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A Covid-19 e o papel das universidades na busca por respostas à crise capitalista (Parte 2)

Odete Cristina

A Covid-19 e o papel das universidades na busca por respostas à crise capitalista (Parte 2)

Odete Cristina

Na primeira parte deste artigo, discutimos os impactos da pandemia em relação aos projetos de ensino a distância e a reestruturação do trabalho dentro das universidades públicas e privadas. Agora, iremos debater como a produção de conhecimento pode estar a serviço da resolução dos grandes problemas que o capitalismo gera, buscando a partir da aliança com a classe trabalhadora construir um projeto de superação desse sistema e qual seria o papel das nossas entidades estudantis.

Enquanto os governos capitalistas por todo mundo fazem discursos se dizendo em guerra contra a pandemia do coronavírus, a realidade é que não garantem nem o mínimo. Faltam testes massivos, máscaras, álcool gel e respiradores que poderiam salvar milhares de vidas. Chegamos ao absurdo de Donald Trump tentar desviar respiradores que viriam da China para os estados do nordeste, numa versão “America First” em tempos de pandemia. A política imperialista também revela toda sua crueldade quando além de manter as criminosas sanções contra diversos países, os EUA se utiliza do coronavírus para favorecer seus interesses imperialistas na política interna dessas nações, como vemos agora em relação à Venezuela.

Diante dos grandes problemas que a pandemia nos coloca, num primeiro momento pode parecer que não existe algo que nós estudantes possamos fazer. No entanto, o potencial explosivo de colocar todo conhecimento que produzimos a serviço da classe trabalhadora só se amplia. No artigo anterior, e nas elaborações cotidianas desse portal, viemos demonstrando as inúmeras iniciativas no combate a crise promovidas em diversas universidades pelo país. Iniciativas que poderiam ser tomadas numa escala muito superior se não fosse os limites impostos pela lógica capitalista, que busca regular tudo em nome dos lucros.

Passado o primeiro momento da chegada da doença em nosso país, com o avanço do número de mortes e os efeitos da crise, também vai ficando mais claro não só o absurdo da política de Bolsonaro, que tenta criar uma dicotomia entre proteger as vidas e salvar a economia. Como também mostra a impotência da política dos governadores, Maia, Mandetta e militares, que se unificaram na defesa do isolamento social, sem testes ou investimentos necessários para que o sistema de saúde público possa atender toda demanda. Não podemos nos enganar, se hoje esses setores aparecem como mais sensatos nas iniciativas de combate a pandemia, diante da irracionalidade negacionista e fundamentalista de Bolsonaro, eles sempre estiveram lado a lado na hora de implementar cada um dos ataques que levaram a enorme precarização do SUS, e nas medidas que fizeram com que a crise capitalista afetasse tão duramente a classe trabalhadora e a população pobre, tirando até mesmo nosso direito de decidir, com o golpe e as eleições manipuladas.

Como seria se as estruturas das nossas universidades estivessem totalmente voltadas para o combate à pandemia?

Em um dos seus pronunciamentos, o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta declarou: “No final de abril o sistema entra em colapso. O colapso é quando você pode ter o dinheiro, o plano de saúde, a ordem judicial, mas não há o sistema para entrar”. O que leva um sistema que desenvolveu a tecnologia suficiente para levar pessoas até o espaço, ser tão incapaz de reorganizar tudo para salvar milhares de vidas? A irracionalidade capitalista é tão grande que, como tudo é organizado a partir das necessidades dos lucros e não dos seres humanos, em pleno 2020 vivemos algo que se assemelha mais às distopias propagadas pela reacionária ideologia burguesa que predominou durante todo período neoliberal. Quantas mortes não poderiam ser evitadas se todo conhecimento que a humanidade já produziu se voltasse agora para salvar a vidas? O sistema capitalista já mostrou toda sua incapacidade e isso fica claro a cada dia, mas a humanidade, especialmente a classe trabalhadora, nos mostra como podemos transformar tudo para que seja colocado em primeiro plano as necessidades das vidas humanas.

Pensando especificamente nossas universidades, uma das primeiras medidas a serem tomadas seria a conformação de um comitê de crise, composto por professores, estudantes e funcionários que pudesse deliberar sem a imposição das reitorias e governos, a melhor forma das universidades se colocarem nesse combate. Buscando por vias democráticas, realizando reuniões virtuais ou por outros meios, fazer um amplo debate em que toda comunidade universitária fosse responsável pelas decisões e se deliberasse qual o papel das universidades nesse momento. Um comitê assim poderia tomar importantes decisões como por exemplo, garantir todo investimento necessário para as pesquisas de remédios e vacinas para combater a Covid-19, e contratação emergencial de profissionais da saúde para os hospitais universitários. Defendendo a revogação da EC do teto dos gastos em saúde e educação, a reversão dos cortes de bolsas e no orçamento dessas pastas e até promovendo o debate sobre o não pagamento da dívida pública que rouba nossas riquezas. Avançando para pensar mais profundamente o papel das universidades na resolução dessa crise e superação do sistema que a gerou.

Em março, o Ministério da Saúde publicou a portaria nº 492, instituindo aquilo que chamou de Ação Estratégica "O Brasil Conta Comigo", convocando todos os estudantes das áreas de saúde para servir no combate à crise do coronavírus. Na semana passado, o MEC autorizou a antecipação de formatura a alunos da área de saúde, com a portaria 374/20. Medidas que aparentemente buscam colocar o conhecimento desses estudantes para servir ao grande propósito de salvar vidas num momento tão delicado quanto esse, onde a falta de equipes de saúde para o atendimento agrava muito a situação das vítimas. No entanto, esses estudantes, assim como todo setor que já trabalha na área da saúde estão sendo convocados para uma guerra sem armas. Falta de máscaras, álcool gel e equipamentos de proteção dos profissionais da saúde. Achamos fundamental a participação dos estudantes de saúde e que os hospitais universitários também se coloquem na linha de frente do combate ao coronavírus. Defendemos também a necessidade da centralização de todo sistema de saúde público e privado sob controle dos trabalhadores para enfrentar da melhor forma a pandemia, mas queremos que esses guerreiros, que em sua ampla maioria são mulheres, tenham totais condições de exercer seu trabalho em segurança, com os equipamentos necessários e com o investimentos de todos os recursos para ampliação dos leitos de UTIs, dos hospitais e garantia de salários e condições dignas de trabalho. Outra questão que se coloca em debate é sobre os limites impostos pela universidades com o filtro social do vestibular. Quantos médicos, enfermeiras e profissionais da saúde não poderíamos ter hoje se não fosse o vestibular?

Para além dos cursos de saúde, as universidades poderiam utilizar toda sua estrutura física e humana nesse combate. Os estudantes de cursos de moda e artes poderiam se colocar na produção de máscaras junto aos trabalhadores da indústria têxtil. Os estudantes de química e farmácia, poderiam ao lado dos trabalhadores das indústrias químicas, petroquímicas e farmacêuticas, trabalharem na produção de álcool gel e na produção dos reagentes necessários para realização de testes massivos. Hoje um dos principais problemas que impedem as universidades de realizar mais testes para identificar as vítimas do coronavírus e assim organizamos o isolamento social de forma racional, é justamente porque toda política golpista de ataques às universidades e cortes no orçamentos fez o Brasil totalmente dependente da importação de reagentes de outros países. Uma colaboração entre estudantes e trabalhadores dessas áreas nos permitiria, por exemplo, pensar medidas emergenciais como utilizar as refinarias da Petrobrás que foram desativadas pelo governo, readequando-as no que for necessário para produzir os reagentes e realizar testes massivos.

Vimos casos de estudantes que desenvolveram respiradores mecânicos e ventiladores pulmonares mais baratos, o que poderia ter um papel central junto aos trabalhadores da indústria metalúrgica no processo de reconversão dessas fábricas para produção desses itens que estão em falta em todo mundo e são fundamentais para a manutenção de milhares de vidas. Ajudando não só o Brasil, mas também outros países, como os do continente Africano, cuja espoliação imperialista leva a casos como o da República Centro-Africana em que 5 milhões de pessoas tenham apenas 3 respiradores. Como a pandemia do coronavírus não causa somente impactos sanitários, mas afeta socialmente as relações entre as pessoas, os estudantes de humanidades poderiam agora se voltar para pesquisar qual o impacto da doença nas favelas e comunidades pobres, e juntamente com os moradores desenvolver projetos que busquem ajudar a população. Ou estudos sobre o porque a população negra tem a taxa mais alta de mortalidade pelo vírus, e qual a sua relação com as heranças escravocratas, ajudando a pensar as respostas mais de fundo sobre a situação da população negra no Brasil.

Diante do deficit habitacional e dos problemas estruturais como a falta de água para mais de 31 milhões de pessoas em suas casas, os estudantes de arquitetura, design e engenharia poderiam ao lado dos trabalhadores da construção civil pensar um grande plano emergencial de obras públicas que pudesse resolver esses problemas mais imediatos e apontar as perspectivas de resolução das questões estruturantes em relação às moradias das pessoas. Os estudantes de economia poderiam pensar juntamente com os trabalhadores bancários, qual a necessária distribuição de renda para a população e como a economia pode funcionar de forma mais racional atendendo aos interesses da população e não dos capitalistas. Aqueles que cursam licenciatura podem juntamente com os professores pensar como e quais projetos devem ser feitos em relação a educação das crianças e jovens, não aceitando a imposição de ensino remoto que muitas secretarias de educação vem tentando colocar, mas pensando um plano que atenda as necessidades reais dos estudantes, debatido em conjunto com eles e seus pais, pensando cada especificidade colocada nesse novo cenário e não fingindo que está tudo normal. São inúmeras as possibilidades que se colocam, a crise deixa ainda mais concreta a possibilidade de que possamos ser um sujeito na transformação da sociedade, o que passa necessariamente por se colocar ao lado da classe trabalhadora, a única capaz de dar uma resposta de fundo que transforme esse sistema que gera mortes e destruição.

Não estamos sozinhos e nossas entidades estudantis são ferramentas para nos organizarmos

A necessidade de isolamento social e quarentena da forma como foi imposta pelos governadores e militares levou a uma divisão, parte da juventude é obrigada a trabalhar nos empregos mais precários, como os entregadores de aplicativo, pois essa é a única forma de garantir sua sobrevivência. A outra parte está presa em suas casas, muitas vezes sozinhos e obrigados a suportar suas famílias conservadoras, tendo que reprimir nossa liberdade com o corpo e sexualidade, muito mais suscetíveis às doenças psicológicas, como ansiedade e depressão. Mas não estamos sozinhos. A comunicação virtual ao mesmo tempo que não permite o calor do abraço, encurtou as distâncias, posso na mesma ligação falar com meus amigos da minha cidade, mas também aqueles que estão em outro continente. Ainda que num primeiro momento foi difícil se adaptar e estejamos permanentemente pensando o que está acontecendo, agora também precisamos usar esses meios para nos organizar, para estar ao lado daqueles que nos fortalecem. Nossas entidades estudantis seguem tendo um papel muito importante. Se não existe mais o espaço físico da universidade para promover o encontro, entre aqueles que estão em quarentena e aqueles que continuam trabalhando, podemos usar a internet para nos comunicar e nos organizar.

É nesse marco que se faz necessário debater os limites da política defendida pela maioria das entidades estudantis, que terminam por nos coloca numa espera passiva, esperando que os políticos burgueses resolvam a crise sanitária, sem apontar uma perspectiva alternativa. Hoje a União Nacional dos Estudantes é dirigida majoritariamente pelo PCdoB de Flávio Dino, o mesmo que disse que Bolsonaro deveria entregar o governo para Mourão, e pelo PT que pela via dos seus governadores aceita o protagonismo de Dória na condução da política alternativa a Bolsonaro diante da pandemia. Mesmo as organizações de esquerda e que fazem oposição a majoritária, como as correntes do PSOL, o Correnteza (UP) e o Movimento por uma Universidade Popular (MUP/PCB) se dividem entre a defesa da renúncia do Bolsonaro ou do impeachment. Ou seja, ambas terminam se adaptando a ideia que só temos duas opções: ou os milicos assumem o poder ou Bolsonaro segue governando.

Como alternativa a essa política reinvindicamos as iniciativas realizadas pelos centros acadêmicos da letras e da educação na USP, entidades compostas pela juventude Faísca e independentes, que desde o início da pandemia buscou promover reuniões virtuais com os estudantes, lives com professores, campanhas em defesa dos estudantes mais atingidos pela precarização da universidade, lutou pelos direitos dos trabalhadores terceirizados e efetivos, promoveu ações de solidariedade para os moradores da comunidade ao redor da universidade, defendendo testes massivos, entre diversas outras iniciativas. Um importante exemplo de como é possível seguir nos organizando e nos fortalecendo tendo em nossas entidades um importante referência política para o conjunto dos estudantes, mesmo nesse momento. Agora mais do que nunca, é preciso que retomemos nossas entidades como instrumento de organização. Mesmo diante dessas novas condições da pandemia, podemos seguir nos unificando para colocar nosso conhecimento e nossas universidades totalmente a serviço do combate a crise e a esse sistema capitalista que só nos oferece misérias. Nos aliando com a classe trabalhadora na luta por uma resposta de fundo para a crise política, sanitária e econômica. O que passa também por defender que o povo decida os rumos do país, por meio de uma assembleia constituinte livre e soberana, como forma de dar uma saída a altura das grandes mudanças em curso, com os estudantes lado a lado da classe trabalhadora, que está na linha de frente da luta por colocar em primeiro lugar nossas vidas e não os lucros dos capitalistas.

Essa é perspectiva que defendemos desde o Esquerda Diário e a juventude Faísca. São por essas ideias que lutamos, impulsionando a Rede Internacional La Izquierda Diario, em 12 países e 8 idiomas. E chamamos todos que desejam construir essa saída a fazer parte dos nosso comitês virtuais em diversas cidades e estados do país.

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