Gênero e sexualidade

ELEIÇÕES ESTADOS UNIDOS

A candidata das mulheres foi derrotada?

Donald Trump ganhou as eleições nos Estados Unidos. Entre a decepção dos setores progressistas, aparece a pergunta, era Hillary Clinton a candidata das mulheres?

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

quinta-feira 10 de novembro| Edição do dia

Contrário a todos os prognósticos, Donald Trump ganhou as eleições nos Estados Unidos. O republicano foi muito claro em respeito a sua opinião sobre as mulheres com comentários misóginos e sexistas mas, a candidatura de Clinton representava as causas das mulheres?

Muito falaram em "façanha" e "empoderamento" quando o Partido Democrata nomeou a Hillary Clinton como candidata, a primeira dama, Michelle Obama, disse que graças a Clinton, suas filhas " podem dar por certo que uma mulher pode se converter uma presidenta". A mesma "inspiração" despertou em feministas, celebridades e vários setores que se iludiram com a chegada de uma mulher a um dos postos de maior poder nos Estados Unidos e no mundo.

Mas nos Estados Unidos da polarização social e da desigualdade, muitas mulheres deram as costas a Clinton. Nas eleições primárias, muitas apoiaram o Senador Barnie Sanders ( majoritariamente entre as jovens, em geral votaram por Sanders em uma proporção de 70-30). Nas eleições presidenciais, 54% das mulheres votaram nela, contra 55% que haviam apoiado Obama na última eleição presidencial.

Mas o mais chamativo foi que a possibilidade da chegada de uma mulher a Casa Branca não despertou entusiasmo entre muitas mulheres para quem pesou mais a imagem de Clinton como representante do establishment.

Clinton polarizou o voto feminino, um dos maiores blocos eleitorais: as jovens a vêm como representante de um feminismo "neoliberal" ( das mulheres brancas de classe média, que despreza os problemas e demandas das trabalhadoras e das minorias étnicas). As latinas votaram em Clinton mais não esmagadoramente, possivelmente a única exceção seja a comunidade negra onde o Partido Democrata tem um peso tradicional onde a candidata acabou por ser vista como mal menor.

Era Clinton a opção para as mulheres?

O sentido comum poderia responder rapidamente sim, porque o oponente era Donal Trump, famoso por sua retórica misógina e reacionária. E porque é certo que as mulheres foram bucha de canhão na campanha republicana. Seus direitos são depreciados, junto com os da comunidade afroamericana e latina. Mas, se traduzia isso em um apoio a Clinton? A resposta foi NÃO.

Uma campanha feminista?

Clinton lançou sua campanha com a imagem de um cristal irrompendo em pedaços, uma uma clara alusão a ideia de "romper com os tetos de vidro" ( que representam os limites das mulheres para acender aos altos postos), também com imagens das sufragistas e o movimento feminista dos anos 60. Clinton sabia a quem se dirigia, mas os democratas de conjunto subestimaram o peso negativo de sua imagem como parte da elite.

Spot da campanha de Hillary Clinton.

Especialmente para as jovens não bastou que Hillary fosse mulher; esperavam que sua plataforma defendesse os direitos da maioria das mulheres. E Hillary está longe de fazê-lo, identificado com Washington e Wall Street. Uma jovem feminista a definia da seguinte forma: "É verdade que Clinton seja mulher, mas também é branca, rica, privilegiada e heterossexual".

Para muitas feministas, a chegada de Clinton ao poder era a oportunidade de demostrar a forma como as mulheres lidam com os problemas - implicitamente, de forma diferente dos políticos e funcionários homens- . Mas a trajetória de Clinton não mostrava nada disso.

As jovens que cresceram sobre os governo da família Clinton e Bush sabem que apoiou as leis como a DOMA; que declarava que nenhum estado estava obrigado a reconhecer uma relação entre pessoas do mesmo sexo; ou a reforma da lei do sistema criminal que resultou no encarceramento massivo de jovens afroamericanos e latinos, entre eles muitas mulheres.

Em 2011, Hillary Clinton foi uma das três mulheres que aconselharam Obama bombardear a Líbia (em meio a ’Primavera Árabe’ em toda a região). Clinton (então secretária de Estado), Samantha Power (Conselho de Segurança Nacional) e Susan Rice (Embaixadora dos EUA na ONU) estiveram a frente das operações militares.

Em 2011, Hillary Clinton foi uma das três mulheres que aconselharam Obama bombardear a Líbia.

A pergunta afinal é: mulheres em postos de poder significam um avanço na luta contra a discriminação e o machismo? Sim e não. Sim, porque mostra que as mulheres ao longo da história mediante a mobilização conquistaram lugares que antes eram vedados a eles (até hoje não teve nenhum direito dado). E não, porque sua presença nestes postos de poder, nos estados capitalistas, só colabora com a manutenção e reprodução da ordem social atual, que segue apoiando-se na exploração e na desigualdade das grandes maiorias, onde as mulheres levam a pior.




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