A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.12

A I Guerra: uma grande carnificina para o grande capital

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 2 de fevereiro| Edição do dia

Na nota anterior tentou-se mostrar de que forma, através da concorrência, empresas imperialistas europeias, norte-americanas e japonesas vão se convertendo em grandes oligopólios em disputa pelo mercado, colônias e recursos naturais mundo afora. Dividem espaço mundial, começam a se tensionar entre si, sua disputa muda de escala, dessa forma, nos marcos de uma crise de acumulação do capital, preparam o terreno para o fim da era do capitalismo relativamente pacífico.

Definitivamente.

Um dos maiores estudiosos do capitalismo do século passado diz, a respeito, o seguinte:

“Houve uma época de capitalismo relativamente `pacífico`, quando, nos países avançados da Europa, o feudalismo vinha de ser completamente vencido: o capitalismo poderia então desenvolver-se de maneira muito mais calma e regular, através de uma expansão ‘pacífica’ por vastos territórios ainda não ocupados, e em países que não haviam sido arrastados de maneira definitiva em seu turbilhão.
É bem verdade que, mesmo nessa época, fixada aproximadamente entre 1871 e 1914, o capitalismo ‘pacífico’ criava condições de vida bastante afastadas de uma paz verdadeira: guerra externa e luta de classes. Para nove décimos da população dos países avançados, para centenas de milhões de homens nas colônias e nos países atrasados, essa época não foi de ‘paz’, mas de opressão, de torturas e de horrores ainda mais terríveis porque não se podia prever o seu fim.

Esse período acabou para sempre: sucedeu-lhe esta fase de violências relativamente mais bruscas, manifestando-se aos arrancos, esta época de catástrofes e conflitos, quando o que se torna típico para as massas já não é mais tanto o terror sem fim, mas ‘o fim no terror’ (LENIN, 1969: 10).

Esta crescente disputa por redividir a economia mundial a partir de grandes potências capitalistas pre-para um terremoto cuja primeira face mais aguda virá com a Guerra Mundial de 1914-1918. Ao mesmo tempo, também inaugura uma fase de crescente parasitismo, crises econômicas de porte monumental como a Grande Depressão dos anos 1930, gritantes desequilíbrios na economia internacional que marcarão seu já mencionado declínio. Que incluirá fases de crescimento e recuperação até excepcionais [e de curta duração] como a do pós-II Guerra, só que dentro de uma tendência global e secular à estagnação, ao parasitismo, à destruição maciça de forças produtivas [inclusive tem que destruir capitais para crescer], portanto, declínio.

O desenvolvimento da economia mundial, que era orgânico, sustentado, que estava baseado em um determinado padrão de equilíbrio, desembocou em crises sucessivas, agora em escala global e sem precedentes. O que foi a I Guerra? Grandes potências industriais disputando, a ferro e fogo e ao custo de milhões e milhões de mortes, espaço econômico para seguir com sua acumulação do capital.

A economia mundial em convulsão bélica

A marcha para I Guerra, já foi dito, teve a ver com o fato de que o grande capital europeu não cabia nos seus Estados. Cada grupo capitalista mais forte empurra seu Estado para o conflito de forma a abrir o espaço europeu para si; o capitalismo alemão era, neste sentido, o mais agressivo. Combinava rápido crescimento industrial com maior constrangimento nacional para suas forças produtivas.

Deste ponto de vista a guerra era inevitável. Os Estados Unidos, economia mais forte, por sua vez, não iriam ficar indiferentes à ‘janela de oportunidade’ que se colocava para seus interesses. Aproveitando aquela “janela”, se tornaram mais ricos que todos os rivais).

Na fase imperialista do capitalismo não pode haver equilíbrio, nem econômico nem geopolítico: os novos patamares de acumulação de capitais, as dificuldades crescentes para seguir gerando valor, invariavelmente colocam o problema da continuidade da acumulação em novas bases:

“o desenvolvimento econômico sustentado de um país imperialista precisa garantir seu predomínio mundial incontestado que lhe permita superar de forma parcial a limitação imposta por suas fronteiras nacionais ao desenvolvimento das forças produtivas, utilizando de certo modo ‘ao mundo’ como a extensão de suas fronteiras” (BACH, 1998, p.3).

Dessa forma, chegou-se ao grande confronto, milhões de trabalhadores são armados e enviados para o matadouro do capital em crise.

A I Guerra Mundial explode na condição da maior carnificina militar de toda a era capitalista até então. Seus 10 milhões de mortos superam, em dobro, os 5 milhões que são os mortos somados de todas as guerras desde a Revolução Francesa. Os inválidos de guerra contam-se na escala de 20 milhões e o potencial industrial europeu ficou reduzido em 40 %.

Se a política é a economia concentrada, e a guerra é a continuação da política, a era imperialista leva esta norma à escala mundial e ao parâmetro macabro de milhões e milhões de cadáveres em nome da partilha de mercados e fontes de acumulação do capital dos oligopólios.

“Os quatro anos da guerra imperialista de 1914-18 terminam com 10 milhões de mortos e milhões de feridos. Ela destruiu cidades, estradas, usinas; arrasou territórios, reduziu a população ativa (20 % na França e 15 % na Alemanha), desbaratou e desarticulou a economia mundial, e uma dívida pública enorme que os governos liquidaram em parte através da inflação.

O imperialismo alemão foi vencido, o imperialismo francês ficou envolvido pela destruição massiva de sua economia. Os imperialismos americanos e britânicos saíram reforçados. Da mesma forma em um grau inferior, o imperialismo japonês. A Alemanha, a Áustria-Hungria, derrotados militarmente, tiveram que se submeter aos ditames dos vencedores que vão proceder em seguida da guerra, à redivisão mundial. As condições anunciadas nos tratados assinados após a guerra, cujo principal é o Tratado de Versailles, vão traduzir as relações de força entre vencedores e vencidos da guerra” (GILL, 1983: 43).

A Alemanha que sai arrasada industrialmente da I Guerra é a mesma cujos trustes controlavam metade do transporte marítimo internacional. E sai daquela guerra assistindo à emergente força também internacional dos trustes e oligopólios norte-americanos agora em busca do domínio não mais europeu – caso da Alemanha e Inglaterra na I Guerra – mas planetário.

Poucos anos após a I Guerra – menos de 20 anos depois – os Estados Unidos começam a controlar quase todo o ouro do mundo e, mesmo em meio à recessão, possuem a indústria mais vigorosa do mundo. Sua renda nacional dobrou depois da Guerra e, em 1919, os Estados Unidos exportavam três vezes mais que em 1913.

Mas as nuvens carregadas no horizonte mostravam que aquela Grande Carnificina não era o bastante.

Ela não foi capaz de resolver o problema de uma nova redivisão do mundo e, muito menos, da nova hegemonia (a Inglaterra em decadência continuou incapaz de hegemonizar o capitalismo e os Estados Unidos ainda não se tinham afirmado na correlação mundial inter-Estados).

Os Estados Unidos não tinham se colocado, como será feito no imediato pós-II Guerra, na condição de hegemon, de motor do desenvolvimento econômico. Seu ascenso foi prodigioso após a I Guerra, mas não foi possível aos Estados Unidos “deslocar a Inglaterra da posição dominante mesmo estando os Estados Unidos fundados sobre uma potência econômica real” (GILL, 1983: 51).

E mais que isso, nos anos que se seguem à I Guerra, o crescimento e a prosperidade norte-americana dos anos 20, economia robustecida pela guerra, vai esbarrar no escasso mercado europeu e mundial; ora, sem "resolver" esse problema, como pensar em crescimento norte-americano? Nenhum país capitalista, muito menos imperialista, é uma ilha: sua economia é global, a economia mundial é um todo orgânico.

A expansão norte-americana se dá, portanto, sobre os destroços da economia europeia e paradoxalmente, sem poder contar com o mercado europeu (o maior do mundo naquele momento) para poder desenvolver, naquele espaço, sua expansão mundial, a acumulação do capital. Ainda assim, o desenvolvimento dos Estados Unidos se deu, de toda forma, naquele imediato pós-Guerra, através, por exemplo, da “reconstrução” europeia, às custas da Europa, com base em grande especulação financeira e com os automóveis ocupando parte do papel que tivera a indústria de armas para o setor siderúrgico.

A interconexão orgânica da economia mundial é clara, neste ponto. Assim como ficam também patentes seus desequilíbrios no desenvolvimento. Um exemplo é que a formação de blocos de países buscando exclusividade comercial, já nos marcos da crise da economia mundial do fim dos anos 20, só fez ampliar a crise de países como os Estados Unidos em termos do suprimentos de matérias-primas e de escoamento de suas mercadorias: ou seja, o principal bloco comercial do mundo continuava girando em torno da Inglaterra.

E a crise de acumulação do capital irá encontrar novas formas, novo patamar ao ponto de uma crack geral. Enquanto a economia da URSS crescia [mostrando, apesar da burocracia parasitária e reacionária, o poder da planificação da economia sem o capital].

[Continua na nota n.13]

BACH, Paula, 1998. La crisis de acumulación del capital. Estratégia Internacional-Revista de Teoria y Política Marxista Revolucionária, n.10, Buenos Aires, noviembre-deciembre 1998
GILL, Louis, 1983. L´Economie mondiale et impérialisme. Montreal, Canada: Boreal Express.
Crédito de imagens [modificadas]: site WWI´s Bionic Men e site chemicalweapons.cenmag.org

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas]. Continua na nota n.12.




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