CRISE NA ARGENTINA

A Crise na Argentina: Entenda o que se passa por lá

terça-feira 18 de setembro| Edição do dia

Assim como no Brasil, a crise mundial tem atingido a Argentina com força, com sua economia tendo entrado em estagnação a partir de 2013. Entre 2015 e 2016 o PIB teve uma queda de 2,2%, apesar de ter subido em 2017. O desemprego, que chegou a estar abaixo 6% em 2015, aumentou bruscamente em 2016, assim como a taxa de inflação. Tudo isso se soma à uma crise fiscal em que as receitas tem sido menores que os gastos.

Desde que assumiu, no final de 2015, o governo Macri tem aplicado um plano de ajustes com cortes de gastos e de direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo que continuava a dar subsídios para grandes empresas e pagar a dívida pública. Um dos ataques foi a reforma da previdência, aprovada em dezembro do ano passado, mesmo mês em que o congresso aprovou a reforma tributária que diminuía o imposto de grandes empresas. Em novembro o governo também anunciou uma reforma trabalhista para ser aprovada em 2018.

Apesar das oscilações, o país continua em crise. Um outro fator sobre a crise Argentina é um problema histórico que seu país conta com uma baixa reserva de dólares, o que deixa o peso muito suscetível a desvalorização. Com a moratória da dívida argentina no início da década de 2000, os EUA impuseram uma “punição” a Argentina, o que dificulta o afluxo de dólares pro país. Quando os Kirchner assumiram, no final de 2003, o dólar estava em cerca de 2,90 pesos. Quando deixou o governo, o dólar estava em 9,70 e subiu rapidamente até 20 pesos em abril de 2018. Uma das consequências disso é o alto crescimento da inflação.

Em maio deste ano a situação se agravou. Com uma sangria monstruosa de capitais para o exterior, o dólar subiu rapidamente, chegando a 25 pesos em maio e 28 em junho. Com isso o governo aumentou a taxa de juros de 27% para 40% (se tornando a maior taxa de juros do mundo) e recorreu a um acordo de 50 bilhões de dólares ao FMI, sendo a primeira parcela de 15 bilhões, que foi liberada ao firmar ao acordo e as outras serão liberadas ao longo de três anos, o que é mais que o mandato de Macri. Além disso o governo queimou bilhões de dólares da reserva para injetar na economia.

Porém o FMI, esse velho conhecido que ainda causa pesadelos nos trabalhadores de todos os países da América Latina, não faz negócios de graça. Para que o empréstimo fosse aceito, a Argentina precisou apresentar um termo que incluía ataques brutais aos trabalhadores como a redução do déficit público a 0 até 2020, a diminuição do subsídio à energia e ao transporte, passando o custo desses à população, a eliminação de postos de trabalhos públicos e a redução de 15% nos gastos de compras de bens e serviços.

Entretanto, esse empréstimo não foi capaz de conter a fuga de capitais, de modo que entre o dia 27 e 30 de agosto o dólar subiu de 30,95 para 38,73 pesos. Junto a isso se somam as demissões, enquanto a inflação vai as alturas. A inflação que estava prevista para 15% já foi recalculada para 42%, sem previsão de parar o aumento. A situação se agrava com a especulação vendedores de vários itens básicos estão fazendo, como no caso do pão.

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Com o novo aumento do dólar o governo tomou mais medidas para agradar aos especuladores enquanto ataca os trabalhadores. Além de queimar centenas de bilhões de dólares das reservas do banco central, no dia 30 de agosto, aumentou a taxa de juros, que já era a mais alta do mundo, para 60% ao ano. Junto a disso, pediu ao FMI um adiantamento nos empréstimos, o que significaria ajustes ainda mais fortes. No dia 3/9, Macri anunciou seu plano de ajustes:

- Déficit zero: a meta de déficit zero, prevista para 2020 será adiantada para 2019, implicando um corte ainda maior nos gastos.

- Redução de gastos em obras públicas de 0,7% do PIB, uma "economia" real de 50%, diminuindo ainda mais a economia. Redução de 0,5% nos subsídios às províncias, que são responsáveis pelas tarifas sociais. Redução de 0,2% do PIB em salários e despesas operacionais pagas pelo Estado. Essa porcentagem resulta em corte de 20% em bens e serviços. Isso afetará os salários dos funcionários públicos, com uma maior queda do poder aquisitivo e novas demissões.

- O governo anunciou que haverá novos cortes nos gastos sociais.

- Retenções na exportação: um imposto de US $ 4 por dólar será aplicado para exportações primárias e US $ 3 por dólar para o restante das exportações. Será reduzido para 18% a alíquota de feijão, farinhas e óleo de soja. O governo estima que essa medida irá levantar US $ 280 bilhões em 2019. Esta medida é um imposto pequeno para os exportadores que ganharam fortunas com a mega desvalorização do peso.

- Contribuições do empregador: adiar por um ano o aumento do mínimo não tributável das contribuições previdenciárias pagas pelo empregador esperadas para o ano de 2019. Segundo o Governo, isso implicará uma cobrança adicional em 2019 por US $ 40.000 milhões.

- Redução de ministérios de 22 para 11: muitos ministérios foram fundidos e outros virarão secretariais. Essa mudança aumentará ainda mais a demissão de funcionários públicos. Entre os ministérios que virarão secretarias, estão o do Trabalho, da Saúde, da Agroindústria e da Ciência e Tecnologia.

No dia do anúncio de Macri, o Ministro de Energia anunciou que o subsídio as tarifas sociais de energia seriam responsabilidade das províncias, o que iria resultar numa maior dificuldade da população ter acesso a ela. Apesar de tal medidas terem conseguido conter a alta do dólar, ele continuou oscilando na faixa 37 39 Pesos e a partir do dia 13 voltou a aumentar, e fechou a segunda feira (17) cotado a mais de 40 Pesos, o que fez o governo avançar e novas injeções das reservas na economia. Além disso a recessão continua, com demissões diárias em muitos lugares.

Veja também: Aonde vai a economia depois dos anúncios

A situação gerou uma revolta em todo país, causando uma grande crise no governo de Macri. A agência Moody desmentiu o presidente Argentino e disse que a recessão deve durar até pelo menos 2020. O vice chefe de gabinete de Macri, Mario Quintana, após os anúncios do presidente pediu demissão. A situação se torna mais grave ao governo devido ao fato que Buenos Aires será sede do encontro do G20 deste ano, que ocorrerá nos dias 30/11 e 1/12

Antecedentes de lutas

Apesar do Macri ter passado duros ataques, a classe trabalhadora argentina protagonizou resistências importantes. No ano passado, podemos destacar a luta da PepsiCo, uma fábrica que foi ocupada pelos trabalhadores após a patronal anunciar o fechamento da fábrica e a demissão dos funcionários. Outra luta importante foram as massivas mobilizações contra a reforma da previdência, que fizeram com que o governo adiasse a votação por um dia.

Este ano também houveram uma série de lutas. Em maio, após o governo de Buenos Aires ordenar a intervenção no Estaleiro Rio Santiago (localizado em La Plata), os trabalhadores se mobilizaram e começaram uma jornada de lutas. O estaleiro é uma das únicas empresas públicas argentinas que não foram privatizadas na década de 90, devido a uma forte resistência dos trabalhadores. No dia 25 de junho, a CGT convocou uma paralisação geral contra o plano do FMI. A paralisação foi uma das com maior adesão dos últimos anos, que deixou a cidade de Buenos Aires totalmente deserta, mas ainda assim se realizou uma manifestação com milhares de pessoas. No início de agosto, já com a crise e a inflação em alta, os professores universitários começaram uma greve em todo o país pela reposição salarial comida pela inflação e melhorias na educação. Em julho, após anúncio de demissões, os trabalhadores da Telam, a imprensa estatal, também começaram uma greve.

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Junto a isso, a Argentina protagonizou uma mobilização massiva de mulheres pela legalização do aborto. Após uma intensa mobilização na base, o movimento protagonizou duas manifestações massivas. No dia 13 de junho após uma manifestação que reuniu mais de um milhão de pessoas, o congresso aprovou um projeto de lei que garantia o aborto legal que atraiu a atenção do mundo inteiro. Na votação do senado, 8 de agosto, a manifestação foi mais cheia que a anterior, com muitos lugares paralisando o trabalho. Apesar disso, o senado votou contra o projeto de lei, contando com o apoio ativo da Igreja, que além de declarações reacionárias convocou uma mobilização de pessoas contrárias. Apesar disso o movimento se radicalizou...

A radicalização do movimento

Depois da votação que recusou o projeto de lei que legalizaria o aborto houve uma radicalização do movimento. Em muitas faculdades, realizarem-se assembleias que decidiram pela ocupação dos seus respectivos cursos. As ocupações estudantis se espalharam por várias províncias como Jujuy, Patagonia, Mendoza, Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba. Em outras províncias também se realizou mobilizações e manifestações de apoio ao movimento. Além das demandas estudantis, essas ocupações também incluíram a separação total da igreja e do Estado, de modo que em muitas faculdades imagens da igreja foram cobertas ou retiradas. Junto também foi incluído na pauta dos estudantes a pauta dos professores e de outros setores da classe trabalhadora. Nas ocupações, mobilizações como manifestações, cortes de rua e aulas publicas ocorriam diariamente.

A essa luta também se somaram os professores das escolas secundárias de todo o país, que além da pauta salarial, também lutavam pela melhoria das condições de trabalho, visto que no dia 2 de agosto uma explosão de gás em uma escola na cidade de Moreno (província de Buenos Aires) deixou 2 mortos.

Em Córdoba, os trabalhadores da Luz y Força também organizaram uma resistência a tentativa de privatização e ocorreu uma mobilização de milhares de pessoas em apoio.

Veja: Manifestação em Córdoba

Ao mesmo tempo, a luta dos trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago continuava ganhava apoio de vários setores da população. No dia 21 de agosto, enquanto realizavam um corte de rua foram brutalmente reprimidos pela polícia, fato que teve repercussão nacional e gerou revolta e diversas categorias de trabalhadores prestaram apoio aos trabalhadores do estaleiro. No dia seguinte se realizou uma enorme manifestação de apoio aos trabalhadores do estaleiro. Junto a isso, muitas das universidades ocupadas e dos sindicatos dos professores votaram o apoio ativo aos trabalhadores do estaleiro.

Ainda no dia 21 de agosto, se realizou uma assembleia interfaculdades em Córdoba, que decidiu pela realização de uma manifestação no dia seguinte. Amanifestação reuniu dezenas de milhares de pessoas, unindo a pauta das mobilizações estudantis com dos trabalhadores. Também aconteceram manifestações em outras cidades nesse dia.

Veja: Manifestação massiva em Córdoba

No dia 23, o decano da Faculdade de Direito de Córdoba pediu a polícia pela reintegração de posse. Os estudantes então responderam reocupando a faculdade e exigindo a renúncia do decano.

No dia seguinte se realizou uma jornada de lutas pela educação, mobilizações por todo o país com destaque para uma marcha que reuniu dezenas de milhares de pessoas em Córdoba. A partir daí, o número de faculdades ocupadas multiplicou-se e em muitos lugares começaram a ser chamadas assembleias interfaculdades.

Com as mobilizações ativas e com a crise aberta pela alta do dólar, a CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina) se viu obrigada, no dia 29, a convocar uma paralisação geral para o dia 25/9. Já a CTA (Central dos Trabalhadores da Argentina) convocou uma paralisação de 36 horas começando no dia 24/9.

Além dos colégios que já estavam em greve, foi chamado pela Frente de Unidade Docente Bonaerense uma paralisação de 72 horas a partir do dia 28/8, que além de terem se juntado a marcha nacional educativa realizaram uma série de outras mobilizações. No dia 28 houve atos em diversos lugares e no dia 29 houve uma mobilização em frente à Casa do Governo, além de outros atos locais, como em Rosário onde se realizou uma manifestação com dezenas de milhares.

Ver também: Manifestação em Rosario no dia 29

No dia seguinte ao anúncio da CGT se realizou a Marcha Nacional Universitária, onde se realizou manifestações em diversas cidades, reunindo cerca de meio milhão de pessoas em Buenos Aires, que inclusive houveram vários detidos. Após a marcha principal, rolaram várias outras mobilizações como panelaços em diversas cidades do país. Nessa altura haviam 57 universidades e 60 colégios pré-universitários em greve. No dia 31 também se realizaram outros atos em vários lugares.

Ver também: Fotos da Marcha

Com a recessão se agudizando somada com a crise causada pelo aumento do dólar, começaram a ocorrer ondas de saques a lojas e supermercados em algumas cidades. Numa delas, um menino de 13 anos que estava pedindo comida foi atingido por um tiro e acabou morrendo e a principal suspeita é que o tiro tenha partido da polícia, fato que também gerou revolta e comoção por todo o país.

Com a situação de crise as demissões aumentavam. Ao mesmo tempo, a alta do dólar causava inflação e os anúncios do Macri vinham descarregar a conta ainda mais nas costas dos trabalhadores. Frente a essa situação e impulsionado pela luta das universidades e das escolas, muitos setores da classe operária e até do campo começam a entrar em cena.

Com os rumores de demissão no Ministério da Agricultura, dirigido por um ex-membro da Sociedade Rural, uma associação ligada a patronal do agronegócio, no dia 23 e 24 de agosto foi realizada a jornada nacional de luta dos trabalhadores da agricultura familiar. No dia 30 de agosto, centenas de trabalhadores se mobilizaram na porta do Ministério. Dentre os demitidos, a maioria seriam ligados à trabalhos com agricultura familiar e com povos originários. No mesmo dia também houve uma paralisação na empresa Molino Cañuelas, ligada ao agronegócio, contra a demissão de trabalhadores. Com a confirmação das demissões no dia seguinte, os trabalhadores começaram uma mobilização maior, ocupando a entrada do ministério e promovendo cortes de rua, mesmo sob repressão da polícia.

No dia 26, trabalhadores da Exincor, da cidade de Palpalá em Jujuy, votaram um plano de lutas depois que a patronal rompeu o acordo, além de já terem realizado uma manifestação no dia 21. No dia 27 aconteceu um ato com todos os sindicatos da cidade de San Nicolas em apoio a luta dos estaleiros. No dia 28, houve também uma manifestação dos trabalhadores do Estaleiro Tandanor, que também decidiram se mobilizar no dia 12 de setembro, o dia da indústria naval. Trabalhadores da Linha 60 de ônibus em Buenos Aires também realizaram uma paralisação de 2 dias contra demissões. No dia 29/8 os trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago fizeram uma nova manifestação de milhares de pessoas na cidade de La Plata e na pequena cidade de Berisso, onde moram muitos dos trabalhadores do Estaleiro, e reuniram mais de 3000 pessoas nessa última. Além de participarem da Marcha Nacional Universitária, os trabalhadores do estaleiro também convocaram um bandeiraço contra o ajuste, o desemprego e o triunfo de todas as lutas no dia 31/8, na praça San Martin em La Plata, que reuniu várias outras categorias de trabalhadores. No dia 29, também houve uma manifestação dos médicos e residentes do hospital Posadas, um fato inédito. No dia 31/8, os terceirizados da fábrica de pneus Fate fizeram uma manifestação, a qual se juntaram outros trabalhadores.

Porém, um momento chave do movimento se deu após o anúncio definitivo dos ajustes pelo governo Macri, no dia 3/9. Logo após os anúncios, milhares de trabalhadores e apoiadores se reuniram em marcha pelas ruas de Buenos Aires. Concentrados no Ministério de Justiça, a marcha ganhou fôlego no Ministério de Agroindústria e seguiu ao Ministério de Modernização. Ao passar por oficinas do Estaleiro Rio Santiago localizado em Buenos Aires, a manifestação cantou canções de apoio e palavras de ordem como “Unidade dos trabalhadores”.

Nesse mesmo dia os trabalhadores do Estaleiro também realizaram um corte de rua na Autopista Buenos Aires-La Plata, que reuniu dezenas de milhares de pessoas, e convocaram uma grande jornada nacional para a próxima quarta dia 12, que é o dia da indústria naval. Ainda no dia 3, o sindicato de ceramista de Neuquém, a qual pertence a FaSinPat, uma fábrica de cerâmica sob gestão operária, junto com a Junta Interna de ATE de la Planta de Agua Pesada (PIAP) convocaram uma assembleia aberta pro dia 7 em Neuquém, em defesa da PIAP, do Estaleiro Rio Santiago e das gestão operárias. Também houve uma paralisação na fábrica militar de Fray Luis Beltrán, uma cidade na província de Sant Fé, que também reuniu muitos apoiadores e um abraço à metalúrgica Siam, localizada no bairro de Avellaneda em Buenos Aires, onde vários trabalhadores estão correndo o risco de demissão. Além disso a Secretaria de Agricultura Familiar em Mendoza foi ocupada pelos trabalhadores. Nesse mesmo dia, ATE (Associação de Trabalhadores do Estado) convocou uma paralisação de 36 horas dos trabalhadores do Ministério na província de Misiones. No dia 3 também se realizou uma manifestação com 20 mil pessoas em Moreno, devido a um mês do acidente da explosão na escola que deixou 2 mortos.

No dia 4/9 houve em San Lorenzo uma paralisação de dezenas de fábricas no cordão industrial e os trabalhadores saíram em ato com milhares de pessoas. Os trabalhadores de imprensa dos jornais La Mañana Neuquén y Diario Río Negro também entraram em greve. Também houve um abraço ao Ministério de Ciência e Tecnologia, protagonizado por integrantes da comunidade científica, que foi um dos que Macri anunciou que iria cortar.

No dia 5/9, também se juntaram a luta agricultores da agricultura familiar no semillazo nacional, com um protesto realizado em frente ao congresso contra uma lei que favorece a Monsanto. Também se realizou uma manifestação na porta da Secretaria de Agricultura Familiar de Mendoza, que está ocupada. Também aconteceu uma assembleia com milhares de trabalhadores da saúde, que fechou a rua 9 de Julho e votou participar de manifestações no dia seguinte e na manifestação convocada pelo Estaleiro Rio Santiago do dia 12. Junto a isso, quarenta sociedades médicas também se exigiram a manutenção do Ministério da Saúde e ocorreu uma grande manifestação na entrada do Ministério. Os trabalhadores da Télam, em greve há mais de dois meses realizaram uma grande manifestação em Buenos Aires. Os trabalhadores da justiça também fizeram uma paralisação. Também se realizou uma manifestação de apoio aos imigrantes em La Plata contra um decreto que classificava os imigrantes como delinquentes e perigosos. Trabalhadores da empresa estatal de transporte hídrico também se mobilizaram na porta da Direção de Vias Navegáveis, na província de Corrientes.

No dia 6, houve uma manifestação massiva em Neuquém contra os ajustes de Macri além de vários cortes de rua. Na provínicia de Misiones, houveram também cortes de rua contra as demissões no Ministério de Agricultura. Também houve uma manifestação em frente ao Ministério de Desenvolvimento Social em La Plata. Em La Plata os trabalhadores da saúde também se mobilizaram em ato e votaram por uma paralisação de 48 horas na próxima semana.

Além das categorias listadas, uma série de outras categorias votou participar das mobilizações convocadas pelos trabalhadores do Estaleiro no dia 12/9, e a esse chamado se incorporou a ATE da Capital e Nacional, que chamaram uma paralisação nacional, além da CTA-A. Também se convocou uma jornada de mobilizações para o dia 7. Enquanto isso o movimento do #ParoUniversitário continuava a todo vapor. Após a Marcha Universitária, que reuniu 500 mil pessoas na Plaza de Mayo, as ocupações universitárias se multiplicaram e realizaram mobilizações tais como aulas públicas, cortes de rua e atos diariamente e no dia 4, a CTERA (Confederação de Trabalhadores da Educação da República Argentina) convocou uma paralisação e manifestações para o dia 13 a qual depois se somou outros sindicatos. Junto a isso, se realizaram uma série de assembleias tanto de cursos quanto interfaculdades, com destaque para Rosario, onde se realizou pela primeira vez na história uma assembleia interfaculdades e para os estudantes da Universidade de Buenos Aires que realizaram uma assembleia na Plaza de Mayo no dia 6 em que, dentre outras coisas, se votou como pauta a denúncia ao papel traidor do Kirchnerismo e das centrais sindicais e pelo não pagamento da dívida pública, além de uma mobilização unitária do movimento estudantil no dia 17. Em muitas assembleias estudantis, houveram presença de trabalhadores que vieram contar as suas histórias de luta e de resistência com muitas faculdades votando apoio em peso a luta dos trabalhadores, inclusive muitas das assembleias aprovaram participar das mobilizações convocadas para o dia 12 e 13.

No dia 7 aconteceram outra onda de manifestações pelo país. Houveram protestos em frente ao Ministério da Agroindústria e do Trabalho. Os trabalhadores da sorveteria Freddo ocuparam a fábrica. Em Córdoba uma manifestação reuniu milhares de pessoas e também houve uma manifestação em frente ao Ministério do Trabalho em Mendoza, além do corte de estradas. O protesto em Mar del Plata exigiu que a CGT paralisasse agora. Já em Bariloche, houve uma manifestação com 2000 pessoas, o que é raro nessa cidade. Neste dia também aconteceu a assembleia em defesa do Estaleiro, da PIAP e das gestões operárias e Neuquém. A assembleia, que contou com vários delegados de distintos lugares votou por se somar as mobilizações do dia 12.

Na semana seguinte também aconteceram mobilizações. Na segunda (10/9) os trabalhadores da justiça realizaram uma nova paralisação e uma manifestação que reuniu milhares de pessoas. A Confederação dos Caminhoneiros também se colocou em estado de alerta. Na cidade de Montes Caseros, na província de Corrientes, um militante foi preso por uma pichação feita um ano atrás, durante a campanha política, o que também está gerando mais revolta. Ainda nesse dia, estudantes universitários e trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago também foram visitar a fábrica de cerâmica FaSinPat (antiga Zanon) em Neuquém, uma fábrica que está sob gestão operária a mais de 10 anos, o que também foi bem inspirador pra sua luta.

No dia 11, os madeireiros de Neuquém fizeram um piquete em frente ao portão de duas empresas devido há um conflito que já dura mais de 14 meses. Em La Plata, novas faculdades foram ocupadas, votando também se juntar as mobilizações do dia 12 e 13. Em Jujuy, os professores em luta começaram a denunciar perseguições.

Com o movimento se radicalizando, as direções peronistas, tanto nos sindicatos quanto no movimento estudantil, vem tentando desarmar o conflito. O governo tenta um acordo com os docentes, dessa vez subindo a proposta de aumento de 15 para algo entre 24 e 26% que as direções dos sindicatos peronistas aceitaram. Outras direções sindicais também estão tentando fazer acordos parecidos. Essa proposta, além de representar uma perda salarial pois a previsão da inflação está em 42%, ainda vem num momento de claro ascensão de lutas, de modo que em muitos lugares essas ofertas tem sido rechaçadas apesar das tentativas das direções peronistas em fazê-las passar. No movimento estudantil, as organizações peronistas tem votado pelo fim das ocupações ou até mesmo boicotando-as. Muitas organizações peronistas já estão dando o conflito universitário como acabado.

Mesmo assim, o governo está preocupado. No sábado (08) o governo recuou na proposta de transferir a responsabilidade de subsidiar as tarifas sociais às províncias. Na segunda (10/9), o novo ministro do trabalho se reuniu com os dirigentes da CGT numa clara intenção de desarmar a paralisação que está sendo convocada. Nesse mesmo dia, autorizou um aumento de gastos nas forças de repressão.

Os dias 12 e 13 de setembro

No dia 12 de setembro ocorreram as mobilizações convocadas pelos trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago. As mobilizações ocorreram desde de manhã e continuaram a tarde, reunindo milhares de pessoas. As mobilizações foram mais fortes na província de Buenos Aires e na capital federal. Só na Cidade Autónoma de Buenos Aires (capital federal) foram mais de 10 cortes de rua. Houveram também cortes de rua em Neuquém e em outros lugares do país.

No hospital Posadas, localizado em Buenos Aires, milhares de funcionários se reuniram em assembleia para organizar um plano de lutas. O fato ocorreu depois que, após a demissão de vários médicos e outros funcionários, os pacientes reclamaram e a polícia foi enviada para conter o “protesto”. Em Mendoza também se realizou uma grande manifestação contra uma lei que está tentando criminalizar os protestos.

No dia 12 a noite uma professora na cidade de Moreno foi sequestrada e torturada, e arranharam em sua barriga com mensagens para que ela parasse de fazer política. O fato foi amplamente divulgado e gerou revolta por todo o país, com muitos sindicatos e associações de trabalhadores se pronunciando prontamente repudiando o ocorrido.

Nesse mesmo dia, um dirigente sindical do PSTU foi preso também

No dia 13, foi o dia de luta nacional de docentes. Houveram várias manifestações em todo país, com destaque para as manifestações massivas em Buenos Aires e em Moreno. Nas manifestações se mostrou muito forte o repúdio ao sequestro e tortura da professora. Após o ato os estudantes da Universidade de Moreno resolveram ocupar a faculdade em solidariedade a professora.

Pela tarde, os trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago ocuparam o mesmo contra o corte de pontos e o boicote que estavam sofrendo do governo, que não estava comprando os insumos básicos para o funcionamento. Após oito horas ocupados os trabalhadores conseguiram importantes vitórias, como o compromisso do governo em garantir os insumos e uma reunião com o Ministério do Trabalho sobre a questões dos pontos.

Perspectivas

Com as direções burocráticas tentando fechar os acordos para acabar com a mobilização, em alguns lugares onde o peronismo é mais forte as faculdades vem sendo desocupadas e os professores estão voltando as aulas. Mesmo assim, a mobilização está longe de acabar como foi demonstrado nos dias 12 e 13 de setembro. Mesmo com os boicotes das direções peronistas, várias assembleias estudantis tem votado pela continuação das ocupações. Se por enquanto as categorias de trabalhadores que tem se colocado à frente das mobilizações ainda são do setor público, essa situação pode mudar dependendo do desenrolar do movimento. Além disso, a confluência entre setores de estudantes e trabalhadores podem gerar um movimento de proporções gigantescas.

No sábado (15/9), houve uma manifestação dos médicos do Hospital Posadas. Além disso há novas manifestações marcadas para essa semana.

Apesar de todas as medidas, o dólar continuou aumentando e fechou o dia 17 acima dos 40 Pesos. Além disso, há uma paralisação geral marcada para os dias 24 e 25, segunda e terça da semana que vem. Com certeza, as memórias do Argentinaço, ocorrido no início da década passada, começam a ser reavivadas na cabeça dos argentinos e provavelmente nos pesadelos do presidente Maurício Macri! A mobilização efetiva dos argentinos pode provar aos trabalhadores do resto do mundo que é possível sim barrar os planos de austeridade e impor uma saída em que os capitalistas paguem pela crise!

Ver também: Convertibilidade e dolarização, mais espectros de 2001 que regressam

O papel dos distintos grupos políticos frente aos acontecimentos

Enquanto a situação se agudiza expressam-se dois discursos nos peronistas. O primeiro, dos Kircheneristas, diz que tem que se esperar as eleições de 2019 para resolver o problema. Já outros setores do peronismo dizem que temos que ser “responsáveis” com a situação. Inclusive, estes setores, apesar de se reivindicarem oposição, tem sido inclusive um ponto de apoio crucial a Macri no parlamento, votando em muitas pautas de ataque junto com ele ao longo de seu mandato (para se ter uma ideia, o macrismo não tem maioria parlamentar, se não fosse esses setores eles não conseguiriam formar essa maioria). Inclusive, seguindo a tradição, muitos governadores peronistas já estão negociando com Macri o apoio ao orçamento exigido pelo FMI para que este conceda o empréstimo. No dia 10/9, o ex-candidato a presidente, que seria sucessor do kirchenerismo, Daniel Scioli, veio a público depois de muito tempo de silêncio, afirmar que é uma oposição moderada e prudente. Já a mídia oficial argentina tem feito de tudo para esconder as mobilizações que estão em curso, porém as mobilizações tem sido mostradas por outros portais.

Antes do movimento atual, a Argentina já vinha embalada da paralisação geral no dia 25 junho e da grande luta das mulheres pela legalização do aborto. Nesses dois casos as direções das centrais sindicais, em sua maioria peronistas, já haviam mostrado o seu papel traidor. No 25J convocou a paralisação, porém não efetivamente organizou e no 8A se recusou a chamar uma paralisação. Nesse caso, fazem o mesmo, convocando uma paralisação domingueira e sem organizar efetivamente nas bases. Porém a pressão que os trabalhadores tão exercendo pode mudar essa situação, de modo que elas já estão cogitando adiantar a paralisação. Agora fazem a mesma coisa, chamando uma paralisação geral para o fim do mês e sem organizar efetivamente!

No movimento estudantil os grupos kircheneristas e peronistas também fazem de tudo para boicotar as mobilizações, tentando impedir assembleias, espalhando boatos e inclusive se aliando ao grupo Franja Morada, que apoia o Cambiemos, partido de Macri, para perseguir e tentar incriminar os estudantes. Houveram várias denúncias também de sua direções se encontrando com reitores para tentar acabar com o movimento. Apesar disso, tem sido duramente rechaçado pelos estudantes e tem perdido cada vez mais espaços para outros grupos de esquerda, com a FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, da qual o PTS, organização irmã do MRT, faz parte) tendo um papel decisivo.

Ver também: O governo tem mais vontade de luta que as centrais sindicais

Apesar das traições das direções do movimento, existe uma alternativa de esquerda classista e combativa que é a FIT (Frente de Esquerda dos Trabalhadores) da qual o PTS, partido irmão do MRT faz parte. Diferente dos kirchnerista, a FIT levanta que não se pode esperar até 2019, pois se o ajuste é agora a luta tem de ser agora! Por isso, exigimos a convocação de uma greve geral já e com a construção ativa nas bases. Junto com isso levanta um programa anticapitalista para que os capitalistas paguem pela crise, levantando o não pagamento da dívida pública, a nacionalização dos bancos, e uma assembleia constituinte livre e soberana!

Ver também: A crise nacional argentina e a declaração de uma Assembleia Constituinte

Além disso, a FIT e principalmente o PTS tem travado uma luta brutal contra os ajustes do Macri e a repressão, junto com a denúncia a traição das direções peronistas do movimento sindical e estudantil e de seus parlamentares e governadores que tem negociado junto a Macri o orçamento de cortes proposto pelo FMI. Os parlamentares do PTS tem se colocado na linha de frente de todas as mobilizações que estão correndo, marchando ombro a ombro com os trabalhadores e a juventude. Junto a isso, também tem utilizado suas tribunas no parlamento e suas aparições na televisão para denunciar os ataques de Macri e convocando a população a se mobilizar contra eles, junto com a denúncia das traições das direções peronistas. Além disso, temos colocado o La Izquierda Diario (versão argentina do Esquerda Diário) a serviço dessa luta! Junto com os outros partidos da FIT, temos impulsionado também fortemente a campanha pela separação total da Igreja e do Estado!

Ver Também: [VIDEO] Del Caño e Bregman propõe lutar por uma assembleia constituinte livre e soberana

Dentro do movimento estudantil, PTS tem também se colocado na linha de frente das mobilizações estudantis, cumprido o papel de impulsionar a auto-organização dos estudantes, defendendo a realização de assembleias interfaculdades e dado uma luta pela aliança dos movimentos de estudantes com os movimentos da classe trabalhadora. e pela aliança operária estudantil. Em nossas intervenções nos espaços estudantis, temos defendendo sempre que a mobilização estudantil se uma as mobilizações operárias, além de sempre que possível trazer trabalhadores as assembleias ou levar os estudantes para conhecer as lutas dos trabalhadores, pois sabemos do poder que a aliança operária estudantil pode cumprir. Também tem cumprido um forte papel na denúncia do papel que as reitorias tem cumprido de tentar acabar com o movimento e como a burocracia estudantil muitas vezes tem se aliado com estes mesmos setores.

No movimento dos professores temos denunciado o acordo que as direções sindicais tem feito, que propõe um reajuste muito menor que a inflação e onde tentam desmobilizar o movimento e defendendo a continuação das mobilizações!

Através do Movimento de Agrupações Classistas (agrupação que o PTS impulsiona) temos denunciado fortemente a traição das centrais sindicais e exigido o adiantamento, além de sua efetiva organização nas bases. Junto a isso, temos colocado todas as nossas forças para mobilizar ativamente os trabalhadores em seus locais de trabalho para a paralisação geral que está marcada.

Também impulsionamos fortemente a luta do Estaleiro Rio Santiago, onde atua o dirigente e fundador do PTS José Montes. O Estaleiro é um exemplo na luta dos trabalhadores tendo resistido as privatizações do Menem na década de 90, uma luta que o PTS encampou fortemente e encampa agora também.

Ver também: José Montes: “A luta do estaleiro é a luta em que hoje se espelham os trabalhadores

Na a fábrica sob gestão operária FaSinPat (antiga ceramista Zanon), onde o PTS dirige, temos usado ela fortemente como exemplo de luta dos trabalhadores, e partir dela impulsionando várias mobilizações em Neuquém, como a assembleia que ocorreu no dia 7/9.

No dia 6 de outubro o PTS e as agrupações que este impulsiona estarão realizando encontros em todo o país, para debater como seguir a luta e impor uma saída que faça efetivamente que os capitalistas paguem pela crise]. Inclusive, em Buenos Aires, o encontro será no Estádio Coberto do Argentina Juniors!




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