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TEORIA | REVOLUÇÃO RUSSA

A Revolução Russa: peça de museu ou legado vivo para os trabalhadores contemporâneos?

A União Soviética caiu: por que então a Revolução Russa não deveria passar a ser considerada peça de museu?

Gilson Dantas

Brasília

domingo 9 de outubro| Edição do dia

A Revolução Russa foi um golpe de Estado, executado por um punhado de bolcheviques liderados pelo “duro” Lenin contra um governo fraco. Mais ainda: a monstruosidade stalinista que veio depois na URSS é filha dileta e direta dos bolcheviques; sua queda, em 1990, sempre mencionada como queda “do comunismo” vem a demonstrar que o socialismo não era possível, e nem é compatível com “democracia”.

Por outro lado, tentar “homenagear” a Revolução Russa, uma espécie de relíquia (com seus “bolcheviques e sua “tomada do palácio de inverno”), tem tanta importância ou sentido quanto homenagear a Revolução Francesa ou, quem sabe, a Guerra de Tróia: são passado histórico – de interesse historiográfico e acadêmico –, sendo que, no caso específico da Revolução Russa, ainda resta um sabor de parque dos dinossauros.

A descrição acima não é uma caricatura. Às vezes sem disfarces e travestida de mil variações, ela tem sido a abordagem dominante e mais frequente não apenas nos respeitáveis meios acadêmicos, como também na grande mídia e, curiosamente, em parte da mídia de esquerda, onde valoriza-se e homenageia-se à Revolução Russa para acrescentar, logo em seguida, que não se aplica a hoje, que não pode ser “transplantada mecanicamente”, enfim para evitar a todo custo avaliar o legado vivo daquela revolução. Daí alguns setores da esquerda terminam adotando um certo tipo de resgate que é mais memorialístico do que outra coisa.

As histórias da Revolução Russa que circulam no meio acadêmico e as que são divulgadas na grande mídia sofrem um “recorte” – feito em nome de uma inexistente neutralidade científica – que omite, focaliza ou falsifica este ou aquele dado, para, no essencial, destacar a abordagem citada no início: 1917 foi um golpe político – um putsch – de um punhado de “radicais bolcheviques” para produzir o “comunismo” que se conheceu.

Ora, nenhuma história é neutra. Menos ainda quando procura negar o legado vivo da Revolução Russa para a revolução social contemporânea.

Em seu tempo, a Revolução Russa foi seguida de inúmeras revoluções. Na Alemanha em 1918 e 1923, na Hungria, pela mesma época, na China em 1927, na própria França (onde, logo em seguida da I Guerra colocaram-se condições revolucionárias). Também na Espanha em 1936-38.

No pós-II Guerra, o processo de revoluções sociais veio mais intenso, pipocaram revoluções, rebeliões e movimentos de massa na Europa, na China, em vários países coloniais e o fato político é que, em alguns anos, um terço do mundo estava fora do controle do capital e dos seus investimentos.

Mas também existe outro fato político: em todas estas revoluções: ao contrário da Revolução Russa, foi ao poder, diretamente, desde o início, uma burocracia política (inclusive na forma de partido-exército).

E a verdade, ao final de contas, é que em nenhuma delas a liderança política impulsionou ou retomou os sovietes, ou baseou-se em qualquer outra forma de democracia operária. Em nenhuma delas o comando político levou adiante um programa revolucionário internacionalista consequente (que não conduzis¬se à colaboração de classe ou à subserviência à burocracia stalinista), em nenhuma delas o grupo-líder constituiu-se em partido marxista sequer parecido com o partido de Lenin [1].

Ou seja, tudo parece indicar que existe algum legado político na Revolução Russa, dos seus primeiros anos cujo resgate pode ajudar – ou quem sabe, na verdade, seja absolutamente imprescindível – quando se trata de discutir a revolução socialista hoje. Se é assim, não há dúvida que estamos diante de um tema atual para a classe trabalhadora, empregada e desempregada, que amarga a barbárie social capitalista em marcha.

Pensar que não se colocam e nem se colocarão situações revolucionárias é o mesmo que acreditar que o capitalismo conseguirá manter seu equilíbrio econômico ou que não encontrará resistência social ao aprofundamento da barbárie. Neste caso, pensar que a Revolução Russa deve ficar no museu, beira a crença supersticiosa de que na esfera social, da luta de classes sociais, não há lições, legados, ou normas a serem resgatadas das experiências revolucionárias anteriores.

É um ponto de vista. É congruente com o costumeiro “balanço” que a burguesia divulga sobre a Revolução de Outubro como um episódio isolado, ultrapassado e quase exótico.

Mas não nos enganemos: também são maneiras – operações ideológicas, evidentemente – de se formular uma lição, um legado, um determinado tipo de norma histórica sobre aquela experiência: é passado, fracassou e aos trabalhadores desta era “pós-moderna”, liberal e globalizada só resta a república parlamentar, o voto de anos em anos, enquanto se sonha e se espera por reformas, remendos na ordem social e política reinante. Nada de revoluções, muito menos armadas, muito menos para levar os trabalhadores ao poder.

Este é o fundo reacionário e interessado de todos esses contorcionismos ideológicos. E de todas essas tentativas de afirmar um legado favorável à cultura dominante, contra os trabalhadores. Mas existe outro ponto de vista.

Neste, a história é construída por classes sociais, por movimentos sociais, revolucionários, por partidos que os representem e, nesta medida, através das adequadas comparações e abstrações, se pode formular elementos e ideias necessários e úteis a partir da Revolução Russa. As comparações e abstrações não devem ser abusivas e nem mecânicas, devem ser adequadas, mas são incontornáveis: a história não nos legou outro método. Não existe outra maneira de aprender. E neste caso, a Revolução Russa constitui-se, ainda, em um manual de ensinamentos vivos. Portanto: ensinamentos para a prática política do nosso tempo.

É preciso considerar que, em tudo e por tudo, a Revolução Russa de 1917 marca o início de uma nova era. Que historiador sério poderia negar que a Revolução de Outubro constituiu-se no primeiro desafio prático, politicamente concreto, à ordem burguesa? Para o respeitado historiador E.H. Carr, ali estava sendo produzido, de longe, “o mais formidável movimento revolucionário organizado da história moderna”.

Historicamente, ali começava o século XX, com a instalação pioneira de um governo não-capitalista, com formas e instituições democráticas que o mundo jamais vira e, pela primeira vez na história, sob a forma de governo dos trabalhadores contra o capital.

Com este espírito, revisitemos a história da Revolução de Outubro, de Lenin, Trotski e do partido bolchevique, recapitulemos a história da primeira revolução proletária, da primeira vez em que os operários e camponeses pobres, conscientemente, ousaram romper com absolutamente tudo que os doutores, políticos e especialistas em história pregaram e pregam há séculos para a classe operária: a subserviência e o papel de escravos do capital. Ali, pela primeira vez, os de baixo impuseram uma República dos trabalhadores e despossuídos baseada na democracia de base.

[1] - Partido no qual historiadores competentes como Pierre Broué destacam a existência – antes de sua degenerescência – da mais ampla vida democrática e de embate de ideias (será apenas com Stalin, porém jamais com Lenin e Trotski, que divergências políticas passam a ser resolvidas com polícia e execuções).

Este texto, com adaptações, constitui a Introdução ao livro A Revolução Russa: 1917, o ano da tomada do poder, da Iskra/C. Cultural, com prefácio de Christian Castillo, a ser reeditado em breve.




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