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TEORIA MARXISTA

A crise capitalista e suas formas: entrevista com Iuri Tonelo sobre o novo livro

Iuri Tonelo, doutorando em sociologia pela Unicamp e um dos editores do portal Esquerda Diário irá fazer o lançamento do seu livro "A Crise Capitalista e Suas Formas" no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp na quarta-feira, 22 de junho, as 16h, numa mesa composta por Luci Praun, que também estará lançando um livro, Ricardo Antunes e Plínio Sampaio Jr. Em seguida, entrevistamos o autor do livro para que comentasse um pouco dos principais temas abordados na obra e a sua relevância na atualidade.

terça-feira 21 de junho de 2016| Edição do dia

Esquerda Diário: Por que o estudo sobre a crise capitalista hoje?

O estudo sobre a crise tem uma importância decisiva no atual contexto internacional por continuarmos enfrentando uma histórica crise econômica. Desde a queda do banco de investimentos Lehman Brothers em 2008 a realidade de muitos países em âmbito internacional tem sido de conviver sua economia com os distintos efeitos da crise, que colocou em xeque a dinâmica desenfreada de acumulação de capital sob jugo do capital financeiro. Mais do que uma “crise de ganância”, de “confiança” ou de descontrole das finanças, a crise colocou em questão a própria dinâmica capitalista no século XXI, que une a hiperfinanceirização e a enorme sobreacumulação de capitais embasadas em um padrão de acumulação que, na essência, segue a mesma lógica do século passado, buscando as formas mais ferozes de exploração do trabalho, precarização, retirada de direitos e fortalecendo os monopólios financeiros. A sobrevida que pode ter a economia mundial sem uma crise mais aguda esteve, portanto, justamente na quantidade de ataques nos anos 1990 os trabalhadores estiveram submetidos para engordar as cifras de lucro dos bancos e empresas, mas isso não poderia durar eternamente.

Por isso buscar compreender a gênese e o desenvolvimento dessa crise é fundamental para os que queremos pensar uma resposta que possa não apenas modificar a forma da dinâmica capitalista, mas questionar as bases desse sistema e apontar para uma sociedade emancipada, sem exploradores e explorados.

Esquerda Diário: É necessário voltar a Marx para compreender a crise?

Sem dúvida, a crise de 2008 abriu um novo momento para o próprio pensamento em torno do sistema capitalista. As teorias que eram bases da ofensiva neoliberal, que diziam que o marxismo, a classe trabalhadora, e a própria história tinha “acabado”, foram questionadas profundamente.

Nesse novo contexto, as ideias de Karl Marx voltaram com uma força
impressionante. Não que elas tivessem perdido força de explicação anteriormente, mas ficaram eclipsadas pela “noite de 30 anos” da restauração capitalista e a ofensiva neoliberal, período sem revoluções e processos revolucionários, a qual muitas organizações da esquerda cederam.

As próprias vendas de O Capital já nos meses pós-crise sofreram um explosão na época. E isso não se deu ao acaso: se observarmos a dinâmica da crise, tanto nos aspectos fundamentais que envolvem as bolhas financeiras, elementos de superprodução e sobreacumulação de capital, os impactos na relação entre os Estados, a rapidez com que os EUA deslocaram a crise para a Europa, as tentativas de imposição da austeridade a população (aumentando a exploração), o papel dos Estados (como “comitês de negócios da burguesia”) salvando os bancos e empresas com dinheiro público, em suma, as distintas tentativas de salvar os empresários e banqueiros e descarregar a crise nas costas dos trabalhadores, vemos uma atualidade impressionante nas ideias fundamentais de Marx.

Esquerda Diário: no estudo você buscou também relacionar a obra de Marx com a teoria do imperialismo de Lenin?

Se a teoria do imperialismo de Lenin aponta que se abria uma época de domínio do capital financeiro, da concentração de capital e os monopólios, da exportação de capital, em suma, da pilhagem e o parasitismo como lógica geral da acumulação capitalista, então também essa tese mantém uma atualidade muito importante. Talvez o interessante a se notar que Marx buscou em seu primeiro plano dos anos 1850 de O Capital abordar o conjunto de seis temas: trabalho assalariado; capital; renda da terra; Estado; comércio exterior; mercado mundial e suas crises. Podemos dizer que os primeiros temas foram sistematicamente abordados nos quatros livros de O Capital na elaboração final, mas os temas do Estado, comércio exterior e as crises Marx não pode abordar sistematicamente. Lenin, Leon Trotski, Rosa Luxemburgo, Antonio Gramsci e outros marxistas buscaram dar continuidade de certa forma aprofundando a reflexão em torno desses temas, mas podemos dizer que a obra Imperialismo: fase superior do capitalismo de Lenin, seguindo elementos fundamentais apontados pelo marxista alemão Rudolf Hilferding na primeira década do século XX, foi sem dúvida um marco de continuidade teórica com o pensamento de Marx e particularmente com teses, apontamentos e desenvolvimentos de O Capital .

Em nosso livro buscamos demonstrar essa relação de continuidade entre Karl Marx e Lenin, como parte também de resgatar o melhor do pensamento revolucionário do começo do século XX, mostrando as fortalezas teóricas desse pensamento, já que muitas vezes a academia tem buscado esconder esses autores, saltando as reflexões da época agitada por revoluções do começo do século e criando uma ponte apenas entre Marx e os teóricos acadêmicos (marxistas ocidentais, para usarna acepção de Perry Anderson) de meados do século XX, o que tem como objetivo transformar o marxismo numa teoria desvinculada da ação para a transformação social revolucionária.

Esquerda Diário: Pode se falar em distintas formas da crise capitalista, como sugere o título do livro?

A crise capitalista é um fenômeno de extrema complexidade, especialmente tratando-se de uma crise internacional como a que vivemos hoje, ou como foi a crise dos anos 1970 ou a grande crise de 1929. Nosso objetivo não foi, de modo algum, buscar um “sistema da crise” ou uma “fórmula”, que talvez tenha sido uma pressão sofrida por distintos marxistas que buscaram entender o fenômeno geral.
O que buscamos foi na realidade adentrar a principais determinações expressas no pensamento de Marx que permitem dar pistas e sugestões para compreender o fenômeno histórico atual. Nesse sentido, entender a crise de superprodução de mercadorias, a crise de sobreacumulação de capital, a relação que estabelecem os elementos cíclicos com a chamada queda tendencial da taxa de lucro, apontada por Marx, e como os elementos da concorrência influenciam nesse processo, e também o que poderíamos chamar de “crise financeira” em termos marxistas, em alguns dos distintos aspectos.

Apresentando os elementos gerais da crise capitalista no pensamento de Marx e buscando relacionar os elementos particularmente contidos no Livro 3 de O Capital com os avanços posteriores dados por Lenin e outros marxistas, o intuito era de fornecer uma introdução geral para contribuir com esse desafio que temos pela frente, que é compreender a dinâmica da crise econômica internacional e que tem se expresso com tudo em nosso país para atuar questionando o problema pela raiz, retomando a perspectiva da revolução social dos trabalhadores como resposta de fundo a época que vivemos.


Interessados no livro podem enviar uma mensagem no face do Esquerda Diário ou na internet no site http://centelhacultural.com.br/




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