Educação

CONTAGEM REGRESSIVA 8 DE MARÇO - FALTAM 20 DIAS

A Reforma do EM é mais um ataque à luta das mulheres na escola

A reforma do ensino médio é um dos ataques mais profundos para a educação pública nos últimos tempos, os golpistas aprofundam ainda mais a precarização do ensino e o abismo entre a escola pública e privada. Nesse aspecto, além de todos os ataques que já temos visto, temos a diminuição de horas no ensino, a mentira de poder escolher as disciplinas a serem estudadas - já que nem todas as escolas vão oferecer todas disciplinas, por isso, ou o aluno tem que se deslocar de sua escola, tendo muitas vezes que pagar uma passagem absurda, se quiser de fato escolher, ou estudará as disciplinas de forma compulsória - além da questão da formação profissional, que se dará de forma ainda mais precária, com os ensinos técnicos sendo também sucateados.

Taís Roldão

estudante da PUC e militante do Pão e Rosas

quinta-feira 16 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Que essas mudanças irão transformar os estudantes de escolas públicas em mão de obra barata, através do curso técnico no lugar de matérias essenciais, nós já sabemos. Mas em outros aspectos, de que maneira tal reforma atrapalha a libertação desses estudantes?

Como já vimos, a reforma afetará também os debates políticos e as demandas estudantis na sala de aula, já que a maioria desses debates acontecem em disciplinas que serão excluídas das grades curriculares obrigatórias, como filosofia, sociologia, geografia e história. Elas não deixarão de existir imediatamente, porém com as escolas podendo optar pela escolha de disciplinas a se oferecer, aos poucos, essas disciplinas que são consideradas como não importantes, e inclusive doutrinadoras, irão desaparecer.

Com isso, todas as tentativas anteriores de se retirar debates essenciais à vida e cidadania dos estudantes se aprofundam ainda mais com essa nova medida, como por exemplo a tentativa de retirar o debate de gênero das escolas, que acontece com a retirada dessa discussão do PNE (Plano Nacional de Educação), que foi efetivada ainda no governo Dilma, e abriu espaços para que, em cidades como Campinas, se avançassem projetos como o do Campos Filho, que propunha a proibição desse debate, ou também o projeto “ Escola sem Partido” proposto por Alexandre Frota, insinuando que seria contra a “doutrinação política” e “ideologia de gênero”, corrompendo e reprimindo o direito à liberdade de expressão na escola.

E onde tudo isso se liga? Essa reforma e o debate de gênero na escola?

Se liga a partir do ponto em que, com os estudantes permanecendo menos tempo na escola e podendo se formar com a mais precária base de ensino, o que já era débil e não obrigatório, como o debate de gênero que, quando acontecia, era por meio da boa vontade de alguma professora ou professor, vai deixar de existir por completo. Não é segredo para ninguém que isso é algo que os governos já vêm tentando fazer há algum tempo, mas que a resistência das mulheres, professores e professoras e toda a comunidade escolar ainda não permitiu. Porém com essa reforma e ainda menos aulas de humanas, ou melhor, menos tempo para o conteúdo em geral, o que já quase não existia fica completamente comprometido.

É fácil perceber o reflexo da falta que faz o debate de gênero em um país como o Brasil, onde temos casos como o do Rio de Janeiro, em que 33 homens violentaram uma menina, ou como o feminicídio em Campinas no fim do ano, que deixou 8 mulheres mortas pelo ex-marido de uma delas. Em um país que uma mulher morre a cada uma hora e meia, segundo IPEA, não debater gênero e sexualidade na escola é um crime contra a vida.

O debate de gênero e sexualidade é fundamental, primeiro porque parte de nós, mulheres e estudantes, passamos por violências na rua, e precisamos de um lugar em que possamos debater de forma mais horizontal, tendo em vista que em casa diversas vezes somos reprimidas e forçadas a acreditar que o medo que sentimos é invenção da nossa cabeça. Queremos esse debate porque ele ajuda a avançar com os nossos colegas homens e com todo o resto da comunidade escolar em como a opressão das mulheres se dá, e como muitas atitudes e costumes reforçam tudo isso.

Um outro aspecto da reforma, que na verdade é extremamente fundamental para refletirmos algumas questões sobre as condições de trabalhos dos jovens, e principalmente das mulheres que nesse grupo se encontram, é pensar na formação profissionalizante, que é um dos aspectos mais propagandeados pelo governo golpista. Porém, para refletir em torno dessa questão e chegar a conclusão de como é mais uma grande mentira de Temer, é necessário pensar a reforma em conjunto com a PEC 55 que congela o investimento em educação por 20 anos, o que pelo que se calcula, seria um déficit de 20 milhões por ano. Sendo assim, como vamos aprimorar a educação e formar jovens qualificados para o mercado de trabalho sem um investimento devido? Fora isso, como podemos acreditar na qualidade dessa profissionalização frente a, na verdade, todo um ataque dos golpistas aos direitos trabalhistas, aumento da terceirização, entre alguns outros planos de ajustes.

Nós queremos conseguir estar no mercado de trabalho e nos profissionalizar, mas não de forma precária como nos querem impor. No caso, para as mulheres isso é ainda mais profundo, pensando que naturalmente já recebemos menos e ocupamos postos mais precários, deste modo, como podemos não nos indignar com uma reforma como essa. Que para além de dificultar todo um processo de debate dentro da escola, ainda nos colocam um ensino profissional ainda mais precário, para que nossos empregos sejam cada vez mais subvalorizados.

Nisso, não só nós, como mulheres, mas sim todos devemos nos conscientizar do quão importante se mostra o debate de gênero em nossa sociedade, e lutarmos pela sua existência. O Ensino Médio tem papel primordial na educação de uma pessoa, um deles se dá pela conscientização em diversas questões importantes na vida do jovem, e em ajudar os jovens na sua formação. Uma pessoa que diz ver a discussão de gênero como não urgente, assume que os diversos casos de agressão domiciliar, estupro, abuso, entre outros, não merecem nossa atenção. Por isso, é de extrema importância que lutemos em conjunto contra a Reforma do Ensino Médio, e pela permanência das disciplinas que nos trazem a tona tais reflexões, como todas as outras que se fazem de extrema importância para a qualificação dos alunos.




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