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A ‘CEOcracia’ de Temer: um futuro gabinete cheio de banqueiros e empresários

O atual vice-presidente, insatisfeito com os inúmeros ataques do governo do PT aos salários e aos direitos sociais dos trabalhadores e a onda de privatizações, quer adotar para si a figura moderadora do ajustador, resgatando os exemplos da austeridade européia para se tornar o Rodriguez Zapatero ou Myriam El Khomri do Brasil: responsáveis pela “terapia dos sacrifícios” contra os direitos econômicos, políticos e sociais dos trabalhadores no Estado espanhol e na França.

André Acier

São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 25 de abril de 2016| Edição do dia

Mais cedo neste domingo, ele recebeu, por mais de seis horas, o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf. Segundo Skaf, Temer "ouviu atentamente" as propostas da Fiesp, que incluem a realização de um ajuste fiscal sem que haja aumento de impostos -o que, para ele, esfriaria ainda mais a economia.

O gabinete estimado por Temer está impregnado de ilustres banqueiros e empresários. Armínio Fraga e Henrique Meirelles estão cotados por Temer para o Ministério da Fazenda. Os nomes sondados para o Banco Central são os de Ilan Goldfajn, Amaury Bier e Mário Mesquita. Até mesmo Murilo Portugal, Presidente da Febraban (federação dos bancos), é cogitado para assumir o BC. Para a Previdência se cogita Roberto Brant, ex-ministro de FHC. Para a Saúde, provavelmente José Serra, e inúmeros outros tucanos que serviram sob Serra e Alckmin para outras pastas. Um “gabinete dos ajustes” de um eventual governo Michel Temer. Vários deles estiveram já servindo (como Roberto Rodrigues e Meirelles) os ataques que os governos do PT aplicaram contra os trabalhadores. Na nova administração Temer, viriam para arrancar os véus e aplicar outra agenda de ataques ainda mais duros e declarados à classe trabalhadora, com privatização, a flexibilização das leis trabalhistas e o fim da indexação da aposentadoria com a inflação.

Como desafiou o Financial Times, "Para convencer totalmente os mercados, entretanto, Temer precisará apontar chefes de peso para as finanças e para o Banco Central. Para contrapor os argumentos de que o impeachment é um golpe mal disfarçado, terá de designar um peso pesado na Justiça [...] Será capaz de fazer mesmo a metade disso? Sua chance será breve e não tem mandato popular para executar um programa abrangente de reformas econômicas”. Conheçamos como Temer buscar “apanhar a luva” lançada pelos financistas.

Banqueiros e empresários na CEOcracia de Temer

Ilan Goldfajn, cotado para o BC. É ex-diretor do BC e atualmente economista-chefe do Itaú. Entre 1996 e 1999, trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) e, no período de 1995-1996, foi professor assistente na Universidade de Brandeis, em Massachusetts. Foi membro do Conselho de Administração da Cyrela Commercial Properties de 2007 a 2013.

Amaury Bier, cotado para o BC. É ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo FHC). Membro da Gávea Investimentos, gestora de recursos sediada no Rio de Janeiro, pertencente ao banco americano J.P. Morgan Chase & Co. No setor privado, ele foi economista-chefe do Citibank Brasil (do início de 1994 até meados de 1996); sócio da empresa de consultoria Kandir & Associados (1992-1993); e economista sênior da Sadia e da Copersucar.

Mário Mesquita, também cotado para o banco Central. É ex-diretor do Banco Central e sócio do banco Brasil Plural. Economista-chefe para a América Latina e assessor do Banco ABN AMRO, em São Paulo. Foi economista do Fundo Monetário Internacional em Washington de junho de 1997 a setembro de 2000 (Departamentos do Hemisfério Ocidental, Monetário e Cambial e Europeu).

Henrique Meirelles seria o responsável pela Fazenda. Ex-presidente do Banco Central (governo Lula). É um conhecido executivo do setor financeiro brasileiro e internacional, ex-presidente do Banco Central do Brasil (BCB) onde permaneceu no cargo de 2003 a 2011. Sua carreira se iniciou em 1974 no BankBoston onde trabalhou por 28 anos com atuação nacional e internacional. Em junho de 1984, com o seu retorno ao Brasil, Meirelles foi nomeado presidente do BankBoston no país, cargo que ocupou por 12 anos. Enquanto esteve nos Estados Unidos, Meirelles foi um dos mais populares membros da corte de Bill Clinton.
Em 2012, a convite do presidente o conselho de administração da JBS, Joesley Batista, Henrique Meirelles assumiu o Conselho Consultivo da J&F, holding que controla 7 empresas, dentre elas a JBS, maior empresa de carnes do mundo. O Grupo J&F tem receita total estimada em R$ 65 bilhões.

Armínio Fraga é o grande desejo de Temer. Ex-presidente do Banco Central do Brasil e sócio-fundador da Gávea Investimentos, Armínio Fraga é um dos economistas mais influentes do Brasil. Fraga é, ou já foi, membro de diversas organizações internacionais incluindo o Group of Thirty (Grupo dos Trinta), e o Conselho Internacional do banco JP Morgan. Fraga começou sua carreira profissional em 1985, como economista-chefe no Banco de Investimentos Garantia, no Brasil. Dois anos mais tarde, assumiu o cargo de vice-presidente do banco de investimentos Salomon Brothers em Wall Street. Em agosto de 1993, foi contratado como diretor da Soros Fund Management LLC (do magnata George Soros), em Nova York, onde permaneceu por 6 anos. Lá era responsável pelo gerenciamento de fundos de alto risco e de toda sorte de investimentos em países emergentes. Assumiu a presidência do Banco Central do Brasil em março de 1999, durante o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Para a Economia também são sugeridos Marcos Lisboa (foto) e Gustavo Franco. Lisboa é Presidente do Insper, foi secretário de Política Econômica da Fazenda (Lula). De 2006 a 2009 atuou como diretor executivo do Itaú-Unibanco e de 2009 a 2013, como vice-presidente. Já Gustavo Franco é ex-presidente do Banco Central na gestão FHC. É estrategista-chefe da Rio Bravo e presidente do Instituto Millenium. Foi presidente do Banco Central do Brasil, e também diretor da Área Internacional do Banco Central e Secretário Adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Sérgio Amaral é sondado para o Ministério de Relações Exteriores. Suas honorárias credenciais o levam a ser membro do Conselho Internacional da petroleira Total (França), do Conselho Mercosul da Plastic Omnium, do Conselho de Administração da AES Eletropaulo e da AES Tietê. Foi também presidente do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC) no período 2009-2015.

João Sampaio, chefe da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é estudado para a pasta da Agricultura. Dificilmente se diferenciaria da amiga de Dilma Kátia Abreu. Foi presidente da Comissão Nacional da Borracha da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) entre os anos (1996-2002).Também vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo e vice-presidente da Associação Paulista dos Produtores de Borracha. Em 2002 foi eleito presidente da Sociedade Rural Brasileira, (2002-2007).

Combater o golpe e os ataques dos governos

Um modus operandi semelhante ao que teve o argentino Mauricio Macri, que alguns minutos após triunfar nas presidenciais compôs um governo em que os donos financeiros do país se achavam dentro do próprio governo. Parafraseando o poeta, “aqui não reina o infame Macbeth, quem reina é Banko”. A diferença é que Temer ainda não assumiu e se o fizer, ao contrário do eleito Macri que recebeu de Obama o selo de “novo líder regional”, será fruto de um golpe institucional que não animou nenhum governo mundial a se pronunciar em apoio.

Se assume Temer e esta “CEOcracia”, o cenário estratégico de ataques às conquistas dos trabalhadores se acirra. Dificilmente um governo Temer-Serra-Cunha que assuma conseguirá aplicar ajustes sem uma feroz resistência da luta de classes, uma vez que estará com o estigma do golpe inscrito na testa de cada “canetada”. Esta incapacidade de disciplinar o movimento de massas com um PT na oposição – ainda que enfraquecido pela derrota fragorosa no domingo – é a razão pela qual a imprensa internacional (seguida por setores do partido midiático brasileiro) começa a chamar “eleições gerais” antecipadas, como fez o The Economist. Curiosamente, a mesma política de PSTU e MES (corrente interna de Luciana Genro no PSOL), uma esquerda que se habituou a ser a quinta roda do golpe e da política da direita e cuja política terá como conseqüência lavar a cara do regime político burguês e relegitimar os ataques.

Não precisamos de showmícios; precisamos de um plano de combate contra o golpe e os ataques com os métodos da classe operária: greves, paralisações e piquetes contra a patronal. O Esquerda Diário insiste na exigência que a CUT, a UNE, CTB impulsionem um imediato plano de luta contra o golpe e os ataques dos distintos governos. Neste plano de luta reside a importância não só da viva resistência ao golpe mas com que organização a classe trabalhadora e a juventude preparam-se para um bonapartismo de direita e mais ajustes que os que já vinham sendo promovidos pelo PT.




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