TRIBUNA ABERTA

A decepção com o PT

Leonardo Souza

Militante do PSOL e estudante de História na Unesp de Franca-SP

quarta-feira 13 de abril de 2016| Edição do dia

Lembro que minha família inteira votou no PT até 2002. Eu ainda 8 anos de idade, mas sempre perguntava para todos os parentes o que achavam das eleições e em quem iam votar. Todos depositaram suas esperanças na ascensão do tal Lula, um operário, sindicalista, trabalhador, simples, que bebia e fazia churrasco. 14 anos depois, todos eles passaram a ter um ódio mortal ao PT. Alguns foram até conquistados pelo da direita que ao mesmo tempo está muito fortalecida, pois está no governo e tem seus interesses atendidos, mas, por outro lado, também critica veementemente o governo e capitaliza a indignação popular.

A decepção reside no fato de o PT, que surgiu com a imagem de um partido diferente, não apenas continuarem o mesmo plano econômico, não terem realizado reformas necessárias, participarem de alianças um tanto duvidosas, inclusive com partidos da extrema direita e grandes empresários e ruralistas, e por ter boa parte dos seus representantes, diretos ou indiretos, como parte de grandes esquemas de corrupção no Brasil. Em resumo, o PT prometeu uma grande mudança, e se provou o maior instrumento de manutenção do capitalismo, conseguindo até cooptar instituições historicamente combativas como a UNE, o MST e a CUT.

Sergio Buarque de Holanda, um dos grandes historiadores deste país, e também um dos fundadores do PT, elaborou em sua obra Raízes do Brasil de 1936 o mito do homem cordial. A palavra cordial, vem de coração. No entanto, a cordialidade não se refere a bondade excessiva, como o termo pode inferir. Quando odiamos, também odiamos de coração.

O Brasil é um país que se torna cada vez mais reacionário através de seu povo e aparece com inúmeros exemplos para sustentar esta realidade. Ao se discutir política com alguém de opinião diversa, esta pessoa se torna objeto de ódio e rancor, não só por parte da direita, mas também por parte dos defensores do governo. Os mesmos se revoltaram por culpa da capa da revistaIstoÉ sobre a suposta perda de equilíbrio da presidenta Dilma, se calou no começo de dezembro de 2015 quando o jornalista defensor do governo dilma Fernando Morais e o sociólogo também governista Emir Sader, se manifestaram de forma extremamente machista contra Marina Silva e a mulher do vice-presidente Michel Temer (imagem). A passionalidade chega ao ponto de as manifestações contra o governo eleito conterem manifestações em prol da volta da ditadura militar. As pessoas discutem e manifestam suas opiniões partidárias, se esforçando com inúmeros argumentos. Formulam teorias, desde as mais simplórias, até teorias conspiratórias, embasadas no medo e, possivelmente, em correntes mentirosas espalhadas por ambos os lados. Muitos são ponderados, demonstrando preocupação com o rumo do país e fomentando boas e saudáveis discussões. Outros tentam criar um campo alternativo, cuja intenção e claridade é duvidosa.

Este mesmo ódio cria unidade e agrupa as pessoas, pois odiar é prazeroso, mesmo que sádico. O que explica também a tal ascensão do fascismo no Brasil. Nunca antes, colunistas e entrevistadores tão agressivos e intolerantes tiveram palco. O astrólogo Olavo de Carvalho há 10 anos não era tão venerado por figuras da direita. Jair Bolsonaro nunca teve tanto palco ou fãs para destilar o seu fascismo e intolerância.

70% da população classificou como Ruim/Péssimo o governo do PT segundo as pesquisas de dezembro de 2015. Em 2002, no primeiro turno, Lula obteve 46,44% dos votos no primeiro turno, e no segundo, 61,27% dos votos, não obtendo maioria dos votos apenas no estado de Alagoas. É visível que destes 70%, uma boa parte votou, em algum momento no PT. Acreditar que apenas uma elite branca da classe média está descontente com o governo é um argumento tão simplista quanto dizer que os defensores do governo Dilma são pagos para protestarem na paulista.

O apelo emocional do ex-presidente Lula ao ser investigado na operação Lava-jato também citou a tal da raiva da elite contra o governo Dilma com argumentos de que hoje o “pobre anda de avião” e a de forma geral, o pobre hoje tem uma posição melhor. O modelo de Lula distribuiu “migalhas” aos miseráveis através de programas assistenciais aos moldes neoliberais, que também foram os primeiros a sofrerem com cortes na tal “crise”, e distribui fortunas ao sistema financeiro devido às elevadas taxas de juros. Porém, o seu apelo à emoção ainda conquistou diversos setores da esquerda.

Do outro lado, mesmo sem bases jurídicas (Artigo da BBC) a comissão da câmara aprovou o impeachment da presidente Dilma, no dia 11 de abril. Apesar da indignação popular, e as medidas tomadas pelo governo do PT, o impeachment é claramente uma ação política encabeçada por setores fascistas.

Compreender o ódio e a decepção com o PT, é extremamente necessário para entender a ascensão do fascismo, e o fortalecimento do discurso de ódio. A antiga ideia de Walter Benjamin de que “toda ascensão do fascismo é testemunha de uma revolução fracassada” se mostra mais clara do que nunca. Apesar da marcha do impeachment ser de fato encabeçada por fascistas, Não é seguro afirmar que todos os que participam dela, também são (pesquisa da usp sobre o protesto contra o governo e notícia no El País sobre a mesma) Desta forma, cabe à esquerda cortar os laços e analisar os erros do PT, e repensar um plano de esquerda para o Brasil.




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