Educação

OPINIÃO

A debandada do Levante Popular da Juventude para o colo da UJS na UNE

Odete Cristina

São Paulo

Francisco Marques

Estudante de Filosofia na UFMG

quarta-feira 21 de junho| Edição do dia

Em muitas universidades pelo país onde ocorreram as eleições de delegados para o 55 Conune os estudantes ouviram da boca da militância do Levante Popular da Juventude (LPJ) o discurso de que era a oposição mais forte à política da direção majoritária encabeçada pela União da Juventude Socialista (UJS, juventude do PCdoB) e que concorriam para poder mudar os rumos da entidade.

Esse bonito discurso de mudança garantiu elegerem centenas de delegados do LPJ país afora, contudo não passou de discurso, onde muito se fala para mascarar a mesma política. Uma mentira porque a política que o LPJ levanta desde sua fundação não se difere em nada da UJS: por trás de um palavreado de “apoio crítico”, endossaram todas as políticas dos governos petistas de ataque à educação pública, a expansão da terceirização e outras.

Durante o golpe institucional, onde escolas e universidades foram ocupadas a UNE não serviu como organizadora para que a luta avançasse e agora quer transformar a revolta contra as reformas em uma luta pelas Diretas, para fortalecer o PT eleitoralmente enquanto mantem todos os pilares do regime de pé, como o congresso, os privilégios dos políticos e juízes e também todos os ataques e direitos retirados por Temer, mas também pelos governos anteriores.

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Se calaram sobre a expansão ultra precarizada das universidades feita pelo REUNI, ou pelo investimento de milhões de reais que deveriam ir para a educação pública nos bolsos dos capitalistas da educação por meio do ProUni.

Comemoravam os “grandes avanços” do governo do PT sem nada dizer sobre os lucros recordes dos banqueiros e empresários; sem nada dizer sobre os acordos mais espúrios que Lula e Dilma fizeram com a direita mais reacionária da política nacional em nome de uma suposta “governabilidade”; a mesma direita, aliás, que cresceu sob os governos petistas e se fortaleceu para ser a base de sustentação do golpe institucional do impeachment.

Enquanto a UJS cumpre o papel mais “institucional” de gerir a UNE como um braço do governo dentro do movimento estudantil, o seu papel era complementado pela “cara radical” do LPJ, que, com a mesma política, dizia que era diferente. Que fazia escrachos na casa de torturadores da ditadura, mas apoiava os governos que governaram em pacto com os militares e concordando que se tirasse a “justiça” da Comissão Nacional da Verdade, ajudando com isso a garantir a impunidade aos militares da ditadura (sem falar nos políticos da ditadura que se tornaram “grandes aliados”, como Sarney, Maluf, Collor).

O LPJ falava em reforma agrária e aliança com os sem terra enquanto apoiava o governo que tinha a latifundiária Katia Abreu como grande aliada e ministra. Ou seja, apesar dos métodos mais combativos, que atrai os jovens e estudantes, é necessário ver qual política atende cada ação.

Em 2013 quanto a juventude espontaneamente protagonizou ato de milhões, a UNE sumiu e o Levante como ala não fez qualquer exigência para que a entidade organizasse a juventude, sendo uma das principais debilidades do movimento. Isso porque Junho colocou em risco o governo do PT, e mostrou como esse partido não podia mais conter a juventude dentro da sua política conciliatória. De lá para cá a UNE trabalha para impedir que os jovens confluam com o movimento de trabalhadores, inclusive pintando um perfil de direita a Junho de 2013.

A cara radical do Levante, com suas ações midiáticas e escrachos, não passou a prova desses acontecimentos e se alguém ainda acreditava na máscara “radical” da juventude petista do LPJ, o Conune veio para tirar qualquer ilusão: depois de toda a verborragia oposicionista nas eleições de delegados, fizeram como seus “mestres” Lula e Dilma e fecharam um “acordão” com a UJS, conseguindo alguns carguinhos na UNE em troca de seu apoio à chapa dos jovens stalinistas do PCdoB.

Frente ao imenso repúdio que isso gerou em toda a sua base, eles tentaram se explicar, e a emenda saiu pior que o soneto. Militantes do LPJ nas redes sociais quiseram pateticamente tentar se apoiar em Lenin para justificar o fato de que entraram no “chapão” majoritário que, além da hegemônica UJS, reúne setores diretamente burgueses como o PSB, que inclusive participaram do golpe.

Para além do palavrório que tenta se esconder atrás de Lenin chamando de “esquerdistas” os que combatem a prática mafiosa das fraudes e agressões da UJS a serviço de defender as políticas petistas, o que o LPJ argumenta é a “reorganização da esquerda brasileira”, que no entendimento deles estaria expressa na Frente Brasil Popular (FBP) e Frente Povo Sem Medo (FPSM).

Como é tradição na esquerda petista ou que carrega a herança do petismo, não há participação nenhuma da base. É diametralmente oposta à política que propomos no congresso desde a Juventude Faísca, de tomar a greve geral nas nossas mãos por meio da construção de comitês de base nos locais de trabalho e estudo, e exigir das centrais que hoje preparam a traição da greve geral e da luta contra as reformas que convoquem assembleias e mobilizem para o dia 30.

A armadilha da unidade pelas Diretas

O que muito ouvimos no Congresso foi justamente o discurso da “unidade”, unidade sem critica e sem programa, onde parece se transformar em um objetivo em si, quanto na verdade vem servindo para o petismo impedir que se desenvolvam setores a esquerda, e principalmente se desenvolva um movimento de juventude e de trabalhadores espontâneo, que rompa os freios das entidades.

Hoje o nome dessa política é a unidade pelas Diretas, que se por um lado pode atrair milhares de pessoas descontentes com Temer, por outro é a cara democrática de uma política para manter o regime tal como é hoje e impedir que as greves, atos e paralisações se desenvolvam em um questionamento mais de fundo a todas injustiças e exploração que a população vive.

O LPJ, como um autêntico satélite petista, orbita muito mais ao redor da FBP, uma frente mais institucionalizada e parlamentar, muito mais hegemonizada pelo PT com o objetivo de fazer uma “oposição de desgaste” a Temer para fortalecer o “Lula 2018”. Essa estratégia requentada de tentar “comer o regime político pelas bordas”, com táticas absurdas como a da Constituinte exclusiva para a reforma política (feita e controlada por esse congresso apodrecido e sem nenhuma possibilidade de questionar os fundamentos dessa democracia dos ricos) é a marca registrada do projeto “democrático e popular” que defende o LPJ. Uma estratégia que, diga-se de passagem, nada tem a ver com o marxismo revolucionário de Lenin.

As frases recortadas e pinçadas a dedo de Lenin em 1921 – quando este combatia no seio da recém criada III Internacional aqueles comunistas que se recusavam a combater as ilusões das massas na democracia burguesa, se abstendo de participar das eleições, por exemplo, e não vendo a conquista das massas como etapa prévia necessária à tomada do poder – só torna ainda mais ridícula a aliança do LPJ com a juventude que abraça a Katia Abreu e Serra.

As “etapas intermediárias e compromissos” de que fala Lenin não tiveram jamais nada a ver com abraçar seus inimigos de classe, nem conquistar carguinhos em entidades por meio de acordos pelas costas e mentindo para os eleitores. Mentiram a todos os que os elegeram acreditando na sua promessa de combater a UJS na direção da entidade, e por isso só merecem o desprezo e a desconfiança desses estudantes.

Essa “novidade” não é nada menos do que nós já esperávamos do LPJ. Expressa sua concepção de que a “disputa geral da sociedade”, como colocam em suas justificativas, passa por negociar com uma juventude de capangas e fraudadores que há décadas sequestrou a maior entidade estudantil nacional.

Esse tipo de “compromisso” é um passo adiante na demonstração de que por trás da cara nova e “rebelde” do LPJ se esconde a velha política petista de conciliação de classes de sempre. Com um verniz “democrático e popular” que é incapaz de esconder os jagunços de latifundiários como Katia Abreu massacrando sem terras e indígenas Brasil afora, ou os golpistas que ainda ontem eram vice-presidentes desse “campo popular”.




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