Cultura

MAIO DE 1968

A arte de 1968: documentos de luta

2018: tudo na mais perfeita ordem...Trabalhadores trabalhando, estudantes estudando, meninos trajando azul e meninas trajando rosa. O capital nascendo e se pondo tranquilamente como um sol que não ilumina as massas. Gestos calculados, expressões bovinas e o olhar de um operário que não consegue ir além do horizonte de uma loja, da qual ninguém consegue achar a saída. Eis que a vitrine é quebrada com uma pedra. Em meio ao estilhaços, a pedra é encontrada. Ao pega-la entre as mãos cuidadosas e o olhar curioso, aquele mesmo operário observa que sobre a superfície da pedra está escrito em letras vermelhas: 1968

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 15 de janeiro| Edição do dia

Muito mais do que uma pedrada metafórica, 1968 é o celeiro de imagens libertárias que entra em choque com o mundo administrado pelo capitalismo. Sabe-se que existia mais de uma língua, mais de uma ideologia no cenário amalucado de 1968: pelas ruas de Paris, São Paulo, San Francisco, Londres, Tóquio e outras cidades, havia uma salada política e cultural, tinha de tudo. As cabeças mais avançadas, normalmente envoltas em longas cabeleiras, procuravam certamente uma resposta política revolucionária que não se solidarizava nem com o bloco de países capitalistas e tampouco com as burocracias autoritárias dos Estados operários deformados. É importante dizer que as revoltas de 68 não foram simplesmente “ coisas de juventude “: a presença do proletariado é verificada em inúmeros eventos daquele ano cujo calendário se estende pela cultura à fora.

O objetivo aqui não é traçar um panorama político das correntes presentes nas greves, nas passeatas, nas ocupações das universidades. A questão crucial do ponto de vista da cultura revolucionária, é que por entre hippies, guevaristas, maoístas, situacionistas, trotskistas, anarquistas, Panteras negras etc, existe todo um legado iconoclasta cuja estética ainda é um importante elo histórico com os movimentos sociais do nosso tempo. Como tratar do legado político/cultural de 1968 em 2018?

Quando se pensa nos 50 anos de 68, não se pode celebrar esta data como um acontecimento cívico aos moldes burgueses: a exemplo do ano passado, quando 2017 evocou a Revolução russa de 1917, tratar das lutas de 68 significa encontrar imagens que interrompem a ideologia dominante: mais do que em qualquer outro período da história do capitalismo, vivemos um momento em que o poder midiático e as quinquilharias da indústria cultural desempenham um complô imagético para reprimir a crítica e logo o desenvolvimento da consciência política das massas. Visto que a dominação política depende de estratégias estéticas, a arte produzida em 1968 é puro combustível para uma poética da rebelião que serve enquanto contraponto ideológico. Sim, muitos produtos artísticos do período podem ser encontrados porque são vendidos por aí: a explosiva produção artística de 68 não é um tesouro escondido à sete chaves pelo sistema. Porém, se depender da classe dominante, toda rebeldia expressa em canções, versos, filmes e intervenções teatrais tende a ficar neutralizada num pequeno espaço, em pequenos arquivos voltados para especialistas de classe média. Do ponto de vista militante, a arte de 68 deve ser estudada/relida/disseminada por aqueles que estão a fim de agitar o barco da cultura/política.

Não é possível no espaço desta coluna discorrer sobre toda criatividade que comia solta em 68. Glauber Rocha, Jean Luc Godard, Rolling Stones, Nara leão, Living Theatre, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Andy Warhol, Beatles, Teatro Oficina, Janis Joplin, Gal Costa, Allen Ginsberg, Gilberto Gil, Jimi Hendrix, Chico Buarque, Mutantes, Guy Debord e muitos outros encabeçam os nomes que recheiam o imaginário sobre o período. Mas indo além das referências de sempre(que ainda são fundamentais), existe um importante desafio para os militantes de hoje: detectar e refletir sobre as manifestações artísticas contestadoras realizadas por centenas de estudantes e trabalhadores anônimos. Tais manifestações existem hoje como diamantes explosivos. Pensemos por exemplo no contexto das revoltas do Maio de 68 em Paris, quando pichações e cartazes fizeram com que a arte fosse encarada enquanto gesto militante imediato. As frases espalhadas pelos muros eram poesia pura: seja afirmando que é proibido proibir, defendendo que a imaginação deve chegar ao poder, que 2+2 não é igual a quatro, propondo uma greve eterna, convertendo barricadas em poesia etc. Aqui Marx encontrou-se com Rimbaud, tal como os surrealistas defendiam nos anos 30.

Mais importante do que saber a autoria de tantos versos e cartazes(que subverteram os signos da cultura dominante e assaltaram o céu) , de saber quem eram os atores que integravam inúmeros happenings, é aprender com estas práticas artísticas. As fontes culturais de 68 são importantes para trabalhadores e estudantes de hoje em dia. Nada de repeteco, caso contrário serão criadas meras caricaturas. É preciso saber reler as manifestações artísticas de 68 para combater os conservadores que estão no poder(estes sim, caricaturas que deveriam estar fora do tempo e do espaço).




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