Política

PRIMEIRA ANÁLISE

A conjuntura atual e os defensivos e confusos movimentos de uma Lava Jato ferida

Novamente o noticiário político dá um nó na cabeça em suas viragens e sucessão de fatos. Para tentar entender um pouco o que está acontecendo escrevemos umas primeiras considerações sobre a conjuntura.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quarta-feira 6 de setembro| Edição do dia

Foto: Jorge William/Agência O globo

Os eventos recentes mostram que Janot e a Lava Jato estão enfraquecidos. Joesley também. Nesse enfraquecimento partiram para táticas descoordenadas e agressivas, atacando para melhor se defender. As denúncias que fizeram, atingem um ao outro e enfraquecem a segunda denúncia que Janot deve apresentar contra Temer, aumentando ainda mais a chance que o presidente golpista sobreviva até 2018.

Porém, se falta força para Janot e Joesley realizarem seus planos individuais, eles têm força suficiente para seguirem “enlameando” todo regime, desta vez atingindo também o MPF e o STF. Tudo isso se combina a uma conjuntura marcada por medidas reacionárias contra os trabalhadores como a reforma trabalhista, o anúncio das privatizações e outras que são decorrentes/motivaram a permanência de Temer no poder. Garantindo ataques históricos Temer pode acalmar vozes dissonantes, como a Rede Globo, que estava ansiosa em sua destituição para garantir essas mesmas medidas, toda divisão tucana sobre a substituição de Temer foi trocada pela divisão sobre a sucessão no partido e quem será o candidato em 2018. O golpe dentro do golpe que tinha o trio Janot-Joesley-Globo como capitães não passou, e Temer pode continuar o capitão impopular dos ataques.

Antes de se aprofundar nestas considerações – iniciais – sobre a atual conjuntura e situação política, listamos a profusão de eventos ocorridos em poucas horas. Como a produção de notícias não é neutra, mas atende a interesses dos monopólios midiáticos, algumas delas nem chegaram a ganhar manchetes na grande mídia, mas são importantes para ter em mente os diferentes elementos na situação e conjuntura.

Em menos de 48 horas tivemos:

- O vazamento de novos áudios da JBS. Eles jogam suspeitas sobre as delações feitas por Marcelo Miller, ex-braço de direito de Janot na Lava Jato. Alguns políticos se entusiasmam e lançam a hipótese de pedir o cancelamento de todas delações e operações que o ex-procurador atuou, “zerando o jogo”.

Saiba mais sobre quem é Marcelo Miller, o braço direito de Janot que virou conselheiro da JBS

- Janot anunciando que quer rever o acordo com a JBS, procura assim “cobrir dois flancos” que o expunha a críticas e possíveis ações judiciais quando deixasse de ser Procurador Geral da República: sua relação com Miller e a estonteante impunidade que garantiu aos irmãos Batista. Avançar contra Miller e Joesley serve para salvar a própria pele, porém, para fazê-lo precisa mostrar mais e mais podres de mais instituições e políticos.

Saiba mais sobre o que já se conhece dos novos áudios da JBS

- A denúncia de Janot contra Dilma e Lula por desvios na Petrobras, serve tanto para mostrar que o Procurador não seria parcial, como também para dar um “confete” a sua ala no Ministério Público, buscando mantê-los como aliado nas batalhas que enfrentará ao deixar de ser Procurador Geral. Com tamanha “localização defensiva” da Lava Jato e Janot essa denúncia não parece ter mais força do que os processos da Lava Jato já em andamento.

- Da noite para o dia a Polícia Federal encontrou mais de 50 milhões em bunker atribuído ao aliado de Temer, Geddel Vieira. Essa operação se somou a outras menores, atingindo a família Alves do Rio Grande do Norte e o coronel da PM Paulista, João Baptista Lima Filho, todos aliados de Temer. A pronta resposta da Polícia Federal também atende a sua localização agressiva-defensiva frente à iminente intervenção que Temer fará na cúpula da tropa.

- Foi aprovada uma parte da reforma política com sua clausula de barreira para barrar a esquerda.

Saiba mais: [ Covil de Ladrões aprovam censura a esquerda com a reforma política > http://esquerdadiario.com.br/Covil-de-ladroes-aprova-censura-a-esquerda-com-a-reforma-politica]

- Foi aprovado o dinheiro do pacote de ataques ao Rio com novas medida em estudos como a privatização da UERJ e a demissão de servidores.

Saiba mais: Rodrigo Maia finge choro assinando acordo para demitir servidor e ameaçar a UERJ

- Em uma das maiores cidades do país, Campinas, foi aprovado o reacionário projeto "Escola sem Partido".

Saiba mais: A quem interessa o “Escola sem Partido” aprovado em Campinas

- Com o relógio contando para a implementação da reforma trabalhista, depois de meses de trégua traidora, sindicatos metalúrgicos chamam um dia “de protesto e paralisações” no dia 14 de Setembro. A CUT diz incorporar essa data em todas categorias, mas não há ainda um plano de luta. Até mesmo em categorias que começarão a sofrer os impactos desse ataque, nem para fazer desse dia um passo para romper a traição à vontade de luta que se expressou no 28 de Abril. Isso tem ajudado Temer e os capitalistas a avançarem em novos e maiores ataques.

Debilidades políticas da Lava Jato, Janot e de sua ala no Ministério Público

O motivo de fundo para a defensiva de Joesley, Janot e da Lava Jato não são debilidades jurídicas. A lei pouco importa. Não faltam provas diárias de como o STF atua à margem da lei ou a altera conforme os ditames políticos. A própria Lava Jato, Janot e nem falar os políticos capitalistas se opõe por interesses que não são do combate da corrupção, mas do lugar de cada um no regime, todos apoiando as medidas contra os trabalhadores.

Se o golpe no golpe houvesse triunfado, teríamos o retorno das Dez Medidas repressivas de Dallagnol e Companhia, teríamos Janot com uma espada na cabeça de cada político capitalista do regime. O Ministério Público, com seus próprios critérios e interesses políticos e materiais, atestaria quem seriam os "probos" e quem seriam os corruptos. O que tivemos foi o contrário, uma ofensiva para manter tudo como está, em especial a impunidade e os procuradores e juízes, acuados, contra-atacando como podem, com maior sucesso para atacar regimes partidários locais (Rio de Janeiro, Mato Grosso) mas pouca munição para um “ataque” nacional.

Entre a Lava Jato e a "casta política" há divergências sobre o rumo do regime político mas não em avançar em medidas repressivas, em atacar os direitos dos trabalhadores e promover uma ofensiva privatista no país. Divergem nos métodos, discursos e em que frações nacionais e estrangeiras beneficiar mas não nos objetivos de classe.

O único trunfo que resta ao "partido da toga" é o destino sobre Lula. Mas os passos da Lava Jato estão minados. Até mesmo a esposa de Moro parece implicada em enriquecimento ilícito segundo alguns jornalistas,.
Por outro lado, além de debilidades institucionais, a Lava Jato está em crescente descrédito popular. Até mesmo Sérgio Moro vem perdendo popularidade segundo pesquisas de opinião, como a realizada pelo Instituto Ipsos.

Saiba mais: Cresce a rejeição a todos políticos, até mesmo ao STF e à Lava Jato

Janot tentou implicar o STF nas novas gravações de Joesley Batista. Diversos ministros já reagiram energicamente. Sentem que sua instituição e seus poderes para “arbitrar” na situação política estão crescentemente questionados, o que demandará respostas contra Janot, Joesley e, talvez até mesmo alguns políticos citados, trazendo novas complicações no regime. Tal como aconteceu com as ações de Janot e Joesley, os próximos passos do STF em “sua própria defesa” podem resultar em ataques a outros. Os interesses já não convergem mais.

Temer sobrevive, os capitalistas conseguem mais ataques, mas ainda prevalecem as instabilidades da “crise orgânica”

Essas vitórias de Temer, contra Janot, contra a Lava Jato, contra os direitos dos trabalhadores, vão, no entanto, minando dia a dia o regime. Se a Lava Jato e o MPF não tem - aparentemente - forças para uma denúncia que destitua Temer, suas ações vão minando as credibilidades dos políticos, do STF e do próprio MPF. Desse modo a crise de legitimidade vai atingindo todas instituições.
Temer tem força, e consegue vitórias para se manter no cargo, mas não ganha sequer um átomo de apoio popular com sua vitória. Temer consegue o silêncio e a traição das centrais sindicais como a Força Sindical, CUT e CTB, impondo a reforma trabalhista. Mas isso não basta para criar hegemonia.

A crise econômica, política e social, permanece como uma característica instalada e de longo prazo. Os novos episódios dessa semana se inserem em uma série de "episódios" onde Temer parece sobreviver até 2018. O anúncio do dia 14 de setembro pela CUT como um “dia de luta” que vá além de ações dos sindicatos metalúrgicos é uma oportunidade para que possam ser movidas novas forças contra os ataques. Algumas categorias terão suas data-base já nas vésperas da vigência da reforma trabalhista. A defesa de seus direitos contra esses novos ataques pode ser uma oportunidade de começar a preparar o “contra-ataque” e influenciar outros setores. Mas para isso é preciso garantir que os limites colocados pelas centrais sejam ultrapassados, é preciso exigir a organização nas bases que seja condizente com um “dia nacional de luta”.

Os elementos de instabilidade dessa crise política, social e econômica ainda são muito pronunciados e podem reembaralhar as cartas da crise. O desfecho final segue em aberto. Os atores de cima batem cabeça porque seus interesses não coincidem. A confusa movimentação de Janot e Joesley atestam essa confusão. A resposta do STF pode afetar ainda o MPF que por sua vez também pode tomar novas ações, em uma espiral de interesses de “facção” contraditórios entre si. E também nós, atores de baixo, precisamos tirar lições da traição do caminho da greve geral para reorganizar a luta contra a reforma trabalhista e cada aspecto de tragédia que vai se multiplicando no país, dos cortes na saúde e educação, a escola sem partido, ao fechamento de universidades, ao parcelamento de salários em alguns estados.

Janot tem sempre uma gravação em sua manga para voltar à cena. Não falta a juventude e os trabalhadores um descontentamento que poderia explodir. É preciso atuar conscientemente para superar os limites colocados pelas centrais sindicais, por Lula, pelo PT, e tentar ajudar que isso ocorra.




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