Cultura

ESPECIAL ROSA LUXEMBURGO: ÁGUIA DA REVOLUÇÃO

A Rosa e o Leão: os assassinatos de Rosa Luxemburgo e Leon Trotski

Dois assassinatos políticos e duas grandes personalidades revolucionárias do século XX. A Rosa e o Leão: a obra de um pintor italiano sobre duas vidas que se cruzam.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

segunda-feira 14 de janeiro| Edição do dia

Fotos: obras de Giangiacomo Spadari

Tradução: Mariana Duarte

Em 1972 o pintor italiano Giangiacomo Spadari apresentou “La rosa e il leone”, amostra sobre os assassinatos de Rosa Luxemburgo e Leon Trotski. Em uma biblioteca madrilenha descobri um exemplar do livro, editado pela galeria Scwartz de Milão na ocasião da dita exposição. Vinte obras do pintor italiano sobre as figuras de Luxemburgo e Trotski, sobre seus assassinatos e seus assassinos.

A mostra gráfica combina fotografías, técnicas de solarização e uma explosão de cores, cruzando planos e abrindo uma reflexão sobre as afinidades destas duas grandes personalidades revolucionárias do século XX.

Os assassinos

A Rosa vermelha. Um golpe com a ponta do fuzil em sua cabeça, um grito, ela no entanto resiste. Um tiro na nuca termina sua vida. Rosa Luxemburgo. “Uma das mentes mais brilhantes entre os herderos científicos de Marx e Engels”, havia dito sobre ela Franz Mehring. Que fosse uma mulher que possuía essa mente sobre seus ombros era uma ofensa adicional para seus inimigos.

Aniquilar a Rosa Vermelha e Karl Liebknecht: A voz do fogo da revolução nas ruas de Berlim. Em 15 de janeiro de 1919 o corpo de Rosa foi tirado do rio. Essa noite de inverno se afundou na escuridão e seu cadáver apareceu vários meses depois. O mesmo tratamento recebeu Liebknecht, o homem que se levantou sobre uma tribuna para desafiar a traição social democrata e enfrentar a carnificina imperialista.

Os soldados de Freikorps executaram os crimes, mas o governo dos social-democratas Noske e Ebert os promoveram. Queriam terminar com a insurreição dos conselhos operária, cortar-lhes a cabeça. As calúnias prévias, as campanhas contra a “Rosa, a sangrenta”, líder dos espartaquistas, prepararam o terreno.

O Leão indomável. Primeiro de agosto de 1940 uma serpente enviada por Stalin executou sua missão. “Nessa tarde de 20 de agosto, um assassino profissional da sinistra GPU ou NKVD, a qual a mera menção de suas iniciais fazia tremer qualquer soviético, levou a cabo um plano pérfido e traicionero que havia sido cuidadosamente desenvolvido. Sob o pretexto de corrigir um artigo, o assassino alcançou acessar ao estúdio do criador do Exército Vermelho. Quando os dois homens estavam sozinhos, o assassino o atacou pelas costas, erguendo uma picareta de aço afiada com cabo curto, utilizada pelos alpinistas. Em poucos segundos, foi destruído o cérebro de “um dos lutadores mais brilhantes pela causa do socialismo”, escreveu um tempo depois Esteban Volkov, neto de Leon Trotski.

Um grito ensurdecedor sacudiu o último refúgio do Leão no México, depois de ter cruzado oceanos e fronteiras. Todos coriam, mas ele no entanto dava as instruções parar capturar o assassino, para detê-lo vivo.

Como uma repetição trágica mas aumentada daquele crime que antes cometera a social-democracia, a burocracia stalinista ordena e planifica o assassinato de Trotski, cume do processo de aniquilação massiva de revolucionários e opositores na URSS e na Internacional. Ambos assassinatos foram promovidos por uma burocracia que havia emergido do seio do movimento operário, mas que havia se tornado em agente do Estado capitalista em suas fileiras para preservar a ordem.

Algumas das pinturas de Spadari retratam o assassino de Trotski, Ramón Mercader, treinado pelos stalinistas na Espanha, alistado em Moscou. Uma das obras de Spadari se entitula “Il mandante” e mostra Stalin por trás de seu agente.

Os amigos

Rosa Luxemburgo nasceu em 5 de março de 1871, o mesmo ano da Comuna de Paris. Morreu assassinada aos 47 anos em Berlim. Começou a militar com 15 ans no movimento socialista polonês e pouco depois ia se transformar em uma das maiores revolucionárias de todo o século XX.

Em seu enterro marcharam milhares de trabalhadores e trabalhadoras. Em uma de suas obras, Spadari aplica a técnica de solarização e montagem sobre as fotografias do enterro de Rosa Luxmburgo: uma multidão nas ruas homenageando a revolucionária. Em outras aparecem Rosa e Liebknecht, fragmentos da cidade, os operários insurretos em Berlim.

Em 1940, uma multidão de mais de 100.000 operários reccorre às ruas do México para homenagear o grande dirigente ao lado de Lenin da Revolução Russa, o organizador do exército vermelho, o incansável revolucionário, o principal inimigo da burocracia. Na obra de Spadari aparecem o profeta armado e o profeta desarmado (alusão a obra bibliográfica de Detscher), Trotski e Lenin, a tumba de Trotski em Coyoacán.

Fragmentos que se sobrepõe na potente obra gráfica do artista italiano, que com múltiplas capas consegue superar as duas dimensões da tela para projetar uma imagem com profundidade histórica.

Afinidades eletivas

Na ocasião da Revolução Russa, Luxemburgo havia esboçado um trabalho muito crítico sobre os acontecimentos, que culminava com palavras de admiração e afinidade pela obra dos bolcheviques:

“Lenin, Trotski e seus amigos foram os primeiros, os que foram a cabeça como exemplo para o proletariado mundial; são entretanto os únicos, até agora, que podem clamar com Hutten: “Eu ousei!” Isso é o essencial e duradouro na política bolchevique.”

Pouco depois, em janeiro de 1919, Leon Trotski se vê obrigado a emprender a amarga tarefa de escrever sobre o assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo:

“Ao lado de Karl Liebknecht, o nome de Rosa Luxemburgo se conservará para sempre nos fastos do movimento revolucionário universal. Conhecem as lendas sobre os santos e sua vida eterna? Estas histórias se baseiam na necessidade que têm os homens de conservar a memória daqueles, como líderes, lhes tenham servido honesta e verozmente; necessitam imortaliza-los envolvendo-os em uma auréola de pureza. Camaradas, nós não temos a necessidade de tais lendas; não necessitamos canonizar nossos heróis, nos basta a realidade dos acontecimentos que estamos vivendo, por si mesma legendária, que manifesta a força e o espírito de nossos dirigentese forja carateres que se destacam sobre o resto da humanidade.”

A Rosa e o Leão: duas vidas que se destacam na luta pela revolução e o combate à burocracia, duas figutas heróicas e profanas de nosso tempo qu inspiram as novas gerações.

A obra de Spadari, praticamente desconhecida nas últimas décadas, representa uma viva reivindicação através da mirada de um artista e uma reflexão sobre a convergência, profunda e contraditória, entre a arte e a revolução. Há 100 anos do assassinato de Rosa e 79 de Leon, uma bonita homenagem.

VEJA TAMBÉM: Rosa Luxemburgo: Pensamento e Ação

A Boitempo e Edições Iskra lançam uma biografia inédita de Rosa Luxemburgo em Português no centenário de seu assassinato. Obra de Paul Fröhlich, seu companheiro de militância, retrata a vida da mulher que “terá sido a maior dirigente revolucionária mulher do último século” desde a sua infância até o seu assassinato. Assim como analisa suas mais importantes obras, retratando cada uma das batalhas que deu em defesa do marxismo e do socialismo em oposição à barbárie capitalista.

Aqui no Esquerda Diário, publicaremos diariamente textos de e sobre Rosa Luxemburgo e um Dossiê Especial no dia 15 de Janeiro, centenário de sua morte.

Acompanhem no Esquerda Diário nosso Especial: “Rosa Luxemburgo, águia da revolução” e também os lançamentos da Biografia que faremos em todo o país!




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