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A Questão Negra nos Estados Unidos

Leon Trotski

A Questão Negra nos Estados Unidos

Leon Trotski

Apresentamos a tradução do do debate que Leon Trótski manteve com membros da Liga Comunista Norteamericana (CLA, em inglês) sobre a “questão negra” nos EUA. Swabeck foi a um encontro com Trótski na Turquia, para discutir diversos assuntos; Parte deste grupo havia sido expulso do Partido Comunista (PC) norteamericano e adere à Oposição de Esquerda Internacional.

O presente texto é parte do livro Revolução e o Negro publicado pelas edições Iskra e que traz textos de marxistas clássicos e inéditos em português, como de Leon Trótski, C. L. R. James e George Breitman, além de contribuições inéditas dos organizadores, esse livro procura traçar um panorama das relação orgânica entre capitalismo e racismo, mostrando como o preconceito racial tem sua origem na justificativa do comércio escravocrata capitalista e discutindo como os revolucionários encaram as complexas imbricações da luta antirracista e anticapitalista – partes de um mesmo combate contra a exploração e a opressão.

Em sua viagem Swabeck atravessou Berlim, pouco antes de que Hitler fosse nomeado chanceler. Os Estados Unidos era governado pelo democrata Roosevelt. Ainda se sentiam os efeitos da grande depressão de 1929. Porém, em 1933 começou uma reação do movimento operário, onde os trabalhadores negros eram um setor importante. Não estava em discussão que era um setor oprimido pelos brancos. No entanto, como manifesta Swabeck, a CLA ainda não “havia formulado um programa”.

Trótski viveu em Nova York entre janeiro e março de 1917, quando zarpou rumo a Revolução Russa. Em Minha Vida relembra a anedota sobre o porteiro da casa que alugou chegando no Bronx como seu primeiro contato com a “questão negra”. Após a Revolução Russa e seu impacto em todo o mundo, quando forma a Terceira Internacional (IC) junto a Lênin, a “questão negra” não só nos EUA mas em todo mundo (começando pela África) e o problema das nacionalidades oprimidas pelos distintos imperialismos como a luta pela sua libertação foram uma preocupação constante para ele. A política bolchevique de “direito à autodeterminação” (inclusive sua separação) para as nacionalidades oprimidas pelo czarismo foi chave para a Revolução Russa para ganhá-las para a Revolução. Ainda que Trótski considerava que nos EUA “os negros são uma raça e não uma nação”, tende a tomá-lo do ponto de vista programático como uma nação oprimida. A política de “igualdade econômica, política e social” que propõe Swabeck parecia insuficiente para ele.

É sobre estas “considerações gerais” que discute com Swabeck e as posições da CLA. Em primeiro lugar os chama a um estudo sério da situação dos negros na América do Norte e as reivindicações de seus movimentos. Igual a Lênin, coloca sobre as nacionalidades oprimidas: “Um critério abstrato não é decisivo nessa questão, muito mais decisiva é a consciência histórica, seus sentimentos e impulsos”. Para Trótski, “A dialética do desenvolvimento mostra que, onde o centralismo rígido existia, o Estado se fragmentou, e a completa autodeterminação foi promulgada, um Estado real emergiu e permaneceu unido”. A social democracia austríaca (e em geral toda a social democracia) é um exemplo de ‘centralismo rígido’”.

Em 1933 os negros estavam longe de serem assimilados, como coloca Swabeck. No sul haviam proliferado os linchamentos pela Ku Klux Klan, amparados pela lei e os Estados. Quando quatro milhões migraram para os centros urbanos no Norte, os linchamentos continuaram e suas moradias eram nos piores locais e bastante aglomeradas.

Para Trótski, o direito à autodeterminação não tem que estar restrita a um setor dos EUA, como propunha o PC, adjudicando o “cordão negro” do Sul. Para ele, eles deviam decidir o que queriam e onde queriam, e isso era o mais importante: “É claro que não obrigamos os negros a formar uma nação; se eles o fazem, então será uma questão de consciência deles, ou seja, o que eles desejam e pelo que lutam”. Somente desta forma os revolucionários poderiam ganhar aos negros trabalhadores e aos mais pobres. Dando-lhes confiança em si mesmos, o que os levaria a enfrentar-se com o imperialismo.

Sobre a classe operária branca disse: “noventa e nove dos trabalhadores estadunidenses são chauvinistas, em relação aos negros eles são carrascos, assim como o são para os chineses. [...] É necessário fazê-los entender que o Estado dos EUA não é o Estado deles e que eles não precisam ser os guardiões desse Estado. Os trabalhadores estadunidenses que dizem: ‘Os negros devem se separar se assim o desejarem e nós os defenderemos contra a polícia de nosso país’ estes são revolucionários, e eu confio neles’”. Se não se dá essa mudança de consciência dos trabalhadores brancos, para Trótski, não havia unidade possível com os negros.

Em discussões que manteve com CRL James no México, durante abril de 1939, reafirmou a necessidade de levantar esta consigna, já que em 1933 não os havia convencido. Uma última discussão se deu em 1940 pouco antes do assassinato de Trótski.

Na atualidade, houve avanços na situação das e dos negros com relação ao que Trótski viveu. Em 1964, a lei de direitos civis proibia a discriminação racial e o emprego em 1965 da Lei de Direitos Eleitorais criou direito de votos para todos, independentemente de sua raça. Porém, mais além das leis, a vida dos negros seguia os condenando à miséria. Em 1967 e 1968 se deram as maiores revoltas do movimento negro. A repressão e a Guerra do Vietnã os levou a uma maior radicalização. Ao mesmo tempo a burguesia norte-americana, especialmente o Partido Democrata, teve uma política de cooptação gerando um setor de classe média negra, com acesso a distintas profissões e um setor muito pequeno que podia inclusive se converter em burguês. Isso permitiu que o neo-liberalismo implantado por Reagan nos anos 80 avançasse sobre o movimento negro dividido. Porém, assim como se manteve acrescentou a diferença salarial, a entrada nos piores trabalhos, que fossem a maioria entre os desempregados, bem como entre os presos e assassinados, também cresceram outros imigrantes oprimidos como os latinos e os asiáticos. E de conjunto houve uma grande precarização laboral que afetou em grande parte a jovens brancos. Os jovens que hoje se manifestam contra assassinato George Floyd não são somente os negros. Há latinos, asiáticos, brancos. Inclusive despertam os oprimidos em outros imperialismos como a Grã-Bretanha e França. É um grande passo para terminar
com o racismo e a divisão imposta.

O texto apresentado foi fruto de uma ampla pesquisa de originais. Sua fonte foi a publicação Leon Trotsky on Black Nationalism and Self-Determination [Leon Trótski sobre o nacionalismo negro e o direito à autodeterminação], segunda edição, livro organizado e editado por George Breitman e publicado pela Pathfinder Press em 1977, que recebeu uma criteriosa revisão com base nos manuscritos de Trótski disponíveis na Biblioteca da Universidade de Harvard. Diferentemente de outros debates, este se deu em alemão, e não em inglês. A edição traz, ainda, notas bastante úteis, algumas das quais incluímos na segunda edição do livro Revolução e o Negro . Como alertam os editores, terminologias cujo uso era corrente nos anos de 1930 ou de 1960 não foram corrigidas de acordo com os usos do presente – e nisso os seguimos. Há no site Marxists.org uma versão em inglês dessas atas, a qual desaconselhamos.

Esse livro, bem como diversos outros, podem ser adquiridos no catálogo online da Editora disponível aqui

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