Teoria

DOSSIÊ TROTSKI - 76 ANOS

A burguesia não precisou de partido para fazer sua revolução: e quanto aos trabalhadores?

Se um dia a burguesia fez a revolução sem partido, se revoluções sociais venceram sem partido, não será o momento, na perspectiva das forças de esquerda, de passar a considerar a hipótese de que grandes explosões populares poderiam resolver a questão do poder?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 27 de agosto| Edição do dia

Para a classe dominante, ter ou não ter um partido político não é uma questão política decisiva diante das grandes encruzilhadas históricas. No caso do Brasil, tanto no golpe de 1930, de 1937 quanto no de 1964, em diferentes momentos de nossa história, os senhores da economia recorreram ao seu “partido em última instância”, o aparato militar.

Na história mundial do capitalismo, tampouco foi um problema crucial que a classe dominante na economia tivesse ou não construído um partido político a tempo.

Os franceses de 1789, como também se sabe, levaram adiante sua revolução burguesa sem partido político prévio, embora, é claro, afloraram diferentes correntes políticas que lutaram entre si.

Não consta que ingleses, alemães, italianos, cada um em seu momento, tampouco contassem com partido político previamente organizado para vencer o feudalismo e impor a sociedade dirigida por uma nova classe, a burguesia.
Eclodiram sim explosões populares através das quais – ou com base nas quais - determinadas frações burguesas se adiantaram e, no seu devido momento, tomaram posse do poder político.

E por parte da esquerda, como fica a questão do partido?

Boa parte da esquerda repele essa ideia do partido ou, à sua maneira, defende partidos amplos, sem delimitação de classe, onde entram reformistas e revolucionários. Ao mesmo tempo em que na agenda revolucionária do século XX, revoluções – como a cubana – foram feitas sem partido prévio.

Daí, mesmo na esquerda, há quem se pergunte: nas condições históricas modernas, não será que os povos do mundo amadureceram, e a burguesia aprendeu que, por exemplo, diante de uma greve geral é melhor recuar e entregar o poder aos grevistas? Portanto, não poderia a nova classe revolucionária vencer e se consolidar sem partido político prévio? E não será que certo marxismo do século XXI repensou a questão do partido e passou a ver nessa mesma linha, a partir dos novos elementos? Mészàros, por exemplo, propõe outra coisa e, em seu momento apoiou expressamente ao chavismo e flertou com o lulismo como se fossem saídas políticas do tipo bonapartista, que dispensassem o partido; além de propagandear que em nosso tempo emergem outros atores sociais e que temos que repensar Lenin.

Colocando de outra forma, se um dia a burguesia fez a revolução sem partido, se revoluções sociais venceram sem partido, não será o momento, na perspectiva das forças de esquerda, de passar a considerar a hipótese de que grandes explosões populares poderiam resolver a questão do poder? Afinal, a força propulsora da revolução – seja burguesa ou proletária – não é a massa?

No caso do Brasil, onde a massa proletária é maioria, a nação é urbanizada e no imaginário popular, a cidade é hegemônica, cultural e politicamente, não bastaria uma grande rebelião urbana, um mega-junho de 2013 e uma greve geral para que o poder passe às mãos do povo e dos trabalhadores?

Tomemos um autor clássico.

Vejamos, por exemplo, o que pensava Trotski, em seu Lições de Outubro [1924], sobre esse tema do papel do partido na revolução proletária:

“A revolução proletária não pode triunfar sem o partido, contra o partido ou através de um sucedâneo dele. Este é o principal ensinamento dos últimos dez anos.

É certo que os sindicatos ingleses podem tornar-se uma poderosa alavanca da revolução proletária; em certas condições e durante um determinado período, poderão até, por exemplo, substituir os sovietes operários. Mas, sem o apoio do partido comunista e, com mais forte razão, contra ele, não serão capazes disso; só se a propaganda comunista se tornar preponderante no seu seio é que poderão desempenhar esse papel. Pagamos demasiado caro esta lição sobre o papel e importância do partido, na revolução proletária para que não a levemos em conta integralmente.

Nas revoluções burguesas, a consciência, a preparação e o método desempenharam um papel muito menos relevante do que são chamados a desempenhar e já desempenharam nas revoluções do proletariado. A força motriz da revolução burguesa foi também a massa, mas muito menos consciente e organizada do que nos nossos dias. A direção pertencia às diferentes frações da burguesia, que dispunham da riqueza, da instrução e da organização (municipalidades, universidades, imprensa etc.). A monarquia burocrática defendeu-se empiricamente, agindo completamente ao acaso. A burguesia escolheu o momento favorável em que pudesse, explorando o movimento das massas populares, lançar todo o seu peso social no prato da balança e conquistar o poder.

Porém, na revolução proletária, o proletariado é não só a principal força combativa, mas também, na pessoa da sua vanguarda, a força dirigente. Só o partido do proletariado pode desempenhar na revolução proletária o papel que o poderio da burguesia, a sua instrução, as suas municipalidades e universidades desempenharam na revolução burguesa. O seu papel é tanto maior quanto mais formidavelmente recrudesceu a consciência de classe do seu inimigo.

Ao longo de séculos de dominação, a burguesia elaborou uma escola política incomparavelmente superior à da antiga monarquia burocrática. Se o parlamentarismo foi, até certo ponto, para o proletariado, uma escola de preparação para a revolução ainda foi mais uma escola de estratégia contrarrevolucionária para a burguesia.

Como prova, basta indicar que foi pelo parlamentarismo que a burguesia educou a social-democracia, hoje em dia a mais poderosa proteção da propriedade individual.

Tal como as primeiras experiências provaram, a época da revolução social na Europa será uma época de batalhas, não só implacáveis, mas também calculadas, muito mais calculadas do que entre nós, em 1917”.

A classe trabalhadora sofreu amargas derrotas ao longo do século XX e especialmente nas suas últimas décadas. Muitas dessas derrotas vieram lado a lado com a deformação de origem do seu partido, a exemplo do Vietnã etc, partido que levou corajosamente adiante o combate, mas terminou se prostrando diante do capital e do capitalismo. São partidos autoproclamados comunistas, mas que não desenvolvem, para nada, o poder soviético, a democracia proletária. E nem assumem essa estratégia.

E acontece que esses elementos são inseparáveis, partido e órgãos da democracia proletária não são concepções separadas no tempo. E por essa razão Trotski será o continuador da Revolução Russa na questão do partido, mas sobretudo da concepção de Lenin [sovietes+partido].

No argumento de E Albamonte, citando Trotski, este dirá, a respeito da relação entre soviete e partido, baseando-se na experiência da Revolução Russa: “Seria um erro evidente identificar a força do partido bolchevique com a dos sovietes aos quais dirigia: estes últimos representavam uma força infinitamente mais poderosa; mas faltando-lhes o partido se tornavam impotentes. A partir daí Trotski será um militante convicto da ideia de partido leninista de combate”.

Portanto, defensor do partido revolucionário como força política fundida no proletariado, com delimitação de classe, buscando a aliança operário-estudantil-camponesa, e em luta por instituir uma democracia de novo tipo, soviética.

G Dantas
Brasília, 26/8/16




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