Cultura

LITERATURA

A Revolução russa em verso e prosa (parte 3)

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 31 de março| Edição do dia

Contar a história da Revolução russa envolve não apenas responsabilidade política mas criatividade. O baixo nível intelectual daqueles que trabalham pela memória dominante, aparece em várias ocasiões trajando as roupas da autoridade acadêmica ou do escritor genial. É por estas e outras que a Revolução de 1917 aparece muitas vezes minimizada, ridicularizada, cretinizada e colocada como um golpe político que inevitavelmente pariu o totalitarismo. O gesto de caluniar um evento histórico que emancipou o proletariado russo e tornou-se referência para a classe operária de todo o mundo, aparece sob a forma de estudos históricos, filmes, romances e por aí vai. Desnecessário dizer que precisamos rebater este estado de coisas difundindo as imagens revolucionárias, o significado histórico progressista da Revolução russa. Como já foi dito anteriormente, este é o objetivo desta série de artigos que trata especificamente das questões literárias.

Vimos anteriormente na segunda parte desta série, que a Revolução russa gerou uma profunda reviravolta no campo da literatura. Futurismo, arte proletária, construtivismo e uma série de outros movimentos orientavam esteticamente poetas e escritores. Algum leitor sem imaginação histórica, poderia questionar os motivos para tratarmos de obras literárias da ex-União Soviética, levantando assim possíveis dúvidas sobre a relevância destas para a classe trabalhadora dos nossos dias. A resposta aparece em 3 palavras: tradição literária revolucionária. Ou seja, alimento sensível/ideológico para que os trabalhadores não apenas compreendam objetivamente os fatos históricos, mas tenham contato com imagens poéticas e situações fictícias que enriquecem esteticamente a experiência com estes mesmos fatos históricos(contribuindo decisivamente para que estes fatos façam sentido/atinjam os sentidos, atuem sobre o imaginário). É indispensável que o escritor trabalhador de hoje tenha conhecimento da tradição literária soviética.

O bolchevismo nos ensina que a educação política da classe trabalhadora, passa pela criação de valores revolucionários encontrados inclusive na literatura. Informar/formar a classe trabalhadora brasileira acerca de poemas, romances, contos e peças de teatro que existem sob a órbita da Revolução de 1917, é um dever militante: a despolitização e as sofisticadas formas de alienação ameaçam romper os laços que unem os trabalhadores e suas realizações históricas. A esquerda brasileira não pode permitir que os trabalhadores de hoje desconheçam o legado revolucionário de Outubro de 1917. Uma obra literária pode cumprir um tremendo papel neste necessário processo de formação histórica. O gênero do romance, que como já vimos foi combatido pelos vanguardistas soviéticos, possui mecanismos literários que podem proporcionar uma relação estética progressista com a Revolução russa. O mesmo podemos afirmar em relação à dramaturgia. Mas de que modo a falta de ousadia estética e a elaboração de uma literatura burocratizante, verificadas no período stalinista, distanciam-se da efervescência artística proporcionada pela tomada do poder pelos bolcheviques? Para tentarmos responder esta questão, façamos uma comparação entre a peça teatral Mistério Bufo (1918), de Vladímir Maiakóvski e o romance Assim Foi Temperado o Aço (1932), de Nikolai Ostrovski.

Tanto na peça de Maiakóvski quanto no romance de Ostrovski, o processo revolucionário russo é o tema que move os enredos. Enquanto artistas, ambos não poderiam atuar de acordo com a metodologia da ciência histórica. Não se pode confundir a natureza do texto histórico com a natureza da arte: a objetividade científica e o caráter inventivo, modelar da obra literária, implicam em métodos distintos para reconstituir um fato histórico. No Prefácio de sua História da Revolução Russa, Trotski afirma: "(...) A história de uma revolução, como toda a História, deve antes de tudo relatar os fatos que se passaram e como se passaram. Isto porém não basta. Segundo a própria narrativa, é necessário que se veja claramente por que os fatos aconteceram desta e não de outra forma (...)". Este rigor marxista de Trotski, que o coloca na condição de historiador, não o impediu (como já tive a oportunidade de dizer no artigo Narrativas e Lutas Sociais, publicado este ano neste mesmo jornal) de tecer uma obra em que a sequência dos fatos é apresentada de acordo com uma prosa que remete aos elementos estéticos da escola realista. Objetividade científica e primor literário podem, portanto, estar lado a lado. Mas tratando-se especificamente das obras de arte, existe um campo imagético que pela sua própria composição também enriquece a reflexão histórica; no caso, a reflexão sobre a Revolução russa.

Expor algumas diferenças entre Mistério Bufo e Assim Foi Temperado o Aço, não envolve apenas proceder sobre como dois momentos literários distintos abordam o tema da Revolução russa. Tais circunstâncias artísticas não se separam de reviravoltas políticas: entre 1918 e 1932 observamos um lento processo histórico marcado pelo conflito entre as tendências mais criativas da cultura e a ala burocrática do governo soviético. A peça de Maiakóvski, expressão da arte de vanguarda, coloca esteticamente a Revolução como um cataclismo e não como uma camisa de força: para celebrar o primeiro ano da Revolução soviética, alegorias e bom humor eram armas teatrais contidas num texto experimental. O antinaturalismo e a negação do aprofundamento psicológico dos inúmeros personagens(estes são representações de forças sociais) moldam um texto que funciona simbolicamente como uma espécie de crônica debochada: Puros, Impuros, um Conciliador, Intelectuais, A Dama, Os Diabos, Os Santos, Jeová, Personagens da terra prometida e o Homem do futuro, atuam sobre um panorama de temas e situações históricas nos quais a Revolução apresenta-se como marcha, como uma destruição poética do velho mundo burguês.

Tanto em 1918 quanto em sua segunda versão de 1921, Mistério Bufo foi acusada de ser uma peça “ inapropriada para as massas “. Já dar pra sentir no queixo a mão pesada da burocracia que, no início dos anos 30, surgiria para cortar de vez o barato de todo mundo na União Soviética: as massas seriam subestimadas e impedidas de estabelecer contato com obras de arte inovadoras e ao mesmo tempo ligadas ao gosto popular. Ainda sobre Mistério Bufo, cabe lembrar que esta peça nunca é algo acabado: na versão de 1921, existem fatos históricos que são inseridos, tais como as lutas entre Vermelhos e Brancos durante a Guerra Civil, o problema do imperialismo e a escassez de alimentos(uma época tão barra pesada, que chegou a rolar canibalismo em algumas províncias russas). Essa necessidade de pensar um texto teatral sempre pronto a responder/representar novas situações políticas, é resumida na nota que Maiakóvski faz à peça: "(...) No futuro, todos aqueles que forem representar, encenar, ler, publicar Mistério Bufo, que mudem o conteúdo, façam-no contemporâneo, atual, imediato (...)". Logo se vê que esta visão arrojada da arte revolucionária é incompatível com o controle burocrático; não tem nada a ver com a futura imobilização estética do Realismo Socialista.

O convencionalismo estético na literatura é uma marca registrada do jdanovismo. No caso de Ostrovski, temos um escritor de mão cheia, talentosíssimo, mas que inevitavelmente empobreceu sua própria prosa com o artificialismo do Realismo Socialista. Assim Foi Temperado o Aço não poderia ter passado em branco na literatura soviética. É um romance que merece ser lido e criticado segundo o ponto de vista da Revolução. A vida do protagonista Pavel, confunde-se com momentos importantes da Revolução russa: são mais de 400 páginas que percorrem o cotidiano da incansável luta proletária, num percurso que vai da Revolução de 1917 até o final dos anos 20. Da infância á juventude, o personagem Pavel conhece privações, humilhações, violências, doenças ,alegrias, tristezas, descobertas e todo tipo de dor que fizeram dele um revolucionário que não conhece o desânimo. Ele representa a meta política edificante, a imagem de bravura e simplicidade exigida pelo governo de Stalin. Esta imagem é verdadeira?

Pavel é o herói do trabalho cuspido e escarrado. O personagem possui um caráter autobiográfico, sendo que o autor atravessou os mesmos problemas de saúde e situações históricas idênticas às de Pavel. A escrita de Ostrovski é um notável esforço político que atua psicologicamente/ideologicamente sobre leitores que conheceram a fome, a guerra e o sofrimento cotidiano. Se existe um ponto a ser valorizado na obra de Ostrovski, é que para o autor a literatura revolucionária deve fortalecer o leitor proletário. Porém, a burocratização da literatura que visa reprimir as forças revolucionárias da cultura, contamina a estética do romance. Ostrovski coloca a pena não a serviço do movimento dialético da Revolução mas da propaganda necessária para justificar ideologicamente a existência da burocracia stalinista.

No romance de Ostrovski, o operário não é feito de carne, sangue e ossos mas sim de aço. Esta dura visão literária é até certo ponto compreensível à luz das exigências ideológicas para o leitor operário reafirmar espiritualmente, no âmbito da personalidade, as árduas lutas do Estado operário(que no início dos anos 30, estava perdendo seu sangue revolucionário para os parasitas da burocracia). Porém, este modelo de aço é feito de um material literário muito frágil: um romance político só pode contribuir efetivamente com a educação política das massas, se o seu enredo não for utilizado para encobrir mentiras. Os crimes do stalinismo iam pra debaixo do tapete, enquanto este tipo de literatura criava uma realidade ideal que não correspondia aos fatos políticos.

Narrar a Revolução russa através de personagens esquematizados, com um espírito de sacrifício e uma ingenuidade capaz de agradar a mais beata de todas as leitoras, consolida uma versão dos acontecimentos que justifica as medidas políticas de Stálin: a tese da Revolução em um só país, encontra seu correspondente literário numa prosa em que o patriotismo e a brutalidade da luta fomentam um sentimento edificante que não permite crítica e autocrítica. A linearidade do romance desemboca num sinal verde para a repressão política a críticos e opositores( no romance, a posição dos trotskistas é condenável). Portanto, é o olhar dialético que nos permite compreender que o romance Assim Foi Temperado o Aço, é uma obra esteticamente apoiada nas contradições históricas do Estado soviético naquele momento: as lutas revolucionárias são vistas em passagens dotadas de vigor literário, mas ao mesmo tempo (e contraditoriamente) construídas a partir das distorções políticas(e do convencionalismo artístico) do stalinismo.

Sendo assim, dois autores revolucionários (Maiakóvski e Ostrovski) representam momentos distintos da literatura soviética. Ambos devem ser lidos e estudados. Aliás, a literatura soviética, seja na época do florescimento revolucionário dos anos 10/20, seja na época da contra-revolução stalinista, abrange um legado a ser devidamente debatido entre os escritores trabalhadores de hoje. É a eles que dedico esta imperfeita(mas apaixonada) tentativa de olhar a Revolução russa nas dimensões do verso e da prosa.




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