Sociedade

tragédias do capitalismo

A crise capitalista e a destruição da civilização

O sistema capitalista não pode existir sem crises permanentes. É um sistema que tem uma lógica intrínseca da acumulação e se baseia no enriquecimento de poucos e na miséria de muitos e, por sua vez, só pode oferecer uma coisa para a humanidade: destruição, ódio, violência, intolerância, massacres e guerras. É o abismo social cada vez mais produzindo tragédias cotidianas.

sábado 16 de março| Edição do dia

"Le visage de la guerre" pintura de Salvador Dalí

Cap. 1 - Capitalismo: um sistema em crise generalizada

“O mundo das mercadorias”. Era assim que Marx definia a sociedade capitalista em meados do século XIX. Nesse sistema, as relações humanas são entremeadas pelas mercadorias, de modo que uma relação de alienação se produz, onde os seres humanos não se reconhecem e as mercadorias adquirem maior importância ou maior valor do que o próprio ser humano. Os indivíduos percebem as mercadorias como "ídolos", mas estranham-se a si mesmos. Ocorre uma desumanizadora inversão: o ser humano torna-se a “coisa” e a “coisa” torna-se o ser.

A história das sociedades demonstra que um sistema econômico e social em crise revela a sua degeneração e falência enquanto sistema produtivo, quando entra em crise econômica, desagregação social, decadência civilizatória, cultural e barbárie. Foi assim com o modo de produção escravista na Roma antiga e com o modo de produção feudal na Europa.

O sistema capitalista não pode existir sem crises permanentes. É um sistema que tem uma lógica intrínseca da acumulação e se baseia no enriquecimento de poucos e na miséria de muitos e, por sua vez, só pode oferecer uma coisa para a humanidade: destruição, ódio, violência, intolerância, massacres e guerras. É o abismo social cada vez mais produzindo tragédias cotidianas. O capitalismo em crise estrutural também libera seus venenos ideológicos: O racismo e a xenofobia. O fascismo e o nazismo são exemplos históricos do tamanho do fosso que a barbárie capitalista pode jogar a humanidade.

No sistema capitalista, onde cada vez trabalhamos mais (para os que encontram emprego) e somos cercados por uma “imensa acumulação de mercadorias”, as relações humanas estão cada vez mais pueris, instantâneas e superficiais, marcadas pelo individualismo e o isolamento. Cada vez mais as pessoas sentem-se frustradas, depressivas e angustiadas. Somos avaliados pela nossa capacidade de consumir. Logo, quem não consome as “maravilhas” do capitalismo, é escanteado e não tem lugar nesse sistema. O capitalismo não vende apenas mercadorias, vende ilusões.

A crise social e o mal estar civilizatório se expressam no aumento do misticismo e da ignorância, da frustração e do ódio, da intolerância e do preconceito, da falta de empatia e da negação do outro, produzindo e potencializando cada vez mais psicopatias, depressões, perversões e atrocidades, como o ocorrido na escola pública Raul Brasil, em Suzano na grande São Paulo.

Os atiradores eram dois jovens. Foram 10 mortos entre estudantes, funcionários, os atiradores e outros tantos feridos. Além do revólver, o uso de um machado, coquetel molotov e arco e flechas. Ainda não está bem claro quais foram as motivações, mas é evidente os aspectos obscurantistas de culto à violência, ao ódio, ao armamentismo e a simpatia e identificação dos dois jovens com o discurso fascista e o veneno destilado pela extrema direita atualmente.

É absolutamente hipócrita a afirmação do vice presidente Mourão, de que a causa do ataque seriam os “jogos violentos de vídeo-game”. E pior ainda é a declaração do Major Olímpio, de que se os professores estivessem armados, a tragédia seria evitada. O mesmo governo que corta investimento na educação pública, que ataca e desmoraliza os professores, que quer privatizar e acabar com o acesso a educação aos filhos da classe trabalhadora, que não oferece nada para a juventude discursa aos quatro ventos que a solução da segurança pública está na liberação das armas.

O governo Bolsonaro, que rende homenagens públicas à assassinos milicianos, que destila o discurso de ódio às minorias, o racismo, a homofobia e o machismo, que propaga o fetiche por armas e pelo militarismo, que ensina crianças e jovens fazerem "arminha" com o dedo e que ameaça jornalistas, é o reflexo político e superestrutural dessa decadência social e civilizatória.

O capitalismo é global, portanto a tragédia não tem fronteiras. A extrema direita é um fenômeno internacional e ganha força diante da crise econômica e humanitária dos últimos anos. Na Nova Zelândia, um atirador se autodenominando “etnonacionalista” e “fascista” e contra imigrantes, entrou numa mesquita e assassinou covardemente 49 pessoas. Enquanto matava, com uma câmera acoplada no capacete, transmitia o massacre ao vivo em uma rede social. Declarou defender a supremacia branca e o “sangue europeu”.

Cap. 2 - A lama tóxica e as vidas de Mariana e Brumadinho

A mesma empresa, o mesmo tipo de acidente, a mesma região, novamente uma barragem de lama química, só que agora em uma escala de assassinato em massa que situa o rompimento da barragem de Brumadinho no topo das catástrofes ambientais com mortes: terá sido a maior da história do Brasil. Novamente, o sangue e as vidas da classe trabalhadora escorrendo pelos campos de lama afora.

Algumas perguntas: Por que a mineração é um negócio extremamente lucrativo no Brasil? Por que Bolsonaro afirma querer acabar com a “farra das multas” e "flexibilizar" ainda mais leis ambientais? Por que o seu ministro do meio ambiente quer entregar terras indígenas e de preservação nas mãos de mineradoras? Por que Donald Trump comemorou a eleição de Bolsonaro?

Por que a sirene de Brumadinho não tocou? E o tal plano de emergência e evacuação? Por que a barragem foi feita da forma mais barata e precária (barragem de alteamento)? Por que o refeitório dos trabalhadores estava localizado no caminho da lama, logo abaixo da barragem?

Em nome dos lucros dos acionistas da Vale, não se perde tempo nem dinheiro investindo em segurança e prevenção. Redução de custos é o mantra sagrado dos gestores privados. Afinal, se acontecer o rompimento da barragem, e algumas centenas de "pobres coitados" morrerem e causar um rastro de destruição ambiental, "foi um acidente" não é mesmo?

O capitalismo é assim. A regra de ouro da iniciativa privada é maximizar os lucros e diminuir os custos. E foi isso que aconteceu. A barragem feita da forma mais rápida, barata, econômica e... precária. O capitalismo na sua fase imperialista é assim: as empresas de países de capitalismo avançado exploram os recursos naturais (minérios) a “preço de banana” de países semicoloniais como o Brasil. Para isso, necessitam de governos subservientes (lembrem do Bolsonaro batendo continência pra bandeira dos EUA).

Mas afinal, quem são os donos da Vale, que faturaram, só em 2018, mais de 11 bilhões e mais de R$ 319,22 bilhões desde a privatização?
Será que eles assistiram toda a destruição em nome de seus fabulosos lucros em suas mansões na Europa ou nos EUA? Ou em um resort de luxo em alguma praia do Caribe?

A Vale que foi privatizada no governo FHC (e que não foi reestatizada nos governos "de esquerda" do PT) fez "doações" na ordem de 175 milhões de reais para partidos nas últimas eleições. Na realidade estava comprando essas vidas, os rios, o minério, toda fauna da região e a mata atlântica.

Há mais de 150 anos, o velho revolucionário alemão F. Engels já dizia que o parlamento é "balcão de negócios da burguesia". É lá no congresso que os capitalistas compram o voto dos deputados pra aprovar leis do seu interesse. Quando a Vale foi privatizada em 1997 e entregue nas mãos da "iniciativa privada" o que estava sendo negociado eram essas vidas e toda essa destruição de Brumadinho em 2019.

O capitalismo mata e destrói. A privatização e a terceirização mata e destrói vidas e o meio ambiente. O tsunami de lama tóxica, densa e em alta velocidade foi, literalmente, a abertura dos esgotos da megaempresa capitalista sobre centenas de vidas agora desaparecidas e devastando uma cidade da Grande Belo Horizonte e muitas e muitas léguas de terreno e rio abaixo.

Tudo em nome do lucro de um punhado de bilionários que estão bem longe da lama tóxica de Brumadinho.

Cap. 3 - São Paulo embaixo d’água

Cidades como São Paulo são verdadeiras aberrações do ponto de vista de qualquer racionalidade arquitetônica ou de engenharia. Ela cresceu em demasia e de forma caótica. Mas não foi de forma aleatória; pelo contrário, ela foi muito bem ordenada segundo uma lei que governa ainda hoje a vida de todos que vivem nela. Não foi para assegurar a segurança ou o conforto de todos seus habitantes; nem para garantir que sua vida fosse cômoda. A lógica que regeu o crescimento foi a do lucro, independentemente de que tipo de prejuízo social ou natural isso pudesse trazer.

Quando as chuvas de verão caem, elas caem por toda a parte. Mas é nas periferias que se concentram as mortes, os desabamentos, os deslizamentos, as enchentes e alagamentos. A capacidade de se abrigar dos danos causados por tempestades já foi alcançada por nossos recursos técnicos e tecnológicos há muitos e muitos anos. Mas esses só estão disponíveis para quem pode pagar por eles.

Para esconder essa gritante verdade, de que são os trabalhadores, os pobres, os negros, os moradores das periferias que sofrem as consequências nada naturais das chuvas de verão (essas sim naturais), a imprensa mostra como se a destruição causada pelas águas fosse "democrática", atacando igualmente todas as classes; e como se fossem incontrolável. Mas não vemos empresários milionários ou políticos como Dória e Alckmin sendo arrastados pelas águas, perdendo suas casas ou morrendo de forma bizarra como a mulher que foi soterrada por um muro. Os muros de Alckmin, Dória, Paulo Skaf não caem.

Há um ano o atual governador João Dória, então prefeito da cidade de São Paulo, deslocou cerca de 30 milhões do orçamento de ações contra enchentes, obras em pontes e terminais de ônibus para a sua secretaria de “desestatização e parcerias”, ou seja, de privatizações. Dados oficiais mostram que também nos últimos dois anos, junto Bruno Covas, seu sucessor na prefeitura, Dória gastou menos de um terço do orçamento destinado à esses serviços de infraestrutura que são fundamentais na prevenção e/ou diminuição dos prejuízos vindos com as chuvas de início de ano. Dos R$824 milhões destinados a obras de drenagens apenas 38% foi gasto, enquanto dos R$575 milhões previstos para obras e monitoramento de enchentes somente foram utilizados 35%. O resultado é que mais uma vez São Paulo e seu entorno está debaixo d’água, com mais de 600 postos de alagamento registrados e vítimas fatais.

Uma coisa é certa: não há futuro para a humanidade no capitalismo. Mas, o capitalismo não irá morrer de velho, ele precisa ser destruído. Suas contradições inerentes mostram seus limites e um novo ciclo de crescimento e expansão somente é possível com a destruição massiva das forças produtivas através de guerras, levando à destruição e mortes. A I e a II guerra mundial são exemplos desse poder destrutivo. A superação da ordem do capital só pode se dar através da luta de classes. O capitalismo produz seus próprios coveiros, a classe trabalhadora. Já é hora dos coveiros se unirem e sepultar de vez esse regime de opressão e exploração que não tem mais nada a nos oferecer.




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