados temem? Existe algo a temer? Será que a sexualidade deles é assim tão frágil? Será que o uso do nome social por travestis e transexuais afeta algo na vida deles? O que os deputados temem nos LGBTs? O que eles temem perder quando nós ganhamos direitos? No Facebook a criação da página “Nome Social é Direito”, que já tem 21.835 seguidores, demonstra a união da população transgênera contra o retrocesso.

V. Chamado para Resistência Trans*

Ser trans* é uma linha tênue entre resistir e desistir. No Brasil é sinônimo de luta constante. Acordar, levantar da cama e sair de casa é sinal de resistência.
A comunidade do homem-branco-classe média-hétero-cis sabota nossa existência. Desejam e atuam para nos calar e nos invisibilizar.
Como não temos um minuto de paz, não devemos dar-lhes sequer um segundo de silêncio. Que possamos unir nossas vozes e resistir contra a sociedade que cobre os olhos para nossas necessidades!




Tópicos relacionados

Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar