ELEIÇÕES EUA

A bancarrota do mal menor

Votar em Hilary Clinton como o mal menor não derrotará o movimento reacionário que Trump representa. Apenas canaliza o descontentamento para fora das ruas, esconde o desenvolvimento de uma alternativa da classe trabalhadora, e despeja sua fé em uma líder diametralmente oposta a nossos interesses.

quinta-feira 3 de novembro| Edição do dia

Reproduzimos o artigo publicado originalmente em inglês em Left Voice, parte da rede do Esquerda Diário.

Em cada temporada de eleições, incontáveis liberais e inclusive muitas figuras que se consideram parte da esquerda, nos chamam a votar nos candidatos pelo partido democrata, enquanto admitem que esses candidatos tenham muitas debilidades, como um mal menor aos republicanos. Este fenômeno não é novo. Pelo contrário, é quase tão velho quanto o sistema bipartidário. Ainda assim, a exortação para se votar nos democratas foi particularmente intensa esse ano, com o surgimento de Donald Trump, um dos candidatos mais reacionários que o GOP nomeou em décadas.

Não negamos as óbvias diferenças que existem entre Clinton e Trump. Trump pede a deportação de 11 milhões de imigrantes sem documentos e a construção de um muro impenetrável através de toda a fronteira mexicana. Também anunciou que vai restringir a entrada de qualquer muçulmano no país. Desferiu incontáveis comentários misóginos, se gabou de atacar sexualmente mulheres e declarou que deveria haver um castigo as mulheres que praticam o aborto. Clinton, cujos crimes discutiremos em um momento, todavia mantém os votos das mulheres, latinos e dos afro-americanos e, não pode e não fará esse tipo de discurso racista e sexista. Dito isto, seria obviamente incorreto por no mesmo nível Clinton e Trump.

Ainda assim, estas diferenças não fazem de Clinton uma alternativa para os trabalhadores, as mulheres e as minorias oprimidas. O longo legado de Clinton como primeira-dama, senadora e secretária de estado, apontam a uma política que constantemente atuou de acordo com os interesses dos grandes empresários e contra os direitos da classe trabalhadora.

Como primeira-dama, deu sua bênção aos cortes em direitos sociais para os pobres que realizou Bill Clinton, através dos quais se planejava levar ao “fim da assistência social como a conhecemos”. Teve êxito em sua missão. Menos de um quarto das famílias que h/oje vivem na pobreza recebem assistência econômica. Apoiou com sua firme Carta do Crime, que levou a construção de mais pressões, fazendo com que mais crimes fossem castigados com a pena de morte, e levou a encarceramento de mais de um milhão de pessoas na década seguinte. É conhecido também o fato de ter apoiado muitos acordos de livre comércio que reduziram os salários dos trabalhadores – tanto no EUA, como em outros países, piorando as condições de trabalho, e destruindo as proteções ao meio ambiente, ainda ajudava a criar um recorde de ganhos para as corporações multinacionais. O mais notável desses acordos foi o NAFTA, firmado por Bill Clinton em 1993 com o apoio da então primeira-dama. O acordo não só levou a baixar a pressão dos salários nos Estados Unidos, como também coincidiu com o aumento dos preços da comida, a baixa dos salários e o incremento do desemprego no México. Hillary Clinton apoiou múltiplos, ainda que poucos conhecidos, acordos de comércio no senado, inclusive durante sua batalha com Barnie Sanders nas primárias no princípio do ano, como o que apoiou o TPP (Acordo de Livre Comércio Trans pacífico) decidindo que era “um estandarte de ouro nos acordos comerciais”.

Como secretária de estado, Clinton levou uma estratégia de mudança de regimes não muito diferente a que levava Bush durante sua administração nos anos anteriores. Seu escritório financiou e respaldou o golpe de estado contra o presidente de Honduras Manuel Zelaya e a repressão que seguiu o golpe, assim como a remoção do Presidente Fernando Lugo no Paraguai. Agitou as águas para o bombardeio na Líbia e a queda de Gaddafi, com as sangrentas sequelas que continuam a sangrar hoje em dia.

E como presidente, Clinton afirma que quer continuar o legado de Obama, um legado que inclui a maior deportação de imigrantes na história dos Estados Unidos, a expansão de programas de vigilância a níveis sem precedentes, o bombardeio e massacre em ataques de Drones no Oriente Médio, milhares de dólares ao apartheid israelense, a junta militar no Egito, e regimes repressivos e autoritários ao redor do mundo, junto com o recrutamento de milhares de jovens norte americanos a cada ano em sua grande maioria negros e latinos, e geralmente pondo o futuro do nosso planeta na expansão do franking (extração de óleo e gás subterrâneo, altamente poluente) e da mineração a céu aberto.

Tudo isso é verdade, vão dizer estes “progressistas” mas, “Não é Clinton ligeiramente melhor que Trump?” Inclusive a menor diferença entre os candidatos devem ditar que votemos pelo mal menor, dizem. Depois de tudo, um desses candidatos será presidente. Inclusive chegam a dizer que não votar em Clinton é uma falta de consciência com as pessoas que serão mais afetadas por uma presidência de Trump (imigrantes, negros, muçulmanos, mulheres e grupos oprimidos). segundo eles, só os “privilegiados” não votarão por Clinton porque podem suportar uma presidência de Trump .

Este é um argumento verdadeiramente cínico, dado que são os políticos democratas os que atualmente levam as políticas de deportação de imigrantes, matam ou prendem massivamente os afro-americanos, e vigiam os muçulmanos. Inclusive o direito ao aborto, o qual os democratas tinham como sua grande vitória, foi rapidamente corroído por Obama. Um número recorde de clínicas de aborto foram fechadas nos últimos cinco anos enquanto os democratas se negavam a mobilizar os simpatizantes para defender esse direito. A lógica do mal menor demanda que aceitemos os bombardeios, as deportações, as intervenções imperialistas e os cortes. Nega a possibilidade que possamos votar baseados em nossos princípios, deixa de lado a ideia de que podemos nos mobilizar por algo melhor, antes que nos resignamos a um presidenciável apoiado por Wall Street, os grandes bancos, a indústria militar, e de maneira explícita ou implícita, uma boa parte dos republicanos.

A lógica do mal menor desta maneira se converte em uma das grandes armas a disposição da classe dirigente. O candidato democrata só deve ser ligeiramente preferível ao republicano com o objetivo de ganhar o apoio da população. Posicionar-se como tal tem sido a estratégia central da campanha de Clinton, a qual se centra em dizer que não é Donald Trump. Isso foi exposto no vazamento dos memorandos da campanha de Clinton na conferência dos democratas, no qual buscavam legitimar os candidatos mais à direita dos republicamos, como Donald Trump e Ted Cruz, no princípio da campanha.

A equipe de Clinton sabia que o escândalo dos e-mails e o apoio dado ao NAFTA e aos TPP a faziam extremamente impopular e vulnerável a uma derrota por parte da ala moderada dos republicanos. Em outras palavras, o partido democrata queria candidatos como Trump para ganhar e fizeram todo o que puderam para garantir sua nomeação. E agora alguém pensa que podemos vencer de Trump votando nos democratas?

Uma vez eleitos, os democratas sempre procederam em firmar acordos com os republicanos contra os interesses da maioria da população e a favor dos grandes capitalistas, sancionando leis cada vez mais reacionárias e anti-operárias. Vimos isto uma e outra vez com candidatos aparentemente mais progressistas e inspiradores, incluindo Obama. De cara, seu programa atual o faria o mal maior a algumas décadas atrás.

Contudo, o argumento de mal menor tem sido efetivo em impedir o crescimento de um partido socialista e da classe operária, já que qualquer partido fora dos democratas e os republicanos, é rotulado de inelegível e portanto não merecedor de nosso voto. Pode prevenir o surgimento de organizações políticas independentes de movimentos sociais de massa como o Black Lives Matter, Ocupy o Fight for $15.

Não é por nada que Clinton tenha o menor nível de aprovação de um candidato presidenciável em toda a história, com o 65% de seus constantes com uma opinião negativa sobre ela. Se não porque Trump se torna cada vez mais repugnante para os votantes, sua projeção cairia abismalmente. Durante as eleições primárias, Clinton foi exposta como a candidata favorita de Wall Street. Desde seu discurso de 600 mil dólares a Goldman Sachs - um dos arquitetos do colapso financeiro de 2008 - até seu apoio ao NAFTA e os acordos de livre comércio, e os milhões recebidos na campanha de contribuição por parte de milionários com Warren Buffett e George Soros, é bastante claros quais são os interesses para os quais vai governar. Sua campanha gastaria ao redor de 1 bilhão de dólares com o objetivo principal de convencer os trabalhadores, a gente de cor e os pobres, de que apesar de tudo isto, ela representa uma alternativa aos republicanos.

Podemos encontrar muitas diferenças entre os programas que propuseram Clinton e Trump, mas, ainda assim, é mais o que os une do que os separa. Ambos são membros de uma elite ultramilionária (Clinton participou das bodas de Trump em 2005, e este doou 100 mil a fundação Clinton). Ambos apoiam a guerra do Iraque (ainda que Trump agora o negue), a guerra no Afeganistão e a atual guerra contra o Estado Islâmico por todo o oriente Médio-guerras que deixaram centenas de milhares de mortos na última década e meia. Ambos celebraram a brutal ocupação colonialista da Palestina. Ambos apoiam o modelo de tratados de livre comércio – ainda que Trump tenha criticado muito o NAFTA, devemos recordar seu comentário no último debate de que “haverá mais acordos de livre comércio” durante sua presidência, também da renegociação dos que estão a favor dos negócios norte americanos, antes que os estrangeiros.

Dado o relativo apoio que existe por um terceiro candidato este ano, Também devemos assinalar que não podemos apoiar os candidatos do Partido Verde: Jill Stein e o libertário Gary Johnson. Johnson, que defende a expansão das escolas Charter (escolas privadas que recebem subsídio estatal) , recortar as regulações para o meio ambiente, e eliminar os impostos para os ricos, não é mais que um purista do livre-mercado republicado na medida de Rand Paul. A candidatura de Stein alcançou o apoio de uma parte significativa da esquerda, assim como muitos dos votantes de Sanders, dos quais não tem estômago para votar em Clinton. è alentador que milhares de jovens estejam dando de costas com o partido democrata e buscando alternativas, mas de todas as maneiras, a visão do Partido Verde de um capitalismo ecologicamente amigável não oferece nenhuma saída para a crise atual.

Nem mesmo sua campanha se mostra particularmente dinâmica – impossibilitados de conectar se, expressar e fortalecer os movimentos mais dinâmicos nos Estados Unidos hoje em dia, Black Lives Matter, e a luta dos povos originários americanos contra a North Dakota Acess Pipeline (Oleoduto de Dakota do Norte). Estes dois candidatos não podem e não representam a fúria contra o racismo e o questionamento do sistema capitalista que grandes setores de estadunidenses especialmente os jovens vem levantando.

O grande socialista norte-americano, Eugene Debs, que arrancou 6% dos votos populares nas eleições de 1912, descrevia o sistema bipartidarista de maneira perfeita: O trabalhador “não tem opção entre estes dois partidos capitalistas, ambos estão comprometidos com o mesmo sistema, e ganhando um ou outro, manterão a escravidão assalariada que existe hoje em dia.”

O que necessitamos para combater a atual crise, e com ela a miséria, as guerras intermináveis e o desastre ambiental, não é o menor dos males, senão um partido da classe trabalhadora que desafie aos capitalistas pelo poder. Nem Trump, nem Clinton nos oferece alguma esperança. Para ganhar o mundo que desejamos, devemos mobilizar-nos, trabalhadores, jovens, mulheres e oprimidos, devemos organizar uma alternativa política, e devemos reafirmar incondicionalmente: Não com eles!




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