Cultura

CULTURA DE RUA

A arte de BubuNegrón – Os garimpeiros da Lapa!

Investigando os trabalhadores informais das ruas, tão chamados de “garimpeiros”, a arte de Bubu é uma crítica direta a cultura de consumo, descarte de mercadorias e estratégias de sobrevivência no progressivamente exclusivo mercado capitalista.

terça-feira 1º de novembro| Edição do dia

Nesta sexta feira dia 28, o Largo São Francisco de Paula anoiteceu subversivo. Escondida longe da Igreja que dá nome ao largo e convenientemente próximo ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, o Largo das Artes “Despina” abrigou uma exposição plural e minimamente anticapitalista: “Arte e Ativismo na América Latina”. Além de contar com o artista Crack Rodrigues de El Salvador, que filmou as manifestações que terminaram com confronto e opressão policial e Luciana Magno, uma artista paranaense crítica ao sistema político vigente; BubuNegrón investigou os trabalhadores informais de “camelôs”, estabelecendo um debate – e crítica – sobre a cultura de consumo.

Diversos objetos – dos mais variáveis –, foram expostos em dois tecidos bem bonitos e arrumados – como um próprio camelô – com os dizeres “SOBREVIVENDO A RUA COM DIGNIDADE” e “VALORIZAR A ANTIGUIDADE É VALORIZAR A CULTURA”. Tanto o idealizador, BubuNegron, quanto a “garimpeira” Lúcia Helena estavam presentes de forma a explicar e falar sobre a arte em questão.

Lúcia afirma que trabalha simplesmente vendendo coisas que não são mais usadas, e que outras possam usar. O processo de “garimpo”, como ela chama, se dá na procura de objetos – sapatos, óculos, cabos de celular, carregadores, imagens santas, lenços – em lixões, para sua revenda. E ainda que se trate de uma venda de forma a se manter em um estado de precariedade, todo o debate sobre a cultura do consumo e o descarte de bens que poderiam ser reutilizados vem à tona. A obra de Bubu evidencia pessoas como Lucia, pessoas sãs em um sistema descarta e desqualifica cidadãos e suas forças de trabalho.

A manutenção do sistema, naturalmente, se dá por intermédio das policias. As policias e as guardas municipais cobram dos garimpeiros taxas de 60 reais para poderem simplesmente permanecer nas ruas da Lapa fazendo sua venda. A suposta alternativa seria vender em bairros distantes, porém isso dificultaria muito o trabalho dos garimpeiros. De acordo com Lucia, os melhores “garimpos” viriam da zona-sul do Rio de Janeiro – o que não é surpresa, considerando que a classe média do Rio se encontra principalmente neste bairro, e que, portanto, não há o hábito de se pensar que um outro poderia usar um sapato, ou óculos assim descartados. A cultura do consumo, disseminada incisivamente na classe média, encontra um grande contraste com a manutenção de condições de sub-emprego.

A resistência ao sistema se dá também nas formas mais subjetivas: na arte de Bubu e na vida de Lucia Helena, se expõe as contradições entre a cultura de consumo e os garimpeiros como seu reflexo invertido.




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