Internacional

CRISE EUROPEIA

A cúpula da União Europeia mostra a crise histórica do projeto europeu

Os 27 membros da UE (sem o Reino Unido) se juntaram em Bratislava para debater o futuro da União depois do Brexit, a oito anos do começo da crise, sob ameaça de fraturas.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

terça-feira 20 de setembro| Edição do dia

“Estamos em uma situação crítica”, assegurava a chanceler alemã, Angela Merkel ao chegar à reunião. Há meses, depois do referendo onde a maioria dos votantes britânicos se inclinou pelo Brexit, Merkel disse a portas fechadas que se tratava de um “movimento tectônico” para a União Europeia.

As consequências desta sacudida profunda todavia estão por se ver, mas o que é seguro é que têm se aprofundando as linhas de fratura dentro da UE, em várias direções.

Um analista do periódico El País assegurava esta sexta-feira que: “O risco de desintegração, de todo modo impensável naquela União anterior aos problemas, cada vez mais longínqua, está aí: as grandes crises abrem capítulos impensáveis e demonstram que é impossível antecipar a criatividade da história.”

O ponto de inflexão entre o “antes” e o “depois” tem sido indubitavelmente o desenvolvimento da crise econômica mundial: se completaram esta semana oito anos da queda do Lehman Brothers, a crise que pois à nu todas as contradições do projeto europeu.

Estamos diante de uma crise histórica, o fim do “consenso europeu”, a crise do projeto mais ambicioso das burguesias europeias desde o pós-guerra. Uma analista do periódico Financial Times adverte acertadamente esta semana que um “espírito hostil à Bruxelas” percorre não apenas os emergentes partidos da extrema direita, mas que começa a contagiar o “mainstream” da UE. Os partidos do “centro político” estão pressionados pela emergência dos eurocéticos e tomam parte de sua agenda.

No próximo ano e meio se realizarão eleições nacionais na França, Alemanha, Países Baixos e Áustria, além de referendos chaves este outono na Itália e Hungria. Os partidos que questionam o “consenso de Bruxelas” pela direita e pela esquerda (estes últimos muito mais moderados que os primeiros), são os que conseguem canalizar um estendido mal estar social.

Problemas na União e problemas em casa

Cada um dos chefes de estado e presidentes que chegou até a capital da Eslováquia para participar da cúpula carregava em suas costas suas próprias crises e desafios. Angela Merkel, a líder indiscutível da última década europeia, enfrenta em casa fortes tormentas, com o ascenso da extrema direita da Alternativa para a Alemanha, crise na coalizão de governo e em seu próprio partido, fortemente questionada por suas políticas migratórias.

Em pior estado chega à cúpula o governo francês, sócio em um eixo que vem articulando o destino da UE desde sua fundação. Hollande atravessa uma forte crise política e tem enfrentado um enorme movimento social de protestos na primavera. Se encontra em seu nível mais baixo de popularidade, buscando “resistir” diante do crescimento da direita e da extrema direita nas pesquisas de opinião, à oito meses das eleições presidenciais. Tudo indica que o próximo governo francês estará mais à direita e podem se aprofundar as tensões com Bruxelas.

O terceiro dos “sócios fundadores” da UE é a Itália. O país mediterrâneo foi parte do grupo dos seis que firmaram os tratados de Roma que deram bases à UE – junto com França, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica e os Países Baixos – há 40 anos. Porém a terceira economia da zona do euro se encontra em graves problemas: este país é hoje o “enfermo econômico” da Europa, com seus bancos a ponto de serem abatidos e um forte endividamento estatal. Sua queda pode levar a um contágio da crise à todo continente. Renzi enfrenta um referendo este outono em que se joga “todas as fichas” para avançar em uma reforma constitucional. Com toda a oposição contra, se fracassa, arisca seu futuro. O movimento de 5 estrelas, com um discurso eurocético e populista de direita, tem alcançado bons resultados nas últimas eleições municipais italianas.

O Brexit: um divórcio não resolvido

A cúpula do castelo de Bratislava foi uma ação destinada a exorcizar um fantasma: a ausência do Reino Unido. Um mal estar que percorreu a cúpula, mas que de nada se quis falar “oficialmente”.

A primeira ministra britânica, Theresa May, não foi convidada para o encontro, mesmo formalmente sendo parte da UE. Porém, este divórcio administrativo não parece bem encaminhado para se resolver. Os líderes da Comissão Europeia e o Parlamento Europeu pressionam para que o Reino Unido avance na separação, invocando o artigo 50 que permite das início ao processo. No entanto, o governo britânico dilata a questão, agoniado por suas próprias contradições.

A crise interna do partido conservador, ilustrada com a renúncia de Cameron ao seu posto no Parlamento esta semana, junto à interna selvagem no trabalhismo – em meio de uma forte disputa onde se joga a liderança de Corbyn –, complicam ainda mais o panorama político do outro lado do Canal da Mancha.

A “contra reforma” xenófoba do bloco do leste

Os países do Leste da Europa se consolidam na defesa reacionária de sua “soberania” contra os planos de “partilha” de refugiados desenhados em Bruxelas. O primeiro ministro da Hungria, Victor Orban, tem convocado um referendo contra a aceitação “obrigatória” de refugiados neste país, com um conteúdo altamente reacionário e xenófobo. Durante a cúpula assegurou que fazia falta uma “contrarrevolução cultural” para “salvar os valores europeus”.
O bloco de Visegrado integrado por Hungria, Polônia, Eslováquia e a República Tcheca, apresentou um documento onde defendem a formação de um “exército comunitário” para a defesa das fronteiras, o rechaço à “obrigatoriedade” nas cotas de refugiados e limitar os poderes de Bruxelas.

Paradoxalmente, este último é um dos poucos pontos de “acordo” que pode sair da reunião. Vários países, com França e Alemanha em primeiro lugar, querem fortalecer os sistema de “defesa” da Europa e suas fronteiras contra as “ameaças externas” e o terrorismo, uma forma de tentar “sair juntos” da crise de forma reacionária. Não vai ser o amor que os unirá, mas o horror.




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