Educação

USP

A USP precisa parar com a lógica privatista e elitista de universidade

Nos últimos dias a reitoria da USP, sob comando de Vahan Agopyan soltou um texto intitulado “A USP não vai parar”. Esse texto, publicano no dia 17 de março, foi entendido pelos milhares de trabalhadores da USP, efetivos e terceirizados, como uma afronta diante da suspensão das aulas, mas a manutenção das atividades presenciais. Afinal, a vida dos trabalhadores importa. Mas a política irresponsável da reitoria não parou por aí.

Patricia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quinta-feira 26 de março| Edição do dia

Desde o início da crise do coronavírus a reitoria da USP tem tomado medidas insuficientes e atrasadas para garantir a segurança dos seus milhares de trabalhadores, bem como dos estudantes que residem na moradia estudantil, o CRUSP.

Em uma semana a reitoria mandou diversos comunicados para responder à indignação dos trabalhadores frente não apenas ao tratamento desigual, mas também às medidas de proteção básicas que a reitoria ignorava. Nas unidades faltava álcool gel e protocolos de segurança básicos que deveriam ter sido implementados desde fevereiro. O atraso desastroso da reitoria disposta a tudo para a USP não parar, atropelou docentes, estudantes e funcionários efetivos e terceirizados. O carro desgovernado dirigido por Vahan não parou de fato e tem atropelado os trabalhadores, especialmente terceirizados e os funcionários do HU.

Tratamento desigual – como o REItor trata os “plebeus”

A suspensão das aulas começou no dia 17 de março. No comunicado da reitoria falava-se também para suspender as aglomerações com mais de 100 pessoas. No entanto o reitor pareceu ignorar que os ônibus e metrôs da cidade de São Paulo transportam milhões de trabalhadores, inclusive da USP. Ou seja, o “cuidado” da reitoria em evitar aglomerações ignora a rotina dos milhares de trabalhadores que, para chegar na USP, dependem do transporte público.

Para piorar o reitor tentou manter em funcionamento dos restaurantes universitários, por onde passam milhares de alunos e que, mesmo com a suspensão das aulas, continuou recebendo centenas de alunos. Nem a segurança dos trabalhadores nem a dos estudantes que comem nos restaurantes universitários foi pensada pela reitoria.

A cada dia a reitoria mudava sua orientação através dos comunicados enviados por e-mail aos funcionários. Sempre um passo atrás das verdadeiras necessidades dos trabalhadores, afinal a USP não para, mas está sempre atrasada.

Com o estabelecimento do trabalho remoto para a ampla maioria dos funcionários administrativos desde o dia 23 de março, a política da reitoria frente a crise do coronavírus também escancarou a desigualdade sobre os trabalhadores terceirizados. Até então invisíveis na universidade, não estão nos anuários e não são considerados pela reitoria como funcionários da USP, agora os trabalhadores terceirizados tornaram-se “essenciais” e assim, não poderiam ser dispensados. Além de receberem salários baixíssimos, estarem sujeitos a sobrecarga de trabalho brutal e condições precárias, a saúde desses trabalhadores, e mesmo suas vidas, pouco importa a USP. Quem realmente não parou não foi o reitor, do alto de seu gabinete, protegido por privilégios e salários altíssimos, mas sim os trabalhadores terceirizados e do hospital universitário.

USP sendo desmontada sem parar

O reitor Vahan Agopyan diz:
“ Como universidade pública, em um momento de emergência, temos a responsabilidade de dar suporte à sociedade”.

Marcos Buckeridge, diretor do Instituto de Biociências da USP, agindo a reboque da reitoria, em seu texto intitulado “Por que a USP não pode fechar” afirma que:

“Fechar a Universidade de São Paulo (USP) por causa da covid-19 é a pior coisa a fazer neste momento. Isto porque não só na USP é que está uma parcela significativa da pesquisa médica do país, mas também a pesquisa em diversas outras áreas que são cruciais para ajudar a sociedade a enfrentar esta situação de pandemia acoplada à crise social e econômica que virá.”

Oras, tanto o reitor Vahan Agopyan quanto Buckeridge precisam responder porque então o Hospital Universitário (HU) permanece com os prontos-socorros fechados para a população? Desde 2016 o pronto-socorro infantil foi fechado e em 2017 o pronto-socorro adulto. Além disso foram mais de 300 postos de trabalho fechados e mais de 50 leitos bloqueados. Neste momento de emergência a reitoria já deveria ter aberto contratações emergenciais de profissionais da saúde (médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, atendimento, nutrição e limpeza), além de testes pata todos que queiram, a começar pelos próprios trabalhadores do HU, para assim, “dar suporte à sociedade”.

Em 2019 a Alesp aprovou 40 milhões de reais a serem destinados para o HU, sendo 20 milhões só para contratação. No entanto a reitoria se recusa a usar essa verba para contratação. Se a USP não para, porque as contratações de funcionários efetivos estão paradas desde 2014? Especialmente no HU.

A resposta é bem simples: sucatear para privatizar. No começo do ano a superintendência do HU, sob o comando de Paulo Margarido, tentou aprovar no Conselho Deliberativo do hospital medidas como a possibilidade de conseguir recursos para o hospital através de Endowment (fundos patrimoniais) e venda de serviços. Em outras palavras financiamento privado e abertura da segunda porta para convênios médicos privados.

Veja aqui: Reitoria quer entregar o HU para planos de saúde e fundações privadas

Aparentemente, reitores e dirigentes da USP querem dar suporte a uma pequena parcela da sociedade: os empresários.

Manutenção das aulas através de Ensino a distância

A reitoria e pró-reitorias, bem como diversas unidades de ensino da USP, sob o mote de “a USP não vai parar” tentam impor aos professores e estudantes a manutenção das aulas através do ensino à distância. Além do prejuízo à formação dos estudantes, a atitude da reitoria desconsidera a situação de seus milhares de estudantes.

Muitos estudantes têm acesso restrito a internet. No próprio CRUSP, a moradia estudantil da USP, não há wi-fi. Mas além disso, a preocupação com a própria saúde e dos familiares, além da saúde mental é completamente ignorada pelos dirigentes da universidade.

A Adusp, Associação de Docentes da USP, já se posicionou contra as aulas a distância e exige a suspensão do semestre letivo e a suspensão dos prazos da pós-graduação.. O Centro Acadêmico de Letras, o Caell, também se posicionou contrário as aulas a distância. Na Faculdade de Educação também há um posicionamento categórico contrária a orientação da reitoria e o Centro Acadêmico da Pedagogia, o CAPPF, lançou um canal para que estudantes possam denunciar as disciplinas que seguem com as atividades acadêmicas à distância.

O dever social de uma instituição como a USP

Vahan Agopyan fala em dever social de uma instituição da USP. Obviamente há visões distintas desse dever. Para o reitor a USP deve servir aos interesses privados. Desde o começo do ano a comunidade tem sido bombardeada por ações da Agência USP Inovação (AUSPIN) sobre empreendedorismo com parceria com o banco Santander. No ano passado, vangloriava que dentre as empresas chamadas de Unicórnios brasileiras, avaliadas por mais de 1 bilhão de dólares, como a IFood, 99, entre outras, havia o DNA USP, ou seja, foram idealizadas por alunos e ex-alunos da universidade. Uma grande parcela da sociedade, especialmente a juventude pobre, negra e periférica que não pode estudar na USP, pois o filtro social do vestibular os impede, é explorada por essas empresas e perdem a vida pedalando. Com a crise do coronavírus, essa juventude se vê entre escolher o próprio sustento e a saúde. Qual deve ser o dever social da universidade para essa parcela (majoritária) da sociedade?

Algumas faculdades da USP, como a Farmácia passaram a produzir álcool gel para suprir a demanda para o hospital. Em algumas universidades as impressoras 3D já estão produzindo respiradores para os hospitais. São pequenas medidas que mostram o potencial da universidade. Agora imaginemos se todo o conhecimento da universidade fosse colocado a serviço da população? Poderíamos estar anos-luz a frente de encarar a crise do coronavírus e diversos problemas sociais.

A USP precisa parar com essa lógica privatista e elitista. Garantir a suspensão das atividades presenciais não essenciais também para os trabalhadores terceirizados, sem nenhum prejuízo de salários ou compensação de horas, além de garantir que não sejam demitidos ou penalizados. Além disso, garantir a liberação daqueles trabalhadores da saúde (efetivos e terceirizados) que fazem parte do grupo de risco ou que tenham menores e idosos sob seus cuidados e contratação emergencial para que o HU funcione em sua capacidade plena. Além disso, é preciso urgentemente providenciar EPIs em quantidade adequada para aqueles que continuarão trabalhando, especialmente para o Hospital Universitário, onde a falta de EPIs tem sido denunciada por diversos trabalhadores. Também, é urgente abolir o ensino a distância e que as atividades online não sejam computadas como aulas ou avaliações . E que a moradia estudantil , o Crusp, passe por manutenção urgente para garantir o uso das cozinhas coletivas, além de acesso à internet e condições dignas de moradia.

Vivemos em um cenário delicado, é verdade, e justamente diante de uma crise sanitária criada por anos por governos, que sucateou os hospitais e deixou de contratar profissionais da saúde para fortalecer convênios privados, onde a saúde é de fato mercadoria, precisamos questionar o caráter da universidade e o que é produzido nela. Neste momento é fundamental que todo seu conhecimento seja posto a serviço dos trabalhadores e do povo pobre. Que se fabrique álcool gel e os equipamentos necessários para prevenção e tratamento da doença covid-19 e que toda a pesquisa seja feita para descobrir tratamentos e vacinas eficazes para conter o coronavírus. Para isso é fundamental que estudantes e trabalhadores da universidade assumam o controle dela.

Por isso, nós do movimento Nossa Classe juntamente com a juventude Faísca levantamos a necessidade questionar universidade dirigida a uma classe, a burguesia, para questionar toda a sociedade dividida em classes e baseada na exploração e opressão. Na USP lutar por um programa para universidade que inclui acabar com a estrutura de poder antidemocrática e estratificada da universidade onde uma casta de burocratas e donos de fundações privadas decidem seu rumo, para que estudantes e trabalhadores possam gerir a universidade e colocá-la verdadeiramente à serviço dos trabalhadores e do povo pobre.




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    Hospital Univeristário da USP   /    Universidade   /    Educação   /    USP   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar