Economia

CORONAVÍRUS

A classe trabalhadora precisa de ajuda direta, não de “estímulos” capitalistas

quinta-feira 19 de março| Edição do dia

Em confronto com uma recessão iminente, a classe capitalista estadunidense e os políticos que os servem estão trabalhando horas extras para proteger seus lucros e riqueza e manter seu sistema intacto. Porém, nenhuma das medidas de “resgate” apresentadas a cada trimestre têm o objetivo de proteger os interesses da grande maioria de trabalhadores e das outras pessoas que sofrem as maiores ameaças econômicas da pandemia do coronavírus.

A administração de Trump está, enquanto este texto é sendo escrito, trabalhando para criar uma legislação de “estímulo de emergência” para que o congresso aprove e o presidente assine. Na tarde de terça-feira, 17 de março, o pacote estava se tornando cada vez mais complexo enquanto mais e mais elementos de “resgate” foram adicionados a pedido de vários setores da economia capitalista. Como Politico noticiou, estava “pronto para entrar rapidamente no território dos trilhões de dólares nos próximos dias, o maior resgate na história americana moderna, conforme as principais indústrias abarrotam o governo Trump e o Capitólio de pedidos de ajuda enquanto grandes áreas da economia ficam estagnadas devido a crise do coronavírus.”

Vamos analisar o que está sendo proposto e fazer uma pergunta direta: aos interesses de quem essas medidas servem? O ponto de partida para chegar a uma resposta é entender que em todos os casos, essas medidas envolvem usar nosso dinheiro e entregá-lo para os patrões – com apenas algumas exceções propostas para devolver um pouco disso diretamente para alguns de nós. O governo não tem dinheiro próprio. Ponto final. O que tem veio de nós.

Primeiro, a Câmara dos Deputados enviou ao Senado, no final da semana passada, um pacote de subsídios por doença, comida de emergência e testes gratuitos para o coronavírus. Esse já foi tesourado pelos republicanos, que retiraram a maioria das licenças médicas remuneradas garantidas, que cobririam apenas um quinto de todos os trabalhadores. "É bem-estar", reclamou pelo menos um republicano, mas o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, avisou seus colegas, "façam silêncio e votem a favor de qualquer maneira.".

Foi o que eles fizeram em 18 de março, mas o plano de Nancy Pelosi nunca salvaria o capitalismo. É aí que entra a última proposta – um movimento desesperado para tentar parar uma recessão.

Desespero capitalista

Primeiro, enviar cheques. No final da manhã de 18 de março, o Departamento do Tesouro anunciou que queria distribuir US$ 250 bilhões em pagamentos diretos a partir de 6 de abril, e outros US$ 250 bilhões em 18 de maio. Esses seriam cheques enviados a indivíduos com o objetivo de colocar algum dinheiro em nossas mãos para que possamos comprar coisas e cobrir nossas despesas regulares.
A população dos EUA é de aproximadamente 330 milhões de pessoas. Pagamentos totalizando US$ 250 bilhões significariam menos de US$ 700 por pessoa. Mas não é assim que funciona. Uma família de seis filhos e dois adultos receberia a mesma quantia que um indivíduo sem filhos. E a ideia de que o governo enviará esses cheques a todos é, francamente, ridícula. Sem mencionar que não é suficiente para cobrir as despesas da maioria das pessoas sob nenhuma circunstância, e a situação atual é aquela em que as pessoas estão perdendo sua renda rapidamente, de modo que essas despesas e necessidades estão se acumulando. Além disso, 6 de abril é daqui a quase três semanas!

O que mais há na proposta do Departamento do Tesouro? Existem outros US$ 200 bilhões em "ajuda à indústria", incluindo US$ 50 bilhões em empréstimos para o setor de transporte aéreo. As companhias aéreas não são as únicas empresas que estão de olho nos nossos impostos. Como informou a Associated Press, "uma lista das grandes e pequenas indústrias americanas - companhias aéreas, hotéis, varejistas e até cassinos – fazem fila para obter ajuda esperada".

Os primeiros relatórios são de que existem condições relativas aos salários dos executivos, mas se você acha que os CEOs serão forçados a sofrer da mesma forma que a classe trabalhadora, está sonhando.

Trump também está ansioso para incluir algum tipo de redução de impostos, sobre o qual ele está falando desde o início da crise e que ele claramente vê como benéfico para sua campanha de reeleição. Em 10 de março, ele propôs um corte nos impostos sobre os salários para durar "pelo menos até a eleição", como publicado na NBC News. Os impostos sobre os salários, distintos dos impostos sobre o rendimento, são as deduções que saem do seu salário para financiar o seguro social e são combinadas pelos empregadores.

Isso é uma boa notícia inesperada para os chefes que nada fariam para ajudar os trabalhadores economicamente mais vulneráveis. Obviamente, isso se aplicaria apenas aos trabalhadores que realmente recebem salários, por isso não faria qualquer diferença para os milhões de trabalhadores que serão demitidos. No nível mais estrutural, como mostra um estudo do Penn Wharton Budget Model (PWBM), não ajudará nem mesmo as famílias de baixa renda que continuam a receber salários. “As famílias dos 20% inferiores da renda - aquelas com maior disposição para gastar sua economia de impostos - receberiam cerca de 2% da redução total de impostos…” e “apenas 33% desse grupo receberia qualquer redução de impostos , como muitas das famílias de baixa renda não têm salário nem ganhos por conta própria e, portanto, não pagam impostos sobre os salários nos termos da lei atual. ”

Não está claro se o Congresso aceitará essa parte da proposta de Trump, mas muitas outras medidas estão sendo tomadas para proteger os capitalistas. Em 15 de março, o Federal Reserve lançou um novo programa de empréstimos, o Fundo de Financiamento de Papel Comercial (Commercial Paper Funding Facility), para garantir que as grandes empresas tenham acesso a dinheiro. O Departamento do Tesouro disponibilizou US$ 10 bilhões do seu Fundo de Estabilização de Câmbio. Mais uma vez, esse é o nosso dinheiro.

Isso tudo está condensado em uma declaração simples feita por Richard Prisinzano, diretor de análise de políticas da PWBM, para o Yahoo! Finance. A proposta de Trump é "direcionada para o topo".

Déjà Vu, mais uma vez

Diante de uma pandemia global que promete causar estragos econômicos à grande maioria das pessoas por muito tempo, os capitalistas estão ocupados elaborando cuidadosamente soluções fragmentadas destinadas a reforçar sua propriedade privada, mantendo a transferência contínua da riqueza global para um número relativamente pequeno de pessoas no topo e jogando trocados suficientes para nos impedir de tomar as coisas em nossas próprias mãos.

Já estivemos aqui antes, não faz muito tempo. Nas palavras do imortal jogador de beisebol Yogi Berra, "é como o déjà vu mais uma vez". O ano era 2008 e, em 15 de setembro, Lehman Brothers - o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos - entrou com pedido de proteção contra falência. Estava afundando tão rápido quanto o Titanic, seus clientes tentando não se afogar, seu estoque de ações no mercado e seus ativos sujeitos a uma enxurrada de desvalorizações por agências de classificação de crédito. O resultado imediato foi que os mercados globais entraram em colapso.

Assim como as vítimas do coronavírus em Wuhan, China, o Lehman Brothers foi a primeira grande vítima de um vírus mortal. Como o COVID-19, era um agente infeccioso que se replica dentro de organismos vivos. Mas em 2008, o organismo vivo era o sistema econômico capitalista global, e o vírus específico foi gerado não organicamente, mas por especulações capitalistas e excesso de riscos nas hipotecas subprime. Lehman foi o proverbial "canário na mina de carvão". Seu legado cresceu rapidamente, tornando-se uma crise bancária internacional, que levou a resgates maciços de instituições financeiras - baseada na ideia de “grande demais para falir” promovida pela classe capitalista dos EUA. Seguiu-se uma desaceleração econômica global, que abriu um período agora conhecido como "Grande Recessão" - um período de declínio econômico que o Fundo Monetário Internacional descreveu como "de longe a recessão global mais profunda desde a Grande Depressão." ¹ Até hoje, a maioria dos economistas consideram ter sido a segunda pior desaceleração da história.

O argumento “grande demais para falir” se tornou o favorito dos capitalistas. É assim: existem certos atores na economia - corporações muito grandes e instituições financeiras em particular - que desempenham um papel tão central, que estão tão interconectados com todos os outros aspectos da economia global que, se permitirmos que eles entrarem colapso em uma crise, o efeito cascata poderia potencialmente derrubar todo o sistema econômico, com perdas devastadoras. Essas instituições financeiras controlam as alavancas da economia capitalista: elas mantêm a dívida dos governos; capitalizam os principais projetos dos capitalistas; eles são os principais financiadores de setores industriais inteiros; e mais importante, eles são o principal canal para os benefícios que se acumulam na pequena fração da população do planeta que controla quase toda a riqueza, tanto monetária quanto em recursos.
O fracasso, argumentam os capitalistas, não pode ser uma opção. Em uma crise, eles precisam de proteção do governo, não apenas na forma de políticas econômicas, mas também com infusões diretas de dinheiro do próprio governo.

Obviamente, os governos realmente não têm seu próprio dinheiro. Esse dinheiro é seu e meu.

A infusão após o colapso do Lehman ocorreu muito rapidamente, na forma do “Ato de Estabilização Econômica de Emergência de 2008”, assinado em 3 de outubro. Seus US$ 700 bilhões foram usados primeiro para comprar títulos de hipotecas que corriam o risco de inadimplência; pegando os bancos, fundos de cobertura e fundos de pensão que os mantiveram fora da forca, em um esforço para renovar a confiança no sistema bancário global e acabar com a crise financeira. Mas houve mais, incluindo o resgate direto de uma companhia de seguros gigante, a AIG, no valor de US$ 68,7 bilhões e outros US$ 80,7 bilhões para impedir que as três grandes montadoras americanas - Ford, General Motors e Chrysler - falissem.
Novamente, o argumento era "grande demais para falir". Não podemos permitir que os efeitos cascata destruam a economia capitalista mundial. Deixando de lado que a própria ideia de tal intervenção governamental se opõe à insistência do capitalismo de que o melhor é sempre deixar o mercado "funcionar", essas infusões de dinheiro dos contribuintes serviram para garantir que os gigantes do capitalismo pudessem continuar gerando lucros e dividendos para os mais importantes acionistas - membros da própria classe capitalista, em seus escalões mais altos. Claro, alguns empregos foram salvos, mas isso foi uma reflexão tardia. E, com certeza, um pouco de dinheiro foi usado para ajudar uma pequena porcentagem dos americanos da classe trabalhadora cujas casas enfrentavam reintegração de posse. Mas a massa esmagadora foi diretamente para os bolsos das pessoas mais ricas.
Em pouco tempo, os grandes banqueiros e financiadores já estavam conversando sobre os bônus que dariam a si mesmos por terem salvado a economia e suas empresas - novamente, com o nosso dinheiro.

E é aqui que estamos de novo.

E agora?

São em momentos como esses que a incapacidade e falta de vontade do capitalismo de enfrentar os problemas que afetam a maioria da população permanece imutável. Se proteger a propriedade privada, os lucros e a desigualdade de riqueza fazem parte da equação, significa morte e destruição. As pessoas vão matar de fome quem poderia ter sido alimentado. Pessoas que poderiam ter mantido um teto sobre suas cabeças serão expulsas de suas casas. Morrerão pessoas que poderiam ter sido salvas.

Em 17 de março, a Left Voice propôs “Um programa de emergência de 10 pontos para combater a epidemia de coronavírus nos EUA" Ele define medidas básicas para "enfrentar a emergência de saúde, atender às necessidades das famílias da classe trabalhadora e fornecer ... segurança básica de renda e condições de vida à grande maioria da população". É da real "mobilização de guerra" que precisamos para enfrentar o coronavírus nos interesses da classe trabalhadora, não para proteger os chefes.

O crescimento exponencial no número de pessoas infectadas significa que o tempo está se esgotando. Se alguma vez houve um tempo para colocarmos nossa fé e energia em nossa própria capacidade, como classe, de resolver nossos próprios problemas e nos emancipar das correntes de um sistema que agora está literalmente com o objetivo de levar a morte até nossas portas, é agora.

Notas
1. ↑ International Monetary Fund, “World Economic Outlook – April 2009: Crisis and Recovery,” April 14, 2009.

Texto publicado originalmente no portal Left Voice, parte da rede internacional de diários Izquierda Diario, por Scott Cooper.




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