IV INTERNACIONAL / 80 ANOS DE SUA FUNDAÇÃO / Trotski

A atualidade da IV Internacional, Isaac Deutscher e as ironias da história

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 31 de agosto| Edição do dia

Trotski já foi biografado por grandes autores como Pierre Broué [Trotsky], J-Jcques Marie [Trotski, revolucionário sin fronteras] ou mesmo Paul Le Blanc [Leon Trotsky]. Mas a biografia de Trotski por Isaac Deutscher [1907-1967] provavelmente é a mais lida e conhecida no nosso meio, desde os anos 1960.

[Isaac Deutscher nasceu em Cracóvia, na Polônia em 1907. Filiou-se cedo ao PC polonês, mas foi expulso em 1932 por criticar Stálin. Na II Guerra foi para a Inglaterra, como jornalista, tornando-se correspondente europeu do Economist. Autor de inúmeros livros sobre a URSS. Seu Stálin é de 1949. Nos anos 1960 a Editora Civilização Brasileira publicou sua trilogia sobre Trotski [Os profetas...].

Deutscher estava convencido que a era de reformas começara na URSS, imaginando uma autorreforma do stalinismo. Desde 1957 passa a ter textos seus, no Brasil, publicados pelo Estadão e assim foi até um ano antes de sua morte.

Através de Natália Sedova, Deutscher teve acesso a arquivos de Trotski e também aos arquivos da Harvard University para fundamentar seu trabalho biográfico de Trotski. Deutscher foi figura popular nas universidades britânicas e dos Estados Unidos, na época da guerra do Vietnã. Morreu em Roma em 1967].

O curioso é que, autor do livro Ironias da história, Isaac Deutscher será, também ele, protagonista de uma das grandes ironias da história.

Deutscher, autor de formação trotskista, [ crítico do stalinismo], profundo admirador de Trotski, nem por isso deixou de defender uma perspectiva para a revolução mundial que era antípoda ao pensamento do fundador do Exército Vermelho e da IV Internacional.

Deutscher, falecido em 1967, profetizava que a burocracia de Stálin, depois da II Guerra, depois da morte de Stálin, tenderia a um processo de autorreforma.

Portanto, ter fundado a IV teria sido uma perda de tempo ou desperdício de forças de parte de Trotski, já que a história iria resolver o problema do estalinismo de outra forma, pelo surgimento de reformas socialistas a partir de um setor da própria burocracia estalinista.

Todos sabemos hoje que a URSS veio abaixo, literalmente implodiu de dentro para fora, sem o inimigo externo ter que disparar um único míssil.

O que nem todo mundo sabe é que Trotski tinha elaborado, já na condição de “profeta banido” da URSS, a concepção de que sem uma revolução política interna, sem a retomada dos sovietes, a volta ao partido de Lenin, a URSS simplesmente degeneraria e depois afundaria, dando passagem ao velho, agora requentado, regime capitalista.

Para Trotski, escrevendo em 1936, “a ditadura do proletariado seria destruída na URSS se o regime capitalista for capaz de sustentar-se durante outra longa etapa histórica” [p. 293 de La revolución traicionada, Buenos Aires, Ceip, 2014].

A ironia, se assim podemos dizer, é que tendo sido assassinado o fundador da IV Internacional, a mando de Stálin, esta organização se viu, no pós-II Guerra, sob o comando de uma direção que, hegemonicamente, pensava, à sua maneira, como Deutscher.

Impressionada e impactada pelo ascenso da revolução mundial, pela eclosão de novas revoluções [com direções “quaisquer”, sem partidos comunistas à cabeça], os dirigentes da IV pós-Trotski passaram a fazer o que Trotski jamais fez: embelezar a burocracia estalinista, acreditar que a burocracia pudesse ser reformada ... pela burocracia.

Sua direção hegemônica – liderada por Michel Pablo – se colocou, dessa forma, a reboque do movimento comunista mundial, outro nome para o estalinismo recém-expandido e represtigiado após a vitória da URSS na II Guerra.

Não era difícil se impressionar: mesmo direções de origem não-marxista, não-comunista, como foi o caso de Fidel-Che, tomavam o poder e com métodos nada soviéticos, proletários ... mas na base do partido exército, da guerrilha. Tudo por fora dos princípios de Trotski [legados da Revolução Russa] e também do programa fundacional da IV Internacional.

O difícil era manter-se coerentemente ligado ao legado teórico da Revolução Russa de Lenin e Trotski e, pensando com a própria cabeça, e nas novas condições internacionais, se lançar a construir organizações trotskistas em cada país, preparando-se para os ascensos revolucionários em marcha e os que viriam.

Mas o principismo não prevaleceu na IV Internacional para além de alguns fios de continuidade como o de reconhecer Cuba como um Estado operário, ou a defesa propagandística da organização soviética, da classe trabalhadora como estrutura democrática do novo poder de Estado, etc.

E o fato é que as esperanças ilusórias de Deutscher, dominaram a IV e várias das frações da IV que foram surgindo, tendo J. Posadas [que se auto-proclamou dirigente de uma das IV Internacionais], levado até o amargo fim a convicção de que a burocracia estalinista iria se reformar e que se tratava, não de fundir-se ao movimento operário, mas sim de virar “conselheiro” de toda direção de massas, indo desde o nacionalismo burguês de Nasser, no Egito, até o apoio a Brizola no Brasil [1].

Isaac Deutscher
Pensando como Deutscher, a direção da IV perdeu a chance de dar corpo de massas a uma IV tal como Trotski a tinha concebido e nos marcos do programa fundacional [Programa de Transição].

Em vez disso, adaptando-se ao mundo revolucionário “como ele era”, apesar das lutas internas importantes, que revelavam posições eventualmente corretas de um dos lados, o fato é que com o fim da URSS, a crise da IV pós-Trotski foi ao paroxismo. Lambertismo, mandelismo, neomandelismo, posadismo, morenismo etc, um a um foram se mantendo como seitas, às vezes sindicais, às vezes apenas “pequenos conselheiros” de direções não proletárias de massa.

Vejamos uma menção a esse processo, do livro Estratégia socialista e arte militar [de E. Albamonte e M. Maiello:

“Deste ponto de vista – o da ´grande estratégia´ em termos do marxismo revolucionário - , a derrocada da IV Internacional [tema do capítulo 7 do referido livro], que se traduziu na ausência de um partido mundial da revolução socialista durante a Guerra Fria, se transformou em um determinante de todo o período.

A obra de Trotski contém elementos fundamentais para entender profundamente o significado da Guerra Fria e seus resultados; no entanto, o legado do fundador do Exército Vermelho foi muito além disso. Não apenas concebeu a teoria do desenvolvimento desigual e combinado e a teoria da revolução permanente, mas tirou a consequência estratégica principal: por de pé a IV Internacional era a tarefa fundamental do ponto de vista da revolução, a condição necessária para girar o curso da história na etapa seguinte. O resultado da Guerra Fria ratifica aquela conclusão como a principal de suas lições”.

Qual o efeito prático, histórico, daquela opinião a la Deutscher, de que não se fazia necessário fundar a IV [já que o mundo revolucionário acertaria o passo com seus próprios meios empíricos, objetivos]?

O resultado foi que em cada eclosão revolucionária de massas, o partido que poderia dar uma saída anticapitalista com democracia proletária, com sovietes, com estratégia para vencer o capitalismo e retomando o legado da Revolução Russa, não estava presente.

Quando eclodiu uma revolução operária profundamente radical na Bolívia de 1952, com dissolução do exército e destacamentos de mineiros nas ruas armados com dinamite, o núcleo trotskista que tinha algum peso de massa [de G Lora] optou por apoiar a burguesia “progressista” em vez de chamar os mineiros armados ao poder, a COB ao poder, e fundar um Estado operário não degenerado.

As sucessivas revoluções que eclodiam, no ciclo do pós-guerra e no ciclo revolucionário que vai de 1968 [com o maio francês] até 1981 [com a derrota da revolução política na Polônia] não puderam contar com um “Estado Maior” da classe operária.

Não puderam contar com núcleos trotskistas com peso de massa que pudessem girar a revolução para a democracia proletária, para os órgãos operários marchando para o poder. Ou, mesmo derrotados, legar uma nova tradição revolucionária, de classe e não de amálgamas de classe.

No Chile de 1973, com os cordões industriais, com o poder ao alcance da mão, a derrota, assim como cada derrota em condições semelhantes – como Portugal 1974/5 – só revelava o quanto fazia falta o partido operário da revolução mundial.

E o quanto o subdesenvolvimento e os desvios teóricos da IV [ou das Quartas] pesavam na derrota de cada revolução ou na sua deformação; a exemplo da revolução cubana e outras que foram vitoriosas, mas sem o partido marxista à cabeça, atualmente vivem sob a saia justa da burocracia castrista, que jamais fomentou sovietes ou qualquer forma séria de democracia proletária.

“Para Deutscher, que depositava suas esperanças no surgimento de setores progressistas da burocracia, a fundação por parte de Trotski da IV Internacional, tinha sido um contrassenso, um desperdício sectário de forças baseado em uma concepção voluntarista.

Segundo ele, neste ponto, faltou a Trotski ´sua compreensão de realidade. O estalinismo iria continuar desempenhando seu papel duplo tanto internacional como nacionalmente: teria que estimular tanto quanto obstruir a luta de classes fora da URSS´ [O profeta banido].

O certo é que a ausência de um Estado Maior alternativo da classe operária no terreno internacional não apenas impediu o aproveitamento dos processos revolucionários que atravessaram o mundo entre 1968 e 1981 para criar novos centros de gravidade da revolução e modificar a relação de forças a favor do proletariado, mas a falta de uma direção alternativa foi também determinante na hora de limitar as consequências estratégicas da derrota.

O resultado foi uma crise generalizada do movimento operário com consequências para toda a etapa posterior” [E. Albamonte, M. Maiello, idem].

A ironia da história foi, de certa forma, a de que uma vez que as direções hegemônicas pós-Trotski foram tomadas pela ideia ou de que não era mais necessário ter fundado a IV, ou que de que uma IV Internacional de massas não se fazia necessária uma vez que o mundo iria ao socialismo com direções de todo tipo [stalinistas, pequeno burguesas] era preciso basicamente seguir a corrente.

Adaptar-se a esse processo [foi o que fez, cada um à sua maneira, Pablo, Posadas, também Mandel com o gorbatchovismo, afora outras alas, com outros matizes, inclusive alas supostamente mais radicais, como o lambertismo, que, no Brasil, evoluiu para se fundir ao PT de Lula, onde seguem até hoje].

Pondo de outra forma: o desenvolvimento da IV Internacional de acordo com o programa e os princípios teóricos de Trotski, que valiam para toda uma época, imperialista, sua fusão com o proletariado mundial, seu pressuposto, nada disso foi entendido e nem levado até o fim por nenhuma das correntes do pós-guerra, o que inclui o morenismo [de Nahuel Moreno].

Este, diretamente, revisou a teoria de Trotski, trocando a teoria da revolução permanente pela teoria da “revolução democrática”, aderindo às “revoluções democráticas” que puseram fim ao Estado operário no Leste e a processos de orientação burguesa como também, atualmente, a Lava a Jato no Brasil [caso do PSTU].

Valia tudo menos se fundir ao proletariado para desenvolver uma política independente da burguesia e que levasse adiante a estratégia soviética, democratizando pela base cada sindicato, levando adiante a estratégia soviética.

A ironia foi que as profecias do biógrafo foram superadas e esvaziadas pela história e, acima de tudo, pela afiada teoria da revolução permanente do biografado, Trotski.

A IV Internacional é mais atual que nunca, desde que na condição de um movimento principista, nos marcos da estratégia soviética, defendendo o legado teórico da Revolução Russa e indo até o fim na ideia de que não há socialismo sem povo [tipo as revoluções deformadas do século XX], portanto sem democracia proletária, sem sovietes, sem órgãos de autoatividade de massas, onde o proletariado seja o protagonista político do processo.

[1] Um pequeno grupo de posadistas que restam no Brasil, continuam no seu entrismo eterno no PT, acriticamente fundidos a Lula.

Pode lhe interessar assistir um vídeo sobre a vida e obra de Trotski:
Trotsky - Vida e Obra
[TV PTS- 2017]

Pode lhe interessar assistir um discurso de Leon Trotsky desvelando os "Processos de Moscou" de Stalin (c. 1937):




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