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TURQUIA

A Turquia de Erdogan mercantiliza as migrações [Ou: Quantos euros vale um migrante]

Semana passada o parlamento europeu se reuniu e teceu uma crítica, e propôs tomar medidas contra o modo como o ditador turco, Erdogan, tratou o golpe de Estado fracassado por lá: milhares e milhares de demissões de funcionários púbicos, além da repressão brutal, típica daquele governo.

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 16 de dezembro de 2016| Edição do dia

Foi a senha: imediatamente Erdogan foi para a tribuna e fez um discurso que, em português corrente seria: a Europa precisa da Turquia, sem nós as migrações para a Europa seriam muito mais massivas, sou eu quem cuido de barrar as massas humanas que, para chegar à Europa por terra, precisam passar por nosso território.

O aviso de Erdogan foi claro: “Prestem muita atenção, disse ele, as fronteiras turcas serão abertas [por mim] se vocês derem qualquer passo adiante contra a Turquia”. Ele reagia aos debates no parlamento da União Europeia para congelar as conversações sobre entrada da Turquia na UE.

A Turquia estabeleceu no início deste ano um acordo com a União Europeia pelo qual recebe 6 bilhões de euros [equivalente a algo como 6,3 bilhões de dólares] para fazer o trabalho sujo de barrar migrantes que atravessem a Turquia rumo à Europa. Esse acordo macabro ficou valendo até 2018. O objetivo estratégico da Turquia é que sua economia seja aceita na União Europeia – o que a Europa ainda não aprovou – para além de continuar pertencendo à sua “tropa de choque” nuclear, a OTAN.

Esse é apenas um elemento que põe por terra qualquer discurso “humanitário” por parte das autoridades europeias, da Alemanha em particular, em relação às ondas migratórias. Erdogan diretamente trata aqueles milhões de seres humanos como mercadoria, para tirar proveito bilionário.

Mas em todo governo europeu, a contradição entre a preocupação “humanitária” com os migrantes e sua prática é também eloquente. Basta checar como os migrantes são obrigados a viver nos massivos campos de refugiados e também o tipo de trabalho e emprego-escravo/precário que aguarda qualquer um deles que “seja aceito” pela Europa.

Na verdade, não há pontos fora da curva: o discurso humanitário das autoridades, de boa-vontade e solidariedade com os migrantes, não vai além do discurso. Primeiro que os governos imperialistas da Europa são especialistas em criar – pela guerra de rapina sobre as riquezas do O. Médio ou da África, pela espoliação e política neocolonial – condições para que aqueles povos sejam obrigados a emigrar ou morrer.

Criam condições que tornam o lar de origem daqueles povos insuportável para milhões e milhões. Tão insuportável que eles “preferem” correr o risco de morrer no mar, migrar a qualquer custo, do que ficar ali, onde nasceram e se criaram. Por trás da barbárie da emigração forçada estão as coalisões das potências imperialistas que devastaram militarmente o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, que espoliam a África central, o chifre da África, que promovem ou patrocinam governos ou bandos armados que terceirizam a espoliação de riquezas naturais, como no Congo por exemplo [com seus 6 milhões de mortos dos anos recentes]; a lista de crimes sociais das grandes potências e seus regimes clientes é interminável e histórica.

Com Estados Unidos à cabeça desde antes da II Guerra Mundial para cá, foram as forças imperialistas que, naquele canto do mundo, esquartejaram, desuniram, lançaram nação contra nação, bando contra bando, na obsessão de defesa dos seus interesses geopolíticos e de saque.

Não por acaso, o segundo grande grupo de migrantes - depois dos sírios - que vai para a Europa são afegãos, país onde Merkel mantém milhares de soldados alemães, portanto, país que a Alemanha também ocupa [3º contingente depois de Estados Unidos e Inglaterra], destrói e desagrega. Aqueles problemas não existiriam nessas proporções sem a ação imperialista do grande capital europeu lado a lado com o hegemon norte-americano.

Mas aquela contradição acima mencionada, que tanto deveria chamar a atenção, entre retórica e fatos, se dá hoje a céu aberto. Fatos como o acordo de março deste ano entre União Europeia e Turquia para que o ditador turco, Erdogan, não deixe que os migrantes cheguem à Europa por terra, falam mais alto que discursos. Aqui aparece a Turquia lucrando com os migrantes: recebe 6 bilhões de euros da UE para cumprir o papel de cão de guarda contra os povos que fogem do horror da guerra na Síria, no Iraque, e do Estado Islâmico; bloqueia o acesso por terra, somente restando aos povos se atirarem no mar.

E este é precisamente um dos grandes fatos humanamente chocantes: a Alemanha e os governos europeus “humanitários” sabem que barrar a chegada por terra, empurra as ondas migratórias para o mar. Lança mulheres, homens e crianças a se afogarem no mar Mediterrâneo, aos milhares [apenas este ano, em torno de 4 mil vidas ceifadas].

E não custa perguntar: com aqueles recursos bilionários gastos na ocupação, Merkel tem autoridade para alegar preocupação com os migrantes que ela mesma expulsa do Afeganistão? E Erdogan, com os 6 bilhões de euros que recebe para fechar a via terrestre das migrações, e que basicamente se preocupou em gasta em segurança, aproveitou para aparelhar a polícia de fronteira, para nada preocupado com a vida precaríssima e miserável dos migrantes?

Mas o fato é que, sob qualquer avaliação séria, a política dos governos europeus nega, na prática, ou seja, concretamente, qualquer retórica humanitarista. A UE é a mão invisível que já afogou 4 mil pessoas este ano e mais de 40 mil somando os últimos dezesseis anos.

Outros fatos: nem 1% dos migrantes que chegam são incorporados à sociedade europeia. Quase nada; a maioria fica em campos de confinamento, como regra desumanos, de onde, massivamente, são deportados a qualquer momento. Se esboçarem qualquer reação diante da desumanidade da brutalidade e assédio policial, das privações de comida, banheiro, chuveiro, água, cama de cada campo de confinamento, são criminalizados, torturados, deportados. E mais: quando a patronal europeia incorpora alguns milhares de migrantes é na base de sub-emprego, precarizado, baixíssimos salários, direito nenhum. Ao mesmo tempo em que a maioria dos migrantes vive na atroz insegurança, sendo em algum momento expelida de volta à Turquia, aos seus países de origem. A Turquia, coerente com seus interesses, mantém quase 3 milhões de refugiados acantonados. Para os quais aqueles bilhões de euros não chegam nunca sequer sob a forma de qualidade básica de vida.

Na verdade, o aparato e os negócios de segurança, vinculados à repressão policial crescem astronomicamente na Europa; mas não há recursos para a construção de abrigos decentes. Na Alemanha chegam a usar campos de concentração da II Guerra como abrigo [Dashau, por exemplo]. Os recursos que faltam aqui, Merkel gasta para ocupar o Afeganistão, com suas forças militares. A verdade, em última instância, é que os refugiados e as migrações são fruto do fracasso da globalização neoliberal. Lado a lado com o protecionismo, o nacionalismo, a xenofobia, são conexões de um mesmo processo. Que inclui a incorporação de força de trabalho jovem e precarizada para tocar sua máquina de lucro [extração de mais-valia absoluta].

Uma verdadeira e não mais retórica política humanitária, seria a de respeitar a autonomia nacional dos afegãos, seu lar, e investir nos abrigos para migrantes, gerar maciçamente empregos de qualidade, diminuir as horas de trabalho para empregar a todos, tanto trabalhadores migrantes quanto nativos. Nada disso interessa à Europa do capital.

E tanto a catástrofe das migrações quanto o submetimento dos países mais fracos da Europa ao imperialismo alemão, são faces daquela mesma moeda: fracasso da globalização imperialista e a resposta que dão em forma de política econômica, que descarregue a profunda crise dos capitalistas sobre as costas dos trabalhadores, inclusive sob a forma de guerra e de extermínio por terra e por mar.




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