Teoria

A DIALÈTICA EM ENGELS

A danação da dialética pelas mãos dos detratores de Engels (Parte I)

Uma das características do stalinismo e em outra medida do marxismo da II Internacional vem a ser sua tentativa de – no argumento de Rees (1998) reduzir “a dialética a uma série de leis positivas que rigidamente determinariam o curso da história”.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 1º de agosto de 2015| Edição do dia

Ironicamente, uma das críticas desfechadas contra Engels por certos círculos que se definem como marxistas, vai na mesma direção. Isto é, estes detratores alegam que ele confundiria as leis da natureza com as da sociedade e, neste caso, seria mecanicista ou determinista. É de certa forma um exemplo de típico “fogo amigo”, já que vem a ser Engels o autor que, em sintonia com Marx, mais classicamente se ocupou com a defesa do método dialético de pensar a natureza e a história humana. Ou, no argumento de Buonicori (2007), “não deixa de ser irônico que o maior crítico do positivismo e do economicismo no interior do movimento socialista seja, posteriormente, acusado de ser seu principal introdutor e incentivador”.

Engels jamais postulou, por exemplo, que o socialismo (como negação do capitalismo) possa vir a ser “dialeticamente” inevitável. Em sua obra Anti-Duhring, como destaca Rees (1994), Engels justamente se ocupa de combater os que assim pensam. E coube a Engels sistematizar, por exemplo, e da forma mais dialética a história da espécie humana.

Certamente é possível - através do uso de uma ou outra citação isolada, atacar, pontualmente, Engels como determinista. Ou até Marx. Rees (1998) recorda que Engels recorre a exemplos e imagens da natureza, aqui e ali, de forma inadequada, mas não vê nisso qualquer problema de fundo. Não nos marcos da sua obra.

Engels é o alvo preferido, dentre outras razões porque na “divisão de trabalho” entre os dois, coube a ele ocupar-se mais dos temas científicos. Desconsidera-se, às vezes que, por exemplo, “nos anos 1850-60 será sobretudo Marx quem se ocupará das ciências da natureza: a física, a cosmologia, a geologia, a fisiologia” serão por ele estudados intensamente, fato que se deduz de sua correspondência e das notas de leitura (MARX; ENGELS, 1975). Em suma, tem sido já bastante estabelecido, como argumenta Buonicore (2007), que “se Marx não se dedicou a escrever sobre a dialética da natureza foi porque, na divisão de trabalho, esta tarefa coube a Engels”. E, em especial, coube a Engels procurar demonstrar que dialética nos movimentos da natureza – em todas as suas esferas – assim como dialética, embora qualitativamente diferente, no funcionamento e dinâmica histórica das sociedades humanas.

Não é difícil entender que natureza e sociedade constituem uma totalidade, sendo a natureza prévia ao homem, e também que o vínculo ativo ou a diferenciação entre sociedade e natureza se estabeleceu, dialeticamente – como demonstraram Marx e Engels -, através do trabalho.

Este é o primeiro fato que vai permitir entender a noção de totalidade de uma forma peculiar, marxista (e não mística ou metafísica) e que vai permitir entender porque a lógica da natureza, ou a dialética da natureza difere daquela da sociedade embora pertencentes à mesma totalidade (totalidade “diferenciada” como argumentaremos mais adiante).

O homem cria o mundo e a sua história através do seu trabalho, material e histórico; dito de outra forma, antes de fazer história, os homens devem comer, abrigar-se, vestir-se, resolver suas necessidades concretas básicas, no clássico argumento de Marx e Engels.

Esta continua sendo nossa verdade cotidiana. E foi também a verdade de auto-criação da própria espécie humana a partir de um tipo de símio bípede (que foi liberando as mãos). O trabalho, em sua forma exclusivamente humana, é essencialmente e em primeiro lugar, um processo ativo através do qual o homem media e tenta controlar sua relação com a natureza.

Através das transformações que a espécie humana foi realizando em “seu entorno surgiu a razão e por meio desta conseguiu obter ferramentas para continuar modificando o mundo. Este é o significado da razão humana se lhe retiramos o caráter divino a ela atribuído pelo Iluminismo, mas também implica em admitir que ela nunca esteve separada da natureza mas que é parte dela” (DÍAZ, 2002).

Nem a consciência é “livre” totalmente, no sentido em que certos anarquistas concebem e nem tampouco é um mero “reflexo” natural ou da vida material, como os materialistas mecanicistas de todo feitio imaginam. Por outro lado, a materialidade da natureza não é portadora da subjetividade da matéria pensante.

E será precisamente Engels (2010) quem irá estabelecer – como núcleo do pensamento dialético e do marxismo em geral – a bem definida noção de que a natureza se move segundo leis distintas da sociedade: “A história do desenvolvimento da sociedade difere substancialmente, num ponto, da história do desenvolvimento da natureza. Nesta – se excluímos a reação exercida, por sua vez, pelos homens sobre a natureza – o que existe são fatores inconscientes e cegos que atuam uns sobre os outros e em cuja ação recíproca se impõe a lei geral. De tudo que acontece na natureza – tanto os inumeráveis fenômenos aparentemente fortuitos que afloram à superfície como os resultados finais pelos quais se comprova que esses acasos aparentes são regidos por leis – nada ocorre em função de objetivos conscientes e voluntários. Em troca, na história da sociedade, os agentes são todos homens dotados de consciência, que atuam sob o impulso da reflexão ou da paixão, buscando determinados fins; aqui nada se produz sem intenção consciente, sem um fim desejado”. Muito embora, enquanto os produtores associados não dirigirem conscientemente a economia, a sociedade seguirá dilacerada e degradada, sem um plano consciente.

Acusar Engels de determinista mecanicista e tentar conectá-lo com a versão do marxismo de Bernstein, Kautski e do stalinismo como faz Hector Benoit (2000), não procede. Depois de afirmar que a “doutrina engelsiana” será encontrada, sobretudo, nos “manuais do marxismo stalinista”, na forma de “materialismo dialético” e de “materialismo histórico” e depois de acusar Engels de mecanicista e fatalista, Benoit (2000) conclui, novamente de forma equivocada: “Estaríamos assim, com o materialismo dialético e com o materialismo histórico, diante do ´sistema de mundo marxista´, um sistema naturalista-positivista que permitiria prever, precisamente, com rigor científico inexorável, o curso da natureza e da Historia”.

Ora, por essa via, Stalin aparece como inspirado por Engels ou continuador de Engels o que está longe de ser uma avaliação no mínimo fiel a este. Pelos mesmos caminhos da anti-dialética segue Jair Antunes (2009) acusando Engels, por seu “pequeno deslize teórico”, de ter sido “a chave para a justificação stalinista do desvio teórico e político de proporções catastróficas para a classe operária mundial do século XX e pelo rumo (talvez sem volta) em direção à completa barbárie tomado pela humanidade no início do século XXI”.

Mészàros é outro autor que segue em uma trilha semelhante, acusando Engels de reduzir a filosofia a uma “mera soma dos resultados das ciências positivas” (1980). Musse (1999) é outro: depois de conceber um Engels positivista, critica-o por pretender “compreender o marxismo como um sistema orientado por um conhecimento unificado do homem e da natureza”; também critica Engels por, supostamente, adotar “uma mesma dialética uniforme, abrangente o suficiente para compreender seja o andamento histórico seja o processo natural” (Musse, 1999).

Partindo da crença de que Stalin desenvolveu a “concepção engelsiana de dialética”, Jadir e Conceição (2008), por seu turno, acreditam que para Engels há uma dialética da natureza mas que “para Marx não há dialética da natureza”. Na linhagem dos críticos de Engels também se incluem autores como N. Tertulian, Sartre e, entre nós, J. Arthur Gianotti (TOLEDO, 2008), assim como, no início dos 1980, Adelmo Genro Filho, que detectava em Engels uma espécie de pai das tendências “naturalistas” do marxismo (no caso, Stalin seria um exemplo destas tendências) e aquele autor chegou ao abuso de se propor a escrever uma espécie de “Anti-Engels” (FREIRE Jr, 1995).

Outra tentativa recente, desde os anos 1960 e em certos círculos acadêmicos, vem sendo a de procurar opor Engels a Marx. Rees (1994) já chamou a atenção que embora autores como Lukács e Korsch nos anos 1920 tivessem chegado a criticar um ou outro aspecto de Engels, não tenderam, em todo caso, a negar a unidade entre Marx e Engels. No entanto, é o que tentam levar adiante alguns autores quando imaginam um Engels “positivista” contra um Marx “não-positivista”.

Um dos problemas desses tipos de desvio decorre de que se pratica um reducionismo do tipo vulgar ou apressado em relação ao pensamento do próprio Engels e outro é o da falta de clareza sobre a dialética da história e a dialética da natureza, e de sua relação mútua no próprio Engels. Este tem claro que, na natureza, níveis de complexidade (por exemplo, químico e biológico, ou então na esfera da fisiologia do cérebro e da psique) podem surgir um do outro, um dar origem ao outro (como o químico em relação ao bioquímico) mas cada um guarda sua autonomia e, nos marcos da sua esfera, suas próprias leis.

Engels (1979) explica que a matéria é constituída de moléculas, átomos e dessa forma, estruturada em uma diferenciação – em outras palavras – de níveis de complexidade e que “é sobre essa diferenciação que repousa a separação da mecânica, como ciência das massas estelares e terrestres, da física, como mecânica da molécula, e da química, como física dos átomos”.

Hoje podemos dizer o mesmo: se uma molécula orgânica ou um conjunto delas são perfeitamente explicáveis e previsíveis, em seu comportamento como moléculas, pelas leis da química, no entanto, na medida em que elas mesmas integram (como parte orgânica) o funcionamento biológico, só serão biologicamente explicáveis e previsíveis de acordo com as “normas” ou leis de funcionamento da biologia, não mais estritamente da química.

O colesterol substância química, por exemplo, ao mesmo tempo, dialeticamente, nega-se como tal, ao adotar o “novo” papel do colesterol fisiológico, bioquímico, e nesta esfera, torna-se ininteligível apenas pelas meras leis da química orgânica. Química e fisiologia operam como esferas, níveis ou momentos da matéria onde uma esfera vem da outra mas não é a outra.

Sayers, citado por Rees (1998) descreve a posição de Engels com clareza no sentido de que “esses diferentes níveis são relativamente autônomos: eles não são apenas distintos, mas também, unidos; existe continuidade assim como diferença entre eles. A mais clara demonstração disso é oferecida pelo fato – e a moderna ciência toma isto como fato – de que os fenômenos biológicos emergem das condições meramente químicas e físicas – isto é, não-biológicas – por meio de processos puramente naturais” (grifo de Rees).

[Continua na Parte II, na próxima sexta-feira]

Bibliografia:
ANTUNES, Jadir, CONCEIÇÃO, Gilmar, 2008. Questões acerca da chamada dialética da natureza. In Educere et Educare, v.3, n.6, jul/dez 2008, p. 165-178.
ANTUNES, Jair, 2009. Marx e o último Engels: o modo de produção asiático e a origem do etapismo na teoria da história marxista. Brasil/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/
BENOIT, Hector, 2000. Da dialética da natureza à derradeira estratégia política de Engels, In A obra teórica de Marx: atualidade, problemas e interpretações, BOITO Jr, A., TOLEDO, Caio N., RANIERI, J, TROPIA, P. V. (org), São Paulo, Xamã, 2000, p. 91-104.
BUONICORE, Augusto, 2007. Apresentação. In MOURA, Mauro C.B, FERREIRA, Muniz, MORENO, Ricardo (orgs), Friedrich Engels e a ciência contemporânea, Salvador, Ba, Edufba, 2007, p. 7-14.
DÍAZ, Ariane, 2002. Las ´contingencias´ del ´determinismo´ marxista – Acerca de los Cuadernos Filosóficos de Trotsky. In Lucha de Clases n.1, noviembre 2002.
ENGELS, Frederich, 1979. A dialética da natureza, 6ª. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
ENGELS, Frederich, 2010. Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Brasília: Centelha Cultural.
FREIRE Jr, Olival, 1995. Friedrich Engels e as ciências da natureza. In Princípios, n.39, nov/dez/jan, 1994/1995, p. 28-32.
GENRO Filho, Adelmo, 1980. Introdução à crítica do dogmatismo. In Teoria & Política, n.1, p. 81-95.
MARX, K., ENGELS, F., 1975. Cartas sobre las ciências de la naturaleza y las matemáticas. Barcelona: Anagrama.
MÉSZÀROS, István, 1980. Marx filósofo. In HOBSBAWM, Eric (org), História do marxismo, vol 1, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981, p. 157-196.
MUSSE, Ricardo, 1999. Sistema e método no último Engels. In Discurso n.30, 1999, p. 87-100.
REES, John, 1994. Engel´s marxism. In International Socialism n.2, winter 1994.
REES, John, 1998. The algebra of revolution – The dialectic and the classical marxist tradition. London: Routledge.
TOLEDO, Caio N., 2008. Fiedrich Engels e a ciência contemporânea. In Crítica Marxista n.26, p. 175-178.




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