TEORIA

A Comuna de Paris e o velho leão sem juba de Karl Kautski [Marx]

O amargo costume de certa esquerda de recortar o Marx que lhe interessa. Por que Kautski precisava desconstruir a visão de Marx da Comuna de Paris?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 22 de junho de 2016| Edição do dia

Os combatentes da Comuna de Paris (communards) adotaram, de início, uma atitude de relativa clemência e generosidade em relação às agressões impiedosas dos seus inimigos (ou seja, o grupo governista de Thiers e sua corja, que se refugiaram nos arredores de Paris, em Versalhes). Em suas análises da Comuna de Paris, a certa altura, Marx comenta a postura, em certos momentos tolerante, dos communards em relação ao adversário.

Kautski vai elogiar essa menção de Marx, para criticar o governo bolchevique, em 1920, tentando mostrar a estes como implacáveis e aos communards como clementes e também democratas. Alguma coisa do tipo a boa e tolerante Comuna e os maus bolcheviques de Lenin.

Lembremos a que a essa altura Kautski era um crítico feroz da vitória bolchevique na Rússia e procurava qualquer pretexto para abrir fogo contra. Interessadamente, vai mutilar a análise de Marx, vai deixá-lo, como diz Trotski, parecendo com Buda ou com o pacifista Leon Tolstoi, um Marx apóstolo da concórdia universal. Teremos, nessa medida, um Marx tosquiado, ou ainda nas palavras de Trotski, um “bom Marx despojado de sua juba branca de velho leão, um venerável pensador, devoto dos altares da democracia”.

Aqui a verdade ficou de fora do texto de Kautski e ficou perdido o sentido geral do pensamento estratégico de Marx.

Marx respondia, no imortal “A guerra civil na França”, à chuva de críticas, especialmente dos liberais, que pintam a Comuna de Paris como um bando de celerados, de selvagens e que “felizmente” foram vencidos pela ordem [qualquer semelhança com as calúnias contra a “violenta” comuna agrária de Canudos não será mera coincidência].

Marx, no entanto - agora procurando tomar seu pensamento integral -, mencionava, e em seguida lamentava, certas atitudes dos communards que, parecendo ser generosas para com o adversário, eram, na verdade, um vacilo. Eram fruto de uma lamentável irresolução. Marx defendeu a batalha dos communards contra o poder burguês mas é preciso registrar que ao mesmo tempo em que mencionava “a clemência da Comuna, que havia perdido a partida, ele não guardava nenhuma dúvida sobre as medidas que uma futura Comuna teria de tomar, para ganhar essa mesma partida”.

Trotski analisa essas questões em sua réplica a Kautski em um notável texto, seu, sobre a Comuna de Paris [ver referência ao final]; e critica as posições de Kautski contra a Revolução Russa. Trotski destaca o quanto a Comuna de Paris deveria ter sido mais implacável e lembra que

Marx acusa a Comuna de não haver imediatamente tomado a ofensiva contra os versalheses, de ter-se mantido na defensiva, o que, é verdade, produz uma impressão mais ´feliz´, permite apelar para a lei moral e para os direitos sagrados da vida humana, mas, no caso de guerra civil, não conduz jamais à vitória. Ora, antes de tudo o mais, Marx formulava votos para a vitória da revolução. Ele não diz uma só palavra para pôr o princípio da democracia acima dos interesses da classe militante. Ao contrário, com aquele desprezo concentrado que caracteriza nele o revolucionário e o comunista, Marx, não o jovem redator da Gazeta do Reno, mas o espírito maduro, o autor de O Capital, nosso verdadeiro Marx, enfim, com a possante juba leonina que os barbeiros da escola de Kautski ainda não tosaram, com que desprezo concentrado não fala ele da ´atmosfera artificial de parlamentarismo´, na qual os pequenos Thiers (pequenos corpos, pequenas almas) mostram ares de gigantes!

Marx se bate contra a democracia formalista e artificial dos Thiers e em defesa da ditadura revolucionária da Comuna de Paris. Com ou sem os Bonaparte, a verdade é que a democracia burguesa evoluiu para uma democracia em decomposição ou então para bonapartismos. E quanto ao proletariado, a essência do seu regime deve ser classista, sem o artificioso formato da democracia formal. Marx jamais propõe e nem dá qualquer destaque ao democratismo (tipo Kautski).

Kautski, na verdade fazia a lamentável operação de jogar a Comuna tal qual ele a entendia, contra o “ditatorial” governo bolchevique. Kautski considerava aquele regime – da Comuna de Paris - de assembleias locais [sovietes] que escolhem delegados para uma Assembleia Nacional como muito complexo, comparado com o da democracia burguesa. Novamente mutila Marx que aponta para a estrutura da França operária, tal como a esboçara a Comuna, da seguinte maneira:

A gerência geral dos negócios de todas as comunas rurais de cada distrito deve ser confiada a uma assembleia de procuradores, estabelecidos na sede; as assembleias de distrito devem, por sua vez, enviar seus procuradores à Assembleia Nacional, estabelecida em Paris”.

Trotski destaca que

Marx não encontrava nada a alterar na multiplicidade de graus do sistema eleitoral, quando se tratava de organizar o Estado proletário. No quadro da democracia burguesa, esta multiplicidade de graus apaga as linhas distintivas dos partidos e das classes. Mas no sistema de ´autonomia administrativa dos produtores´, isto é, no Estado puramente proletário, a multiplicidade de gradações é um assunto que interessa, não à política, mas ao mecanismo de administração autônoma”.

Para Marx, a chave para entender a Comuna de Paris é sua tentativa de se levantar contra os regulamentos, as formas da democracia burguesa e sua rigidez.

Portanto, para Marx, no argumento de Trotski,

a Comuna era uma forma governamental muito elástica, enquanto as outras formas de governo que a haviam precedido distinguiam-se por sua rigidez. O segredo da Comuna reside no fato de que, por essência, ela era o governo da classe operária, o resultado da luta que se havia travado entre os produtores e os apropriadores, a forma política, finalmente encontrada, que permitia realizar a emancipação econômica do trabalho. O segredo da Comuna consistia no fato de que, por essência, ela era o governo da classe operária. Este segredo, tão bem explicado por Marx, permanece sendo para Kautski, até o presente, um segredo envelopado, lacrado a sete selos”.

Em outro momento, Kautski critica a Comuna de Paris por ter, mais adiante, exagerado na repressão aos seus adversários. E que os communards, na sua ótica, teriam que ter sido ou continuarem sendo “liberais” com a repressão. Trotski vai refutar essa parcialização de pretender enxergar uma Comuna que ora reprime de mais ora reprime de menos e que deveria funcionado segundo aquela idealização interessada de Kautski. Mas é o próprio Marx que respondeu “às baixarias da imprensa” e às censuras “dos burgueses doutrinários bem-intencionados”, a respeito das repressões exercidas pela Comuna, com estas palavras:

Não se contentando em conduzir abertamente uma guerra sanguinária contra Paris, os versalheses esforçavam-se secretamente em penetrar na cidade, através da corrupção e das conspirações. Podia a Comuna, num momento assim, sem trair de maneira ignominiosa a sua missão, observar as formas convencionais do liberalismo, como se a paz, em torno dela, não houvesse sido jamais perturbada?

Dessa forma, nada de novo: as exigências da esquerda tipo Kautski, de que os combatentes da Comuna de Paris deveriam ter sido mais “liberais” com seus adversários mortais [que, em seguida fuzilaram aqueles combatentes às dezenas de milhares em toda Paris], e da mesma forma deveriam ter agido os bolcheviques na sua guerra civil contra as maiores potências industriais do planeta. Com isso mal escondem seu apego à artificiosa democracia burguesa.

Democracia proletária não é sua estratégia. Seu ideal é a conciliação de classe. Por isso Kautski toma para si o Marx do momento em que ele menciona a “generosidade” dos combatentes da Comuna de Paris contra seus adversários, um Marx tipo Buda, ou um Marx fiel adepto de Kautski, mas oculta a crítica do mesmo Marx à lamentável irresolução da conduta política dos communards contra o sanguinário poder burguês inimigo e também as propostas estratégicas de Marx pela democracia proletária. “A Comuna era”, escreve ele, “uma instituição, não parlamentar, mas operária, e acumulava as funções dos Poderes Executivo e Legislativo.”

Novamente temos o argumento de Trotski:

O que Marx coloca inicialmente em realce não é a forma democrática, cara a Kautski, mas o caráter essencial de classe. A Comuna, como se sabe, havia suprimido o exército regular, a polícia e decretara a secularização dos bens eclesiásticos. Fizera isso autorizada pelo direito revolucionário ditatorial de Paris, sem consultar o poderio soberano da democracia [burguesa, NT], o qual, durante esse período, se nos prendêssemos às formas pré-estabelecidas, encontrava uma expressão muito mais ´legal´ na Assembléia Nacional de Thiers. Mas uma revolução não se perde em ambivalências. “A Assembleia Nacional”, diz Marx, “não desempenhava nem mais nem menos que um papel episódico nesta revolução, cuja autêntica representante permanecia sendo, ainda e sempre, a Paris armada.” [...] “Teria bastado ao regime comunal instalar- se em Paris e nos centros secundários para obrigar o antigo governo legal a ceder o lugar, mesmo nas províncias, às administrações autônomas de produtores.

Portanto, não tem a ver com Marx a perspectiva e o regime que Kautski imaginava para a Comuna de Paris. Absolutizando o papel do parlamento, da Constituinte, os limites que Kautski coloca para toda revolução social, proletária, são claros. Com a palavra Trotski:

A tarefa da Paris revolucionária consistia, então, segundo Marx, não em chamar de sua vitória o assentimento mal-garantido de uma Assembléia Constituinte, mas em cobrir toda a França com uma rede de comunas, agrupadas em torno do centro e constituídas não segundo os princípios específicos da democracia, mas baseando-se numa incontestável autonomia administrativa dos produtores”.

Essa dialética combinação entre a defesa da mais ampla democracia proletária e a firmeza tática contra os inimigos estratégicos escapa totalmente a K Kautski e a setores da esquerda que desenvolvem, ainda hoje, a tendência a produzir um Marx conveniente, seja democratista, seja populista, mas sempre a la carte para a conciliação de classes.

(As citações de Trotski integram o livro A Comuna de Paris, de Trotski, publicado pela ISKRA/Centelha, disponível no site)




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