Internacional

ELEIÇÕES ESTADOS UNIDOS

A chave do triunfo de Trump e o mundo que vem em seguida

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

quarta-feira 9 de novembro| Edição do dia

O impensável deixa de sê-lo quando se torna realidade. Contra todos os prognósticos e os usos e costumes da correção política, Donald Trump se tornou o 45° presidente dos Estados Unidos e, portanto, o homem que ocupa a posição de poder mais importante do mundo.

E isso não é tudo. Os Republicanos se levantaram, com a maioria em ambas as câmaras e, portanto, têm a capacidade de formatar a Corte Suprema com uma maioria de juízes conservadores. Quer dizer que a soma do poder estatal da principal potência imperialista está agora sob comando da fração de extrema direita do bipartidarismo norte americano. Embora ainda está por vir a resposta do Partido Republicano, que se opôs majoritariamente a liderança de Trump e que não compartilham o fundamental de seu programa político.

Já é senso comum que a força que levou Trump a presidência é uma profunda "revolta populista" de uma multidão de descontentes que encontraram neste magnata xenófobo, racista e misógino, um veículo para expressar sua bronca contra o stablishment político de ambos os partidos. Foi um tapa na cara dessa elite, para a qual os milhões de trabalhadores e setores médios, que tem perdido seus empregos ou temem perdê-los e que não tem visto nenhum progresso a décadas, tem sido invisíveis.

OS grandes meios liberais o diagnosticam de "narcisista". Na realidade mais que uma patologia psiquiátrica, a de Trump, é demagogia política clássica. Isso explica a contradição aparente de que o líder deste protesto contra o stablishment seja nada menos que um dos empresários mais ricos do país. Sem dúvida Trump interpretou a disposição da América do Norte branca postergada a encontrar um "salvador". Se põe assim no lugar do "homem forte" que usa seu enorme poderio econômico e seu êxito pessoal como garantia de sua capacidade para aplicar grandes soluções: construir um muro na fronteira com o México, deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, aplicar uma tarifa de 35% às importações chinesas, recusar os protocolos contra as mudanças climáticas, fazer com que voltem os velhos empregos perdidos nos Estados Unidos.

Se bem as razões que levaram a uma maioria de norte americanos a votar por Trump são em uma primeira leitura domésticas, estão relacionadas com a decadência do poderio norte americano no mundo e o fracasso da política exterior de "centro" que levou adiante Obama para recompor, com métodos defensivos - degelo em Cuba, acordo nuclear com Irã - mas ofensivos no conteúdo - tratados de livre comércio, articulações com a Ásia - , a liderança dos Estados Unidos, seriamente questionada pela estrondosa derrota da política guerreirista de Bush (Afeganistão, Iraque, e a guerra "preventiva").

Não é casual que o principal slogan da campanha de Trump foi "voltar a fazer grande os Estados Unidos" pela via do isolacionsimo seletivo no uso do poderio militar, o protecionismo econômico contra competidores como a China e sócios como México, e a reafirmação dos valores "norte americanos" - ou seja, conservadores, - frente a ameaça do "outro": imigrantes, minorias diversas (negros, diversidades sexuais etc).

Ainda em campanha, quando todavia era o candidato improvável, Trump antecipou que seu triunfo seria "um Brexit multiplicado por três". Mesmo que fique aquém disso. O impacto deste giro brusco na política norte americana é certo que terá consequências geopolíticas de largo alcance, e provavelmente é a mostra mais contundente de que as bases da ordem neoliberal, que comandava os Estados Unidos desde seu triunfo na Guerra Fria dos partidos do "extremo centro", foram carcomidas pela crise capitalista de 2008.

Neste sentido confirma e reforça a mensagem do Brexit e do ascenso de outras caricaturas de Trump no mundo, como os partidos da extrema direita europeia: a Frente Nacional, o UKIP, os partidos xenófobos da Europa do Leste e também as frações mais extremas das direitas clássicas.

Se abriu uma etapa de maiores tensões interestatais em que estão inscritos conflitos econômicos e militares de envergadura e "soluções de força" frente ameaças de luta de classes, onde apesar de existir polarização, é a extrema direita que por hora tem a vantagem, frente a uma centro esquerda tímida que segue sendo uma variante dos partidos social liberais.

A virada dramática nos Estados Unidos segue um padrão similar ao da América Latina, onde os governos "populistas" da última década mantiveram intacto o poder dos capitalistas e, quando estalou a crise, começaram a aplicar ajustes como fez Dilma no Brasil, e prometia fazer Scioli na Argentina, abrindo as portas a Direita.

Isso nos leva a uma das principais conclusões que se desprendem do triunfo de Trump para quem luta contra essa sociedade capitalista

Obama Assumiu em condições excepcionais. Entusiasmou uma ampla coalizão de jovens, trabalhadores, mulheres, negros e imigrantes com a promessa de uma saída reformista progressiva a crise capitalista e as guerras imperialista.

Mas desiludiu resgatando Wall Street e as grandes corporações com dinheiro público, enquanto milhões de estadunidenses comuns viam suas casas se desfazerem, seus empregos e seu nível de vida, com uma direção sindical que há tempo vendeu suas alma as patronais e tolera os empregos precários como o "modelo Wallmart" resultando que apenas 6% dos trabalhadores do setor privado sejam sindicalizados.

Se Obama havia encarnado a "ilusão populista" pela esquerda, Hillary Clinton era a restauração do stablishment corporativo e guerrerista, confirmação de que não há outra coisa do que a política de costume. Nem a burocracia política nem os grandes meios de corporativos nem os pesquisadores foram capazes de registrar o profundo rechaço a este status quo que encontrou expressão pela extrema direita de Trump

Era inevitável este giro? Ainda que pareça improvável, não era de nenhuma maneira. A emergência da candidatura de Bernie Sanders na primária democrata foi a surpresa pela esquerda. Sanders se definia como "socialista democrático" ainda que isto em sua concepção não era mais que uma reedição de políticas redistributivas tradicionais do Partido Democrata. Denunciou Hillary Clinton como parte da elite a serviço das corporações e dos bancos. Em sua campanha tomou reivindicações como o salário mínimo de U$15,00. E com esse discurso entusiasmou uma nova geração. Esmagou Clinton entre os jovens menores de 30 anos e inclusive ganhou nos estados do velho cinturão industrial. De fato nas primárias teve quase o mesmo número de votos que Trump, cerca de 14 milhões.

Sem dúvida toda essa força e este entusiasmo se dissolveu. Sanders mostrou o que era: apoiou Clinton sem pestanear e se esqueceu de sua prometida "revolução política". Se subordinou aos mesmos agentes das corporações que denunciou em sua campanha. Desta maneira, deixou a Trump com as bandeiras do descontentamento contra a casta política e a desigualdade obscena.

É verdade que a classe operária, principalmente industrial, não se recuperou da derrota da década de 1980 que abriu o caminho ao neoliberalismo. Mas nada diz que necessariamente os setores de "calças azuis" votariam quase que unanimemente em Trump se houvesse existido uma alternativa de esquerda ao bipartidarismo capitalista.

Historicamente, os movimentos populistas surgem como resposta a crises profundas e polarização social e política. Em certo sentido, Trump não caiu do céu, e foi largamente anunciado pela emergência do Tea Party ( ainda que isso não era antagônico a "globalização e tinha base social em pequenos empresários", a direitização do partido republicano e a reemergência de uma direita ranzinza, a chamada "alt right", composta de supremacistas brancos e outras delícias.

Sem dúvidas é um sintoma da decadência norte americana e um profundo impacto de décadas de reação política. O fato de que Trump tenha conseguido canalizar a frustração dos setores mais atrasados dos assalariados e das classes médias na xenofobia e o protecionismo é um chamado de atenção, um alerta para os explorados e oprimidos . Estamos ante a perigosa fragmentação entre a classe operária e seus aliados, as minorias negras e latinas, as mulheres. Mais do que nunca é necessário construir fortes partidos de esquerda operária e revolucionária que recomponham a unidade dos explorados e oprimidos a nível nacional e internacional, e permitam articular a única força social e política poderosa para derrotar o poder dos capitalistas, sejam eles demagogos populistas como Trump ou reacionários ocultos atrás de máscaras progressistas como Clinton que tem seus imitadores em quase todo o mundo.




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